“Nós” a aprisionam(os) e ninguém a libertará de seu corpo, Isabola(bela). Há cicatrizes em sua beleza. À medida que sua existência se desfaz em dores, acredite, será n’alma a intervenção cirúrgica mais eficaz.
O número As Cicatrizes na Sua Beleza é uma representação artística suscitada por meio de inúmeras vivências pessoais que se revelaram potencialmente devastadoras. Geradoras de dores, aflições e constrangimentos que me conduziram a incertezas sobre minha própria existência, antecipando ainda questionamentos que a muito tempo eram preparados.
Desde de crianças somos ensinadas e bombardeadas com imposições em relação a padrões estéticos e comportamentais, na maioria das vezes são inatingíveis, que fazem com que tendamos a desenvolver distúrbios alimentares, adoecimento mental e físico, questões infelizes e banalizadas nos dias de hoje. Assim, por ser suprimida a possibilidade de percebermos quem somos e o que nosso corpo pode significar para nós mesmos, no contato com os outros e com o mundo, uma sensação de aprisionamento se instala.
A priori, por me sentir limitada, “relacionar-me” com o tecido acrobático foi um grande desafio, contudo, a maneira mais lúcida e poética que encontrei para contestar minhas próprias fraquezas, formalidades sociais, culturais e deturpados princípios político-governamentais que, historicamente, coagiram e violentaram o meu corpo e tantos outros corpos desajustados.
Como protesto, apresento os meus movimentos, pois eles me permitem transcender e compreender “o que pode meu corpo”. Eu me conecto ao tecido para que as restrições impostas pelos sistemas não me alcancem mais, porque, sim, eu posso ir mais alto e, assim como outras pessoas, inadequadas, não quero me encaixar.
Desfaço os nós para me libertar, desfaço os nós para nos libertar, ainda que a liberdade seja uma utopia. O meu corpo não se acomoda em padrões compulsórios de beleza que, ironicamente, são cambiantes e inalcançáveis. O meu corpo é protesto, meus movimentos são uma multidão. Por essa razão, as técnicas de acrobacias de solo e aéreas, foram requisitadas, elas me levam além e são o ponto alto da minha emancipação.
Há cicatrizes na minha beleza, frutos das feridas abertas por palavras (mal)ditas. Há cicatrizes na sua beleza, que derivam dos suplícios motivados pela autoestima perdida. Há cicatrizes em várias belezas, quando foi que fechamos os olhos para elas?
Numa sociedade de controle as relações de poder direcionam a conduta dos sujeitos, que passam, tragicamente, a controlar aos outros e a si mesmos. Demande tempo, invista dinheiro e voilà sejam forever young. Como num passe de mágica surgem mais e mais, receitas, produtos e/ou serviços que prometem a espécie humana alcançar a “imortalidade”, neste ínterim, tanto a espera como a busca por um corpo perfeito fazem com que experimentemos a superficialidade e aquilo que não é real.
Felicidade, boa forma e juventude encontram-se a um procedimento estético de distância, revelam os cirurgiões plástico. Ademais, contestáveis padrões de beleza são construídos e socialmente reforçados, ainda que seja impossível sustentá-los. Cirurgicamente o fim é adiado, quer seja a perfeição possível quer não, fato que explica o desejo e a procura constante pelas intervenções e correções estéticas.
A expectativa criada é de que a beleza está ao alcance de todas/os que se comprometem, assumem os riscos e “absoluta responsabilidade sobre suas aparências físicas” , o que desencadeia uma crescente insatisfação com o corpo. A publicidade veicula imagens de mulheres e homens perfeitas/os, “barrigas negativas”, “bumbuns empinados” e milhões de exercícios para mantê-los; inúmeras dietas; suplementos caríssimos; ter/ser um corpo nunca custou tanto. Dizem que se estivermos pálidas/os demais um bronzeamento artificial na medida cai bem, entretanto, é preciso ter em mente que para atingir o “belo” ideal (infelizmente) a referência ainda é o branco.
Corpos sarados, feminilidades hiperbólicas, as formas idealizadas também podem ser consideradas as mais decentes . Se os dentes não estiverem perfeitamente brancos, os atributos físicos devem ser extremamente atrativos, caso contrário, ao invés de um outro corpo, serão as carências, a ansiedade, os transtornos e/ou a depressão, as novas e únicas companhias a ocuparem o espaço vazio que resta entre os nossos corpos e as telas dos celulares.