AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA COMO PROCESSO INTERVENTIVO EM CRIANÇAS COM QUEIXAS ESCOLARES

Vol 1, 2023 - 168866
Trabalho em Andamento – Resumo Expandido
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Resumo
INTRODUÇÃO Para compreender as dimensões do termo avaliação psicológica (AP) se faz necessário analisá-lo em sua historicidade. Vieira (2021) traça um percurso histórico sobre como foi se tornando necessário a criação de técnicas e métodos que contribuíssem para avaliar o funcionamento normal e/ou patológico das dimensões psíquicas dos indivíduos, em prol da manutenção do sistema capitalista o qual se mantém através da contradição inclusão/exclusão. Historicamente, a Psicologia adentra aos espaços escolares sendo mais um dispositivo de controle e normatização. Patto (1987, p.96) afirma “[...] a psicologia nasce com a marca de uma demanda: a de prover conceitos e instrumentos “científicos” de medida que garantam a adaptação dos indivíduos à nova ordem social”. Deste modo, o conceito de queixa escolar vem se consolidando, no intuito de questionar o processo de individualização/responsabilização das crianças e suas famílias pela não apropriação dos conteúdos escolares (Souza, 2020). Queixas que ao serem denominadas de dificuldades de aprendizagem transpõem problemáticas escolares e sociais para o campo biológico e médico. Com a intenção de problematizar estas práticas, se propõe uma práxis psicológica ancorada em uma perspectiva histórica e dialética, que tenha uma unidade indivisível entre o campo afetivo e cognitivo, os quais impactam diretamente no processo de aprendizagem (Vieira, 2021). Assim, esta pesquisa de mestrado, em andamento, tem como objetivo realizar avaliações psicológicas interventivas à luz da Teoria Histórico-Cultural (THC) com crianças que apresentam queixas escolares. Também visa: contrapor as avaliações tradicionais com a realizada pelo viés Histórico-Cultural e; refletir acerca da avaliação-intervenção como prática educativa. Nos ancoramos na compreensão de que é essencial que a Psicologia como ciência e profissão se insira criticamente no âmbito escolar e educacional, a fim de romper com o processo de avaliação a-histórica que rotula e estigmatiza as crianças, (re)inventando a cada tempo transtornos e doenças que mais se relacionam aos ideários sociais vigentes do que aos próprios sujeitos. Neste trabalho apresentamos os resultados iniciais de nossa pesquisa, especialmente, aqueles referentes à revisão de literatura por nós realizada. METODOLOGIA             A pesquisa é pautada nos pressupostos epistemológicos e metodológicos do materialismo histórico dialético, tendo como base os referenciais teóricos da THC. Realizamos um levantamento bibliográfico na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações – BDTD, visando compreender como a presente temática tem sido debatida no contexto das pós-graduações. Estabelecemos como critérios: estudos em português, entre 2007 à 2023. Este intervalo foi escolhido, pois em 2007 foi publicado a primeira versão do livro Orientação à queixa escolar (Souza, 2020) o qual tornou-se referência para as estudiosas/os do tema. Para serem incluídos na pesquisa os trabalhos deveriam realizar discussões sobre o processo de AP realizada sob um viés crítico com o intuito de investigar as dificuldades de escolarização. Não incluímos estudos que debatiam sem aprofundamento teórico/prático a AP de caráter interventivo ou que debatiam a atuação do psicólogo escolar de modo geral. Localizamos 138 trabalhos, destes apenas 7, 4 dissertações e 3 teses, foram selecionadas. Com relação à nossa pesquisa de campo, os participantes do processo avaliativo-interventivo serão crianças estudantes do ensino fundamental I – 2° ano – de uma escola pública da cidade de Catalão-GO, com queixas escolares. Como instrumentos de obtenção de dados teremos: observação participante do contexto escolar; entrevistas semiestruturadas com professoras/es e crianças e; o processo avaliativo-interventivo. Nos basearemos nos estudos pedológicos/instrumentais de Vigotski (2009) e nas propostas de ações elencadas por Vieira (2021) para a formulação das intervenções. Os dados obtidos serão analisados à luz da THC.  RESULTADOS PRELIMINARES             Os resultados referentes ao levantamento bibliográfico, como já anunciamos na Metodologia, se referem à análise de 07 trabalhos, a saber: Chiodi (2012), Luz (2013), Corrêa (2013), Lessa (2014), Terra-Candido (2015), Braga Pani (2017) e Bezerra (2019). Os trabalhos de Chiodi (2012), Luz (2013) e Terra-Candido (2015) de caráter majoritariamente teóricos explicitam os principais conceitos que fundamentam a THC, recorrendo-se as categorias historicidade, totalidade, instrumentalização, mediação, atividade, etc. Ao retomarem a descrição de alguns experimentos realizados por Vigotski e Luria, demostraram a possibilidade de um processo avaliativo processual, explicativo e que busque pela gênese/essência dos fenômenos em desenvolvimento. Já o estudo de Corrêa (2013) não coaduna com a THC e apesar de debater sob um viés crítico as concepções referentes ao processo avaliativo, não se aprofunda na discussão de categorias imprescindíveis para a compreensão do processo de desenvolvimento humano por meio do ensino-aprendizagem. Apenas Lessa (2014), Braga Pani (2017) e Bezerra (2019) efetivaram a prática das avaliações psicológicas de caráter interventivo - apesar de suas diferenças epistemológicas e metodológicas. Estruturando suas abordagens avaliativas-interventivas de modo condizente com os princípios técnicos formulados por Souza (2020) sobre o atendimento direcionado as queixas escolares. Ou seja, colhendo e problematizando as versões da tríade criança-família-escola; promovendo a circulação e reflexão sobre a problemática de um modo conjunto; identificando, mobilizando e fortalecendo a rede a fim de superar a situação produtora das queixas (Souza, 2020).   De modo interseccional os trabalhos refletem sobre a eclosão de “patologias” que dizem respeito ao modus operandi de nossa sociedade. Debatendo igualmente sobre o processo crescente de patologização e consequentemente medicalização das questões de cunho social. Defendem igualmente uma psicologia escolar implicada no desvelamento das contradições que envolvem as dificuldades emergentes no processo de escolarização. CONSIDERAÇÕES PARCIAIS             Percebemos a partir da revisão de literatura as potencialidades e possibilidades de realização de um processo avaliativo lúdico, pedagógico, contextualizado, passível de contribuir efetivamente no processo de ensino-aprendizagem. Fazendo-se essencial uma base teórica que discuta de maneira crítica e histórica a concepção de desenvolvimento humano. Para embasar uma prática que vise conhecer as diversas nuances das queixas escolares e como os sujeitos envolvidos nesta problemática podem ser atores de transformação/superação das dificuldades de escolarização. REFERÊNCIAS BEZERRA, M. dos S. Educação, subjetividade e desenvolvimento humano: construindo bases para uma avaliação psicológica das dificuldades de aprendizagem, em uma perspectiva investigativa. 2019, 218p. Tese (Doutorado em Educação) - Faculdade de Educação da Universidade de Brasília, Brasília, 2019. BRAGA PANI, S. G. De medicações a mediações: avaliação-intervenção psicológica de queixas escolares em casos de diagnóstico de TDAH. 2017, 260p. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2017. CHIODI, C. da S. O processo de avaliação psicológica na perspectiva da psicologia histórico-cultural e suas contribuições para o processo de ensino-aprendizagem. 2012, 150p. Dissertação (Mestrado em Psicologia) – Universidade Estadual de Maringá, Paraná, 2012. CORRÊA, T. de C. Avaliação, diagnóstico e encaminhamento de crianças com necessidades educacionais especiais no sistema municipal de ensino de Londrina. 2012, 122p. Dissertação (Mestrado em Educação) – Universidade Estadual de Londrina, Londrina, 2013. LESSA, P. de. O processo de escolarização e a constituição das funções psicológicas superiores: subsídios para uma proposta de avaliação psicológica. 2014, 622p. Tese (Doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2014. LUZ, H. A. B. da. O lugar da emoção na avaliação psicológica de dificuldades de aprendizagem: aberturas à perspectiva Histórico-Cultural. 2013, 173p. Dissertação (Mestrado em Psicologia) - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Campo Grande, 2013. PATTO, M. H. S. Psicologia e ideologia: uma introdução crítica à psicologia escolar. PATTO, Maria Helena Souza (Org.). São Paulo: T. A. Queiroz, 1987. SOUZA, B. de P. Apresentando a orientação à queixa escolar. In: SOUZA, Beatriz de Paula (Org.). Orientação à queixa escolar. São Paulo, Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 2020, 1° ed. 2007, p. 97-118. SOUZA, B. de P. (Org.). Orientação à queixa escolar. Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, 1° ed. 2007, São Paulo: IPUSP, 2020. 421p. TERRA- CANDIDO, M.  Não aprender-na-escola: a busca pelo diagnóstico nos (des)encontros entre saúde e educação. 2015, 208p. Dissertação (Mestrado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano) - Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2015. VIEIRA, A. P. A. Avaliação psicológica de crianças que enfrentam dificuldades escolares: Proposta a partir da psicologia histórico-cultural. Ana Paula Alves Vieira (Org.). Paranavaí: EduFatecie, 2021. DOI https://doi.org/10.33872/edufatecie.avaliacaopsico. Acesso em 02 de out. de 2023. VIGOTSKY, L. S., 1869-1934. A construção do pensamento e da linguagem. Tradução Paulo Bezerra – 2° ed. São Paulo: Editora WMF Martins Fontes, 2009. 496 p. Título original: Michliênie Rietch. ISBN: 978-85-7827-077-3.  

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