Nos anos 1960, as indústrias automotivas promoveram a economia e o automobilismo, processo guiado pelo plano de metas de Juscelino Kubistchek (1955-1960). São Paulo (SP) sediou estas indústrias e era a única cidade brasileira com autódromo – Interlagos (construído em 1940). Nesta época, a corrida mais importante no Brasil era o Circuito da Gávea na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Com o fim desta corrida em 1954 e a instalação das indústrias em SP a partir de 1955, Interlagos despontou no cenário nacional. As fábricas descobriram as corridas como solução para testar os carros. Surgia uma simbiose entre fábricas e Interlagos.
Com a transferência do distrito federal para Brasília em 1960 a cidade do RJ foi transformada em Estado da Guanabara (EG), cujo autódromo conhecido como; de Jacarepaguá, foi construído em 1966 diante do crescimento do automobilismo nacional, surgindo também como salvação para o automobilismo local, que desde o fim do Circuito da Gávea tinha poucos eventos (ELIAS, 2015).
Em 1967, Interlagos foi fechado para reformas e a pista carioca se tornou a única ativa no país, oportunidade para a cidade voltar a protagonizar as corridas. Porém, o Estado da Guanabara (EG) não tinha as indústrias de SP e vivia uma crise política, incapaz de criar qualquer simbiose. Em 1970, Interlagos foi reaberto e as atenções voltaram para lá, inclusive com a F-1 (1972-1977).
A relação de SP com o automobilismo baseada na industrialização automotiva e sucesso deste esporte é clara. Com fatos que justificam a F-1 em SP, a pergunta que surge é: por que em 1978 a F-1 ocorreu no RJ?
Realizou-se uma pesquisa bibliográfica e documental no Jornal do Brasil e O Globo de 1977 e 1978 publicados nas semanas da corrida com informações dos eventos, que aliados a livros sobre a economia e política do RJ esclarecessem a questão.
O RJ passava por um esvaziamento político desde que deixou de ser capital. Nos anos 1970, a possibilidade da fusão dos dois estados, RJ e EG, conturbaram o cenário político. Um problema para a União, pois o EG era uma oposição com ressonância no país. Chagas Freitas, governador do EG (1971/1975) tinha a missão de dotar o Estado de autonomia para se afirmar na federação (SARMENTO, 1999).
Sem sucesso, a fusão foi inevitável. O Almirante Faria Lima foi indicado interventor pelos militares e incumbido da tarefa de transformar a Guanabara e o Rio de Janeiro numa unidade da União. Os objetivos eram o desenvolvimento econômico com a criação de zonas industriais em Jacarepaguá e Santa Cruz, e ocupação do território através do Plano Lucio Costa para urbanização da Barra da Tijuca e Baixada de Jacarepaguá. O sucesso disso era importante para afirmar propostas federais convencendo o povo da fusão (Motta, 2000).
Em 1977, a corrida de F1 em SP terminou com sete dos vinte e dois carros que largaram além de prejuízos para organizadores, devido invasões no autódromo que com muros baixos permitia que muitos entrassem sem pagar (JB. 1977. p. 22/23). Coincidentemente, em 1977 o autódromo de Jacarepaguá foi reformado durante o governo de intervenção. Pista e boxes modernos, muros altos e grandes arquibancadas dotavam ele de características que solucionavam os problemas de Interlagos (O Globo 1978, p.26).
Concluímos que as intenções políticas do governo de intervenção têm íntima relação com a reforma do autódromo e a realização da Fórmula-1 no RJ em 1978 como propaganda das suas intenções políticas e econômicas. Para a cidade era uma forma de apresentar o novo bairro planejado e promover sua ocupação.
As questões que ficam são: Por que em 1979 e 1980 a F1 voltou para SP e em 1981 em definitivo para o RJ até 1989? A Tese de Doutorado sobre F1 no RJ da qual este trabalho faz parte pretende respondê-las.
REFERÊNCIAS:
Elias, R. V. A indústria nacional de automóveis e o automobilismo brasileiro: contrastes entre Rio de Janeiro e São Paulo de 1956 a 1966. Revista Brasileira de Ciências do Esporte, Campinas. v.37, n.2, p. 172-178, Abril-Junho 2015.
Mota, M. S. Saudades da Guanabara. FGV. Rio de Janeiro. 2000
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro. 25 de Jan. de 1977. p.22/23.
O globo, Rio de Janeiro. 28 de Jan. de 1978. p.26.
Sarmento, C. E. A morte e a morte de Chagas Freitas. A (des)construção de uma imagem pública: trajetória individual e reelaboração memorialística. Rio de Janeiro. CPDOC. 1999. Disponível em:
http://bibliotecadigital.fgv.br/dspace/handle/10438/6848. Acesso em: 10/02/2019.