Vril, o poder da raça futura: a desmitificação da utopia como legado para as distopias do século XX
Publicada em 1871, Vril, o poder da raça futura, do estadista britânico Edward Bulwer-Lytton, é um dos primeiros romances a questionar os modelos de perfeição social figurados na literatura utópica. Provavelmente influenciado por Viagem ao centro da terra (1864), de Júlio Verne, o autor representa em sua obra uma sociedade que, desde o período antediluviano, prosperou sob a crosta terrestre, sem a interferência das comunidades da superfície. Tal isolamento fez com que a aparência física e os paradigmas ético-culturais dos habitantes do subsolo tenham evoluído de maneira peculiar. Não obstante, as descrições das especificidades da sociedade utópica pelo protagonista-narrador se remetem, por efeito de espelhamento – mecanismo retórico fundamental da literatura utópica –, a questões sociais prementes não apenas para o período da publicação do texto, mas também para a contemporaneidade. Dentre elas, destacamos a constituição do universo familiar, a relação entre gêneros, a organização política, a religiosidade e os avanços técnico-científicos. O narrador, entretanto, analisa com profunda criticidade os ideais e os códigos que regulam esse espaço supostamente idílico, evidenciando aspectos socioculturais que problematizam a sua sublimação. No desfecho da narrativa, a personagem faz uma longa preleção sobre os aspectos ditatoriais e homogeneizadores que subjazem à organização daquela comunidade em particular e de todo projeto utópico em geral. Diante disso, o presente trabalho visa analisar a crítica ao utopismo verificável no romance, atributo que o caracteriza como um precursor de uma tendência argumentativa que culminaria nas marcantes distopias do século XX. Tendo como base o trabalho de autores como Isaiah Berlin, Luigi Firpo, Vita Fortunati, Michel Foucault e Martin Amis, pretendemos demonstrar que o relativismo cultural antecede ao advento do gênero distópico como instrumento de desconstrução das utopias sociais e descortina terrores ocultos sob o manto do idílio, incluindo alguns daqueles que viriam a se concretizar nos regimes totalitários do século passado.