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Abu Nuwas e a inovação da poesia árabe

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O projeto "A inovação nos gêneros da poesia árabe: Abu Nuwas na Bagdá do século IX" tem por objetivo apresentar a constituição e reconhecimento dos gêneros poéticos considerados inovadores, no primeiro quarto do século II H./ IX d.C., em Bagdá, capital do califado abássida, ressaltando, nesse processo, a relevância da experiência literária do poeta Abu Nuwas (~ 145-199 H./ 757-814 d.C.). Explora, pois, a cena em que o poeta centralizou, com notada maestria, aspectos da literatura árabe em novos fazeres poéticos, evidenciando-se como um dos inovadores (muhdath) na leitura canonizada pelos literatos, críticos e redatores que o recepcionaram a partir do século IV H. / X d.C.
Pretende-se, então, sob a perspectiva enunciativa do Círculo de Bakhtin, avançar na caracterização dos gêneros de poesia de vinho (ḫamr), de amor (ghazal), libertina (mujun), satírica (hija'), além de outros de menor expressão, revelando a experiência poética de Abu Nuwas entre aqueles temas. Espera-se, assim, trilhar a recepção dos novos gêneros como princípio organizador das coletâneas do poeta, no século seguinte a sua morte, o que consolidou o reconhecimento da diversidade dos estilos poéticos desenvolvidos pelos mais famosos inovadores (muhdathun) do século II H./ IX d.C.
Sob a perspectiva dialógica dos enunciados ressalta-se a percepção de que os discursos que atualmente se conhece como atribuídos a Abu Nuwas foram resultantes de uma longa produção coletiva. Além dos aspectos dialógicos comuns a todos os enunciados, suas enunciações orais foram memorizados e verbalizados por diferentes narradores em situações contextuais variáveis, até que fossem redigidos em cinco tradições de sua coletânea poética escrita. Esta por sua vez foi mediada em diversos manuscritos mal copiados por mais de mil anos. Os poemas atribuídos a Abū Nuwās, então, são resultantes de uma produção dialógica centrípeta, característica do gênero poético. Sob a ação do seu espírito criativo, e da recepção de seus redatores, ocorreu a centralização da polifonia de estilos poéticos de seu tempo, relativos a determinadas situações sociais, em uma subjetividade enunciadora que se sobrepõe aos outros enunciadores referenciados, muitas vezes não demarcados, recorrendo frequentemente a procedimentos de paródia e estilização. Esse conjunto de particularidades discursivas e textuais - traços fônicos, morfológicos, sintáticos, semânticos, lexicais, enunciativos, discursivos -, o estilo, enfim, cria uma imagem do autor e acaba por reforçar um efeito de individualidade.