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Assim como a fotografia no início do século, o advento do vídeo significou a ascensão da retórica de inovação tecnológica ao ato de se fazer imagens em movimento. No entanto, a estética videográfica enfrenta uma nova hierarquia visual de imagens produzidas por smartphones e altas tecnologias generativas, em que processos de distorção criativa encontram-se suprimidos diante da correção dos programas de processamento de imagens e à obediência de seus desígnios pré-fabricados, modelando a formatação padronizada de cores e texturas (Beiguelman, 2021) dessa imageria. Na sociedade de imagens da alta tecnologia, a qual outros meios habitam um subproletariado de um sistema industrial dominado pelas aparências (Steyerl, 2009), o vídeo reafirma-se no deslocamento ao propósito de construção de inovações plásticas e sensíveis a partir da baixa definição.
A transformação da então high-tech para low-tech, encontra-se na falência do discurso da inovação de novos meios diante do descarte face a viradas tecnológicas, inserindo dispositivos ao destino de tecnologias obsolescentes ou ao terreno nostálgico de antiques. Portanto, o vídeo afirma-se enquanto low-tech pela sua constituição como processo, que se dá, para além de ser pura operação, sem uma realidade ‘‘objetal’’ que a materializa (Dubois, 2004), por sua específica visualidade. Além de permitir distorções, glitches e gambiarras dissonantes aos atuais regimes da alta definição, o dispositivo videográfico convoca a modos de fazer e olhar autônomos, no qual a tatilidade de suas imagens constituem relações sensíveis e corporais com a feitura de imagens, que tornam-se, em vez de representações miméticas, presentificações próximas da materialidade retratada.
A baixa definição encontra-se no escopo das diferentes temperaturas midiáticas – sendo frios os meios que apresentam baixa quantidade de detalhes informacionais – e no retorno a formas não lineares de saber e na necessidade de participação do espectador (McLuhan, 1994). A integração perceptiva encontra na granulosidade da baixa definição – que redefine à percepção o contorno do mundo material, construindo universos borrados e sentimentais que formam essa imagem mosaicada e estilhaçada – o ato de completar os espaços livres da superfície videográfica (Somaini, 2019).
Nessas incompletudes, o espectador é acionado a preencher os vazios da imagem e relacionar-se com os rastros de seu percurso inscritivo. O olhar demora-se na superfície, em planos próximos, convocando uma maneira háptica de percepção. A hapticidade, segundo Laura U. Marks (2002), constrói-se de uma relação perceptiva entre imagem e espectador na qual renuncia-se a primazia do senso óptico para o envolvimento em um fluxo de impressões táteis (Marks, 2002) de grande potencial erótico.
Objetivo
Metodologia
Trata-se de estudo qualitativo, com método analítico documental que compreende a identificação e apreciação de documentos bibliográficos e excertos audiovisuais autorais. As categorias de análise são elaboradas a partir de conceitos de Marshall McLuhan (1994), Laura U. Marks (2002) e Philippe Dubois (2004).
Conclusão
O erotismo da baixa definição dispõe-se na inabilidade da percepção óptica integral de seus elementos, sendo mais sugestiva do que ilustrativa (Marks, 2002). Na compreensão dos vídeos autorais, nos quais a corporalidade do autor da pesquisa e de outros são dispostas em planos próximos, convoca-se relações subjetivas entre observador e imagem. Ao preencher os vazios entre os dots da textura da imagem, o espectador perde seu próprio senso de separação do vídeo, relacionando-se corporalmente com o quadro em um encontro com o outro e com o desconhecido da alteridade, onde culmina seu deleite erótico (Marks, 2002). Dessa forma, a visualidade erótica da baixa definição desconstrói a hierarquia do olhar para com o objeto, construindo uma alternativa à recepção das imagens constituída em uma relação de dominância usual das processualidades high-tech.
Referências
Beiguelman, G. (2021). Políticas da imagem: Vigilância e resistência na dadosfera. São Paulo: Ubu Editora.
Dubois, P. (2004). Cinema, vídeo, Godard. São Paulo: Cosac Naify.
Marks, L. U. (2002). Touch: sensuous theory and multisensory media. Minneapolis: University of Minnesota Press.
McLuhan, M. (1994). Understanding Media: The Extensions of Man. The MIT Press.
Somaini, A. (2019). Meteorologia visual. Em B. Furtado, & P. Dubois, Pós fotografia, pós cinema (pp. 108-126). São Paulo: Edições Sesc São Paulo.
Steyerl, H. (Nov. de 2009). In Defense on the Poor Image. Fonte: e-flux: https://www.e-flux.com/journal/10/61362/in-defense-of-the-poor-image/
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