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O artigo visa apresentar um processo artístico que se ancora na tecnologia ancestral da cerâmica combinada com experiências espirituais e meditativas em uma ação em relação com a matéria.
Tem como objetivo abrir um diálogo entre corpo e matéria, através da escuta e percepções despertadas pelo processo de adentrar um buraco, originalmente cavado pensando-se na queima cerâmica em forno de buraco, mas que passa a ser experenciado como um pote ou útero de terra que pode conter o corpo da artista. Dentro do buraco o corpo é coberto por argila, entrando em relação íntima e completa com essa matéria, nesta condição se estabelece uma prática de meditação.
O sentimento da necessidade de abrir ou cavar caminhos de retorno a uma escuta daquilo que somos parte, sobre consciência de nossa base de sustentação, mobiliza a ação. O que cavar o próprio buraco pode revelar? Sentir na pele a relação com os elementos básicos da natureza de forma intensa pode despertar percepções. A meditação de certa forma é uma cultura ancestral, que amplia o que a mente pode alcançar. Tomo referência no budismo tibetano com professores como Chogyam Trungpa e Lama Tsultrim Allione, que relacionam arte e meditação com os elementos. Então, por mais material que a ação seja, a mente presente importa e envolve o imaterial. Ficando a pergunta sobre como a experiência na matéria pode influenciar a qualidade da mente?
Estar e refletir sobre a terra faz parte da prática enquanto ceramista, bem como sobre as transformações provocadas pela queima. O forno de buraco se apresentou como uma possibilidade de pesquisa sobre a queima com a presença do fogo, em uma busca por retornar a um processo cerâmico ancestral. O mesmo forno se tornou ambiente para a transformação da artista que performa e medita na intensidade provocada pela relação material ali experimentada.
Bruno Latour (2020) em seu livro “Onde Aterrar?” traz a perspectiva do terrestre, além de gênero e espécie, onde estamos intimamente conectados com essa fina camada entre rochas e atmosfera, da qual não podemos nos desprender. Ele nos convida a uma imersão nas dobras da terra, nos lembrando de que precisamos aterrar em algum lugar, com a necessidade de pertencimento a um solo, onde nós pertencemos ao solo e não ele que nos pertence. O buraco cavado se torna esse solo para a experiência de aterramento, sua profundidade traz outra perspectiva sobre a terra, de certa forma adentro suas entranhas, para perceber a terra que me constitui em um emaranhado de conexões que permite a existência.
O buraco também se torna um útero, um ambiente de geração criativa. Me inspiro em artistas brasileiras como Celeida Tostes na obra “Passagem” (1979), Rosana Bortolin na obra “Meu Corpo é o seu ninho I” (2004). Ambas as artistas cobrem seus corpos com argila, Tostes entra em um vaso de argila que é fechado com ela dentro, para depois romper suas paredes e tomar passagem, Bortolin está grávida, vivendo esta relação com a argila enquanto gesta. Ana Mendieta cobre seu corpo com argila e se integra na paisagem junto ao tronco de uma árvore na série “Árvore da Vida”. Todas estas artistas com corpos cobertos de barro incitam reflexões sobre a vida e sua origem, tomando essa relação com a terra como um caminho.
A relação com o buraco convida o corpo a se tornar obra nas performances “Em terra” (2021), “Contemplar em Terra” (2024), Ventre de Terra” (2024) e “Ser Pote” (2024). Em todas elas, temos o buraco cavado e o corpo coberto com lama ou argila, onde o processo é enfatizado, valorizando o que é vivido no momento, suas sensações e percepções para além do registro em foto ou vídeo. Mas questionando como essas imagens podem abrir percepções em quem as contempla? Qual o potencial das imagens desse processo para refletir sobre nossa relação com a terra?
No trabalho aqui apresentado temos uma experiência contemplativa que estabelece uma relação entre meditação e prática artística, desenvolvendo uma poética visual que vincula o corpo e a matéria. Dentro desta pesquisa, o buraco se apresenta como o local que acolhe esta prática. Esse universo abaixo da superfície, se tornou um ambiente de mergulho. Ficando a pergunta sobre quais mergulhos são necessários para aprofundar nossas relações com o que nos envolve?
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