O desembarque das viagens medievais na ilha Utopia
Articulando tradição greco-latina e cultura cristã, a literatura de viagem foi fundante para o imaginário medieval. Já na Antiguidade Tardia, a transposição das feéricas Ilhas Afortunadas (de Homero, Hesíodo, Plutarco, etc.) para o real Arquipélago das Canárias (com São Brandão e Isidoro de Sevilha) delimitaram aquilo que seria o cerne dessas narrativas: ida a um local distante (Oriente ou Oceano, por exemplo), real ou não (fronteira tênue) e onde o foco estava no extraordinário (elementos mitológico-lendários Antigos, Asiáticos ou Bíblicos), dentre eles o Paraíso terreal. A partir do século XII este gênero ganhará notável atenção sobretudo em função do reavivar comercial, fazendo-se sempre necessário a menção de Marco Polo e seu Livro das Maravilhas. Estes - vastos - itinerários levaram os medievais a criarem quadros de mundos possíveis mediante às buscas de lugares paradisíacos/afortunados/ideais, perceptível na mentalidade dos viajantes ibéricos dos Quatrocentos e que perduraria durante todo o Renascimento Europeu. Thomas More contactou com esta busca da Cristandade pelo Reino de Deus na Terra (ou melhor, no mar) e na sua obra Utopia faz a transição de perspectiva quando (re)lega a possibilidade das maravilhas ao Homem (sua ilha não é uma Dádiva). Na presente comunicação, buscaremos evidenciar esta herança literária.