O olhar vazio dos espaços e objetos sentimentais em O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia
O olhar, obviamente, é um ponto essencial no discurso cinematográfico. Dentro desse olhar que projetamos para a tela, nos deparamos com os demais olhares contemplados dentro da obra fílmica. Expressões visuais que se desdobram por meio das cores, ambiente, vestuário, objetos, etc. No filme O cheiro do Ralo (2006), adaptação cinematográfica de Heitor Dhalia da obra literária homônima de Lourenço Mutarelli, esse olhar é marcado pelos objetos e cenários áridos em que transita o personagem. O presente trabalho pretende verificar como o olhar atua dentro da obra cinematográfica de Dhalia, em que medida assume uma posição além da eventual ação do olhar no cinema e reclama um local de poder sobre o discurso e personagens. John Berger (1982) nos diz que a vista nos proporciona um lugar no mundo, nesse sentido, também, o protagonista Lourenço articula a visão e o olfato para construir seu espaço e individualidade. Da mesma forma que o protagonista apresenta uma ausência de humanidade, os espaços e personagens ao seu redor recebem a condição de objetos. Como algo ausente, assim como o cheiro que não nos alcança, o personagem é vazio e deserto, como os espaços e os objetos que desejam ter significado, memória e valor.