As ruínas de outro humanismo em Montedemo, de Hélia Correia
A novela Montedemo (1983), de Hélia Correia, escritora portuguesa, retrata o universo feminino de uma região litorânea e explorada pelo turismo em Portugal. O enredo inicia com um abalo, um tremor na região durante o inverno. A protagonista Milena, moça que vivia com uma tia conservadora, engravida, sai de casa, e se isola da comunidade ao encontrar acolhimento em um casebre em um costão à beira-mar onde morava Irene, a tonta, como chamavam-na. Irene tem uma conexão primitiva com a natureza, e vivia da mendicância dos veraneantes. O contraste entre tradição religiosa, primitivismo e turismo sazonal resulta em uma complexa paisagem figurada na presença do Montedemo, ou monte S. Jorge, conforme rebatismo católico. A partir da análise do exílio das personagens femininas Irene e Milena, evidencia-se uma crítica à racionalidade moderna, bem como às formas de ocultamento de forças opostas, seja representadas pela questão feminina, religiosa ou histórica. Dessa forma, e a partir do conceito de ruínas de Maria Zambrano e de história de Walter Benjamin, entre outros, pretendemos construir uma leitura que sobreleve a presença de uma outra religiosidade, silenciada, que se expressa em ritos, cada vez mais escassos, como revela a narrativa, mas que sobrevivem, pois sempre retornam.