A recriação da "Saudade" em I.A.

Vol. 2, 2024 - 316738
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Resumo

Objetivo: Este artigo investiga o papel da arte como linguagem e como a intencionalidade do artista na criação, representação e ressignificação de signos é essencial para a eficácia de suportes tecnológicos, incluindo a inteligência artificial (IA). Utilizando a recriação da obra "Saudades" de Almeida Júnior através da plataforma de imagens generativas chamada Midjourney, o estudo busca analisar como a arte, ao ser mediada por tecnologias high-tech, transforma e resiste em seu papel de comunicação, e como a presença ativa e crítica do artista é insubstituível para que a obra consiga reverberar no receptor e transformar-se em uma "janela" para o mundo.

Justificativa: A arte, em sua essência, é um ato de comunicação que transcende o suporte tecnológico, conectando o artista ao receptor. A escolha de "Saudades" como estudo explora a complexidade emocional e o significado da obra de Almeida Júnior ao ser reinterpretada por uma IA que gera imagens a partir de texto. A relação entre texto e imagem, especialmente com uma palavra tão densa quanto "saudade", desafia a capacidade da IA de capturar a verdade na experiência artística, levantando questões sobre o papel do artista frente às novas tecnologias.

Fundamentação Teórica: A análise baseia-se em teorias que tratam a arte como um processo de mediação simbólica, onde o artista codifica experiências para o receptor decodificar e ressignificar. Vilém Flusser discute como as imagens técnicas podem funcionar como "janelas" ou "biombos", dependendo de como a imaginação interpreta seu conteúdo simbólico. François Lyotard argumenta que as grandes narrativas da era moderna, ao tentar explicar toda a experiência humana, falham em capturar a diversidade das experiências individuais. Cristina Costa alerta para os riscos de confundir eficiência técnica com artística, onde a mídia eletrônica, em vez de expandir e democratizar a arte, muitas vezes a reduz a requisitos técnicos, comprometendo suas qualidades estéticas. Katia Canton explora como as narrativas enviesadas — micronarrativas não hegemônicas — permitem a inclusão de vozes diversas e a contínua ressignificação da arte. E Giselle Beiguelman contribui para a compreensão de como a arte, ao adotar novas tecnologias, deve ressignificar e validar essas ferramentas no contexto cultural contemporâneo.

Metodologia: A pesquisa adota uma metodologia empírico indutiva, aliando a criação artística com uma análise teórica aprofundada. A recriação da obra "Saudades" foi realizada através do Midjourney, utilizando comandos textuais que refletem uma análise detalhada da obra original, considerando seus aspectos formais, estilísticos e iconográficos. O processo comparou as imagens geradas pela IA com a obra original para avaliar até que ponto a tecnologia conseguiu capturar a intencionalidade do artista e a complexidade das micronarrativas de Almeida Júnior. A revisão bibliográfica incluiu autores que discutem a interação entre arte e tecnologia, focando nas limitações da IA em gerar narrativas inclusivas e diversificadas.

Conclusão: A investigação demonstrou que, enquanto a IA como Midjourney pode replicar aspectos formais da obra original, ela não consegue capturar a profundidade emocional e a complexidade das micronarrativas que tornam "Saudades" uma obra significativa. A tecnologia, operando no nível das metanarrativas, é limitada à combinação de dados pré-existentes, sem a capacidade de criar novos significados ou ressignificar experiências de forma inclusiva. Em contraste, a intencionalidade do artista, como exemplificado por Almeida Júnior, transforma cada detalhe em uma micronarrativa, ressoando de forma única com o receptor. Isso reforça o papel do artista como validador crítico das tecnologias, capaz de explorar e expandir suas possibilidades, garantindo que a arte continue sendo uma janela para o mundo, e não um biombo que deixa de significar a realidade. O estudo conclui que a validação e o uso eficaz das novas tecnologias na arte dependem da capacidade do artista de dominar essas ferramentas, transformando as macronarrativas técnicas em micronarrativas significativas e humanas.

Palavras-chave: Arte; Linguagem; Intencionalidade; Inteligência Artificial; Prompt

 

Referências Bibliográficas:

BEIGUELMAN, Giselle - Midjourney, Dall-E e o fim da história da arte. Mais uma vez? - Zum Revista de Fotografia. São Paulo 27 de set. 2022. Disponível em <https://revistazum.com.br/ colunistas/o-fim-da-historia-da-arte/>. Acesso em 28 de out. de 2022. 

CANTON, Katia. Narrativas Enviesadas. São Paulo: Martin Fontes, 2014. 

COSTA, Cristina. Arte: Resistências e Rupturas. São Paulo: Ed.Moderna, 1998. 

FLUSSER, Vilém. O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade. São Paulo: Annablume, 2008.

LYOTARD, Jean François. A condição pós-moderna. São Paulo: Ed. José Olympio; 20ª edição, 2021. 

MIDJOURNEY. Disponível em <https://www.midjourney.com/&gt;. Acesso em 26 ago. 2024.

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