A queixa escolar e o estigma do aluno-problema
Ao não se encaixar em um padrão comportamental preestabelecido e confrontar as regras culturais, o aluno experimenta uma forma de pré-diagnóstico e transfigura-se em um aluno-problema. Esse trabalho realizado na prática de estágio das FIPMoc, através de um método qualitativo, visa estudar dois casos de crianças-alvo de queixas escolares e verificar a existência de estigma e rotulações. O caso de V, 4 anos, foi apresentado após reclamações acerca de uma falta de interação com colegas, comportamento agressivo, ausência de sentimento de culpa e inabilidade em dividir. Um funcionário da instituição até sugeriu o diagnóstico de psicopatia. Durante o estágio, evidenciou-se que a agressividade era o que sustentava a sua relação com o outro, que também era representando por V nos livros como um gigante. E esse foi o modo de V se defender de um ambiente que se apresentava extremamente ofensivo a ele. A marca da ofensividade ambiental era corporificada pelos excessos maternos, de tal modo que V pediu a mãe para não virar-se à noite ao dormirem. A excessividade desse outro não permitiu a V vivenciar uma separação da relação vivida com a mãe, o que se repete na relação de V com o outro escolar. A mediação deu o tom para o acompanhamento de V. O caso de C, 4 anos, foi apresentado após a criança demonstrar características de autismo. C não faz cocô no vaso sanitário, pois alega ser perigoso e pede para usar fralda quando sente vontade de evacuar. C chora chamando por sua mãe quando está na escola e pede para tomar mamadeira. Percebe-se que as brincadeiras de C envolvem uma sobreposição de brinquedos, como um carro sobre o outro, uma bola dentro de outra e uma torre que ele denominou de topo, que resulta em quedas propositais. Suas brincadeiras indicam sua posição subjetiva e sugerem uma imiscuição entre a criança e o bebê, que fica submetido ao modo como o outro lida com ele. A posição de bebê vincula-se a um outro excessivo e tem o consentimento dele. O estágio se pautou na busca pela separação entre a posição do bebê e da criança, para que C consiga vivificar uma posição desejante, que se encontra inoperante. Assim, foi possível perceber que as questões de V e C apresentadas em um contexto escolar foram facilmente apreendidas pela perspectiva médica, enquanto no decorrer do trabalho realizado, com a orientação teórica de J. D. Nasio e C. Drumond, revelou-se uma origem nos impasses vividos na relação com um outro familiar e um outro institucional, demonstrando que os casos das crianças não são universalizáveis. Nesses casos, a manutenção da incerteza é primordial para se evitar a cristalização de estigmas e rotulações.