OS “INIMIGOS” DENTRO DA UNIVERSIDADE: CONHECIMENTO E A RESSIGNIFICAÇÃO DA VIOLÊNCIA

v. 1, 2019 - 116182
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Resumo

Bruto, opressora, inimizade, guerra, separação, ruptura, angústia, aniquilação, assustados, invadidos, extinção, ameaça, perigo, crimes, maldades, destrutivas, afastar, intrusos, desigualdade, brutalidade, fronteira, estrangeiro, imobilizar, vítimas, deportados, cruéis, funestas, terror, atrocidades, extração, predação, ruína, inimigo, abater, castração, subalterno, improdutivo, retaliação, homicídio, morte, abandonados, racismo e etc. Em apenas algumas palavras, as primeiras 17 páginas da introdução do livro já demonstram a discussão sobre a violência que Achille Mbembe traz à tona em “Politiques de l’inimitié” (2017).
É causando mal-estar que ao ler o livro vamos desvelando os significados do racismo na construção da democracia liberal. Esse racismo que no ocidente não é acidente, mas uma política constitutiva, estruturante do mundo moderno. Mbembe é historiador, filósofo e politólogo camaronês e, neste livro faz uma reflexão em relação a violência do racismo manifestando sua influência dos pensadores como os martinicanos Frantz Fanon e Édouard Glissant e o francês Michel Foucault com o conceito de Biopoder.
Nesses quase 8 anos de vida acadêmica foi pela primeira vez que me aproximo deste tipo de leitura. Como uma boa educadora ainda muito bem colonizada, a não leitura de autores africanos me distanciou das discussões sobre a realidade dos povos negros, o que me causou um estranhamento e dificuldades conceituais na leitura desse livro. Neste trabalho pretendo fazer um exercício ainda incipiente de discutir teoricamente os principais conceitos trazido por Mbembe (2017), fazendo uma relação à algumas reflexões sobre minha pesquisa de doutorado, em andamento, que tem como problemática a seguinte questão: quais desafios e oportunidades de diálogos interepistêmicos e de decolonização do conhecimento emergem da presença indígena, negra, quilombola e de outros povos e comunidades tradicionais (PCT’s) nas universidades públicas?
Tomando como referência empírica as experiências recentes das universidades públicas do Brasil, que ampliaram as políticas de acesso e permanência de estudantes à graduação e à pós-graduação, e tendo como aporte teórico a perspectiva decolonial, busco analisar de que modo a presença desses sujeitos, historicamente excluídos dos espaços privilegiados de produção e validação do conhecimento científico, se traduz em inovações epistêmicas, metodológicas e pedagógicas no ensino superior ou se a universidade é mais um espaço de reprodução dessa necropolítica instaurada.
Meu ponto de partida é considerar essas presenças como oportunidades para o encontro intercultural e para o diálogo interepistêmico horizontal, no enfrentamento das relações de poder-saber que ainda operam nas universidades colonizadas, invisibilizando e produzindo como ausências outros saberes e sistemas de conhecimento.
Acredita-se que os objetivos (re)velados da educação nas Universidades são aqueles que porventura auxiliam mais a adequação em conformidade com a colônia por meio do conhecimento científico do que preocupa-se verdadeiramente com a emancipação dos sujeitos por meio dos saberes, ressignificando a violência institucional, atrelando o genocídio ao epistemicídio.
O conhecimento nas Universidades deveria ter como princípios curriculares a transdiciplinaridade e a interculturalidade dos saberes por meio de pluriepistemologias; não apenas como tendência pedagógica, mas sim como obrigação curricular, seja em espaços formais de ensino ou informais (CASTRO-GÓMEZ, 2007).
A problematização em relação a educação e formação nas universidades, especialmente a intercultural, objeto de discussão da pesquisa em andamento, vai ao encontro da “ecologia dos saberes”, à medida que busca colocar os conhecimentos que estão "fora" da universidade, para "dentro" da universidade, na tentativa de mesclarem-se à epistemologia científica da sala de aula com os saberes tradicionais, ancestrais, cosmológicos.
Na linha da discussão da ecologia dos saberes, Santiago Castro-Gómez (2007) sugere decolonizar a universidade por meio do diálogo dos saberes. Para ele as Universidades carregam uma herança colonial e contribuem para reforçar a hegemonia cultural, econômica e política do ocidente, que apontam para um sistemático olhar do mundo na perspectiva hegemônica do Norte. Mesmo com o ingresso das “minorias” (indígenas, quilombolas, negros, pessoas de classe baixa, estudantes de escolas públicas, povos de comunidades tradicionais, entre outros) que não ocupavam esse lugar e só passam a participar mais efetivamente da universidade pós sistema de cotas, o conhecimento ainda carrega heranças coloniais que são somente reproduzidas pela universidade.
Ainda trazendo o pensamento de Mbembe (2017) na relação com a violência que a universidade (re)produz podemos destacar alguns conceitos como o de poder. O poder não está em um lugar específico, ele está disseminado, é o biopoder, portanto, o poder não está só no Estado, mas é o que determina as relações. Sendo assim, o poder intervém materialmente no nosso corpo como forma de vigilância, controle e docilização. E qualquer força contra hegemônica que se instaura na academia contra esse poder vira “balbúrdia”.
A noção de racismo se corporifica na universidade, pois o racismo é a não aceitação do outro em determinado espaço e lugar e mais do que nunca este não é um espaço para corpos negros. Dessa forma podemos acionar outro conceito, o de fronteira que deixa de ser um lugar de divisão que desejamos ultrapassar, para ser linha que separa. E o fenótipo é uma linha que separa.
Outro fio condutor da discussão é “o conceito platônico de pharmakon – a ideia de um medicamento que opera como antídoto e como veneno” (MBEMBE, 2017, p.08). A democracia, portanto, usa a violência ao inimigo como antídoto e veneno, são opostos aliados. O ocidente é habituado com o genocídio e extermínio e a necropolítica é isso, o estado decide quem vive e quem morre. Na universidade há muitos vivos mortos. E o racismo além de ser um dispositivo político é um dispositivo do imaginário, que não tem a ver com as nossas intenções, mas com a estrutura da modernidade, uma estrutura imbricada pela guerra.
Portanto, a guerra organiza como entendemos as relações. A guerra colonial apresenta-se como a matriz do “Nomos da Terra”, pois para além de uma guerra de conquista e ocupação é uma guerra de extermínio e de raça. Nomos da terra é a lei que prescreve e descreve, o corpo, o sexo, a violência, aquilo que é ou não humano e, portanto, pode ser violado, isso é o Nomos, está prescrito no corpo do negro a sua morte. (MBEMBE, 2017).
Finalizo este trabalho abrindo muitas janelas pessoais de reflexão que ainda estão a caminho de serem sistematizadas na escrita. Mas é preciso destacar ainda que existem mecanismos de ocultação de toda essa violência. Pois há uma tentativa de construção de um mundo sem guerra, solidificados na inclusão, mas acredito que se existe a ideia de inclusão é porque precisa de gente de fora, somos mascarados pela ideia do Estado de Exceção e o acesso à universidade (re)afirma isso por meio das políticas de equidade. Na universidade só é possível ingressar, permanecer e ter êxito quem é capaz e fora disso você é considerado um fracassado. E é por esse viés que seguirei a discussão durante a pesquisa de doutorado.

Instituições
  • 1 Faculdade de Educação / Universidade de Brasília
Eixo Temático
  • Educação para as Relações Étnico-raciais, Movimentos Sociais e Diversidade
Palavras-chave
Universidade
Decolonialidade
Necropolítica