MEMÓRIAS DA VIOLÊNCIA: O TRAUMA COMO IMPOSSIBILIDADE DE DIZER-SE EM O CÉU E O FUNDO DO MAR, DE FERNANDO BONASSI
O presente trabalho tem como objetivo discutir questões referentes à memória e à violência na novela O céu e o fundo do mar, de Fernando Bonassi, publicada em 1999, detendo-se, particularmente, no contexto histórico de ditadura civil-militar brasileira presente como pano de fundo na obra literária. O céu e o fundo do mar é a quinta obra literária de Fernando Bonassi. A fábula da novela conta-nos sobre o encontro de uma mulher de um desaparecido político e de um pequeno traficante de drogas no período da Anistia no Brasil. Permeada por pouquíssimas ações e mesmo por diálogos reduzidos ao mínimo necessário para ser dito, a narrativa se constrói quase que inteiramente pelos encontros amorosos dessas duas personagens; ela, ainda imersa no luto pelo esposo; ele, abrindo-se aos prazeres amorosos, mas ambos, em última análise, bloqueados por memórias de violência. Logo, por conta do contexto histórico representado na novela, há uma fragmentação formal dela que se relaciona intimamente com a representação de certa materialidade do real. Nesse sentido, o foco narrativo eleito para essa representação resulta em certos efeitos estético e de sentidos, os quais trataremos de estudar a partir de teóricos como Schøllhammer (2009), Seligmann-Silva (2008) e Friedman (2002).