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INTRODUÇÃO
O Voluntariado EPM surgiu durante a pandemia de COVID-19, a partir da mobilização de estudantes de Medicina que buscavam apoiar o Hospital São Paulo em um momento de grande sobrecarga dos serviços de saúde. Diante da escassez de insumos, do desgaste das equipes e das dificuldades impostas pela crise sanitária, o grupo iniciou suas atividades com ações voltadas ao cuidado dos profissionais da linha de frente, principalmente por meio da arrecadação de alimentos e equipamentos de proteção individual.
Com a redução do cenário emergencial da pandemia, os estudantes perceberam que a atuação do grupo poderia ir além do apoio hospitalar. A partir disso, o projeto passou a ampliar suas frentes de ação, aproximando-se de populações em situação de vulnerabilidade social no entorno da universidade e do hospital. Esse processo transformou uma iniciativa inicialmente emergencial em um projeto de extensão universitária, organizado por estudantes e construído a partir de parcerias com docentes, instituições sociais, organizações não governamentais e serviços de saúde.
Ao longo do tempo, o projeto também deixou de ser composto apenas por estudantes de Medicina e passou a envolver discentes de diferentes cursos do campus. Essa mudança fortaleceu o caráter interprofissional da iniciativa e ampliou a compreensão sobre o cuidado em saúde, mostrando que ele não depende apenas de conhecimento técnico, mas também de escuta, vínculo, trabalho em equipe e reconhecimento das desigualdades que atravessam a vida das pessoas atendidas.
Nesse contexto, o Voluntariado EPM tornou-se um espaço importante de formação para estudantes da área da saúde, ao aproximá-los de realidades marcadas por vulnerabilidade social, racismo estrutural, desigualdade de gênero, insegurança alimentar e dificuldades de acesso aos serviços de saúde. Dessa forma, suas ações se relacionam diretamente com os princípios de uma educação antirracista, inclusiva e comprometida com a equidade.
OBJETIVOS
Relatar a experiência do Voluntariado EPM como uma iniciativa extensionista de gestão estudantil voltada à promoção da saúde, da equidade e da inclusão social junto a populações em situação de vulnerabilidade.
Além disso, o relato pretende discutir de que forma a extensão universitária pode aproximar os estudantes das desigualdades sociais e raciais presentes no cuidado em saúde, contribuindo para uma formação mais sensível, antirracista e comprometida com a dignidade dos sujeitos atendidos.
RELATO DE EXPERIÊNCIA
A experiência do Voluntariado EPM é construída a partir de diferentes frentes de cuidado, organizadas por estudantes e desenvolvidas em parceria com instituições sociais, organizações não governamentais e serviços de saúde. As ações buscam aproximar a universidade da comunidade, oferecendo atividades de educação em saúde, acolhimento e escuta para diferentes grupos em situação de vulnerabilidade.
No projeto Solidariedade com Arte, realizado em parceria com a ONG Solidariedade com Arte, são promovidos encontros mensais nos quais atividades lúdicas são utilizadas como forma de aproximação e diálogo. Por meio de oficinas de expressão corporal, artes manuais e rodas de conversa, são abordados temas como hipertensão, diabetes, autocuidado, alimentação e prevenção de doenças. A arte, nesse projeto, funciona como uma ferramenta para tornar o conhecimento em saúde mais acessível e menos verticalizado, criando um espaço em que os participantes possam se expressar, tirar dúvidas e compartilhar suas próprias experiências.
Outra frente de atuação ocorre nos mutirões clínicos, realizados em parceria com a ONG Médicos do Mundo. Nessas ações, o foco está no acolhimento de populações em situação de rua e outros grupos socialmente vulnerabilizados. Os estudantes participam de atividades como triagem, aferição de medidas antropométricas, escuta qualificada, orientações em saúde e encaminhamentos quando necessário. Mais do que identificar demandas clínicas, a proposta é reconhecer a dignidade de cada pessoa atendida, especialmente de grupos que frequentemente vivenciam exclusão, discriminação e desumanização nos serviços de saúde.
No projeto Vozes do Tempo, voltado principalmente à população idosa, a escuta ocupa um papel central. As ações buscam valorizar histórias de vida, memórias e experiências dos idosos, reconhecendo que cada pessoa carrega uma trajetória própria que influencia sua forma de compreender o cuidado, o envelhecimento e o adoecimento. Essa abordagem contribui para combater a invisibilização da pessoa idosa e reforça a importância de enxergá-la para além de sua condição clínica, como sujeito com identidade, autonomia e protagonismo.
Já o projeto Saúde Ginecológica tem como foco a promoção da saúde das mulheres, utilizando materiais didáticos acessíveis e linguagem simples para discutir temas como anatomia, prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, saúde menstrual, direitos sexuais e reprodutivos, violência obstétrica e autonomia sobre o próprio corpo. A abordagem desses assuntos é especialmente importante quando se considera que mulheres em situação de vulnerabilidade, sobretudo mulheres negras e periféricas, são frequentemente mais expostas à desinformação, à desassistência e a diferentes formas de violência dentro e fora dos serviços de saúde.
De modo geral, as ações do Voluntariado EPM partem da ideia de que promover saúde não é apenas transmitir informações técnicas. É necessário criar vínculos, adaptar a linguagem, respeitar os saberes da comunidade e reconhecer as condições sociais que interferem diretamente no processo saúde-doença. Assim, o projeto contribui tanto para a comunidade atendida quanto para a formação dos estudantes, que passam a compreender o cuidado de forma mais ampla, humana e socialmente comprometida.
REFLEXÃO
A vivência no Voluntariado EPM mostra que a formação em saúde precisa ir além do conteúdo aprendido em sala de aula ou nos ambientes assistenciais tradicionais. Ao entrar em contato com diferentes realidades sociais, os estudantes percebem que muitas dificuldades enfrentadas pelos pacientes não começam no momento em que eles chegam ao serviço de saúde. Elas estão relacionadas à moradia, renda, alimentação, raça, gênero, idade, acesso à informação e experiências prévias de discriminação.
A experiência também reforça a importância da escuta. Em muitos momentos, o acolhimento, a conversa e o reconhecimento da história de vida da pessoa atendida são tão importantes quanto a orientação em saúde. Essa escuta permite construir uma relação mais horizontal, em que o estudante não ocupa apenas o lugar de quem “leva conhecimento”, mas também de quem aprende com a comunidade. Essa troca é essencial para romper com práticas assistenciais distantes, frias ou marcadas por preconceitos.
Assim, o Voluntariado EPM se apresenta como um espaço de aprendizado sobre equidade e inclusão na prática. A cada ação, os estudantes são convidados a refletir sobre seu papel social, sobre os limites do sistema de saúde e sobre a responsabilidade da universidade pública na construção de uma sociedade mais justa. Mais do que uma atividade pontual de assistência, o projeto se torna uma experiência formativa que aproxima ensino, serviço e comunidade.
CONCLUSÃO
A experiência do Voluntariado EPM demonstra a importância de projetos de extensão universitária voltados à promoção da saúde, da equidade e da inclusão social. Por meio de suas diferentes frentes de atuação, o projeto amplia o acesso à informação, fortalece o acolhimento de populações em situação de vulnerabilidade e contribui para a construção de práticas de cuidado mais humanas e sensíveis às desigualdades sociais.
Recomenda-se, portanto, o fortalecimento de iniciativas extensionistas que integrem universidade, serviços de saúde e comunidade, especialmente aquelas voltadas a grupos em situação de vulnerabilidade. Também é fundamental que temas como racismo, equidade, gênero, envelhecimento, direitos humanos e determinantes sociais da saúde sejam incorporados de forma contínua à formação dos estudantes.
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