SEGURANÇA DO PACIENTE EM SAÚDE MENTAL NA AMAZÔNIA: FORMAÇÃO MULTIPROFISSIONAL COM ENFOQUE EM EQUIDADE E INTERSECCIONALIDADE.

- 338769
Relato de Experiência
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo

Introdução

A segurança do paciente constitui um dos principais pilares da qualidade assistencial, sendo influenciada por fatores organizacionais, sociais e culturais (Aldardeir et al., 2025). No campo da saúde mental, a ocorrência de eventos adversos está frequentemente associada a desigualdades estruturais, processos de estigmatização e fragilidades na organização do cuidado, o que pode comprometer a integralidade e a continuidade da assistência (Setoodeh et al., 2025).

Nesse contexto, a incorporação de abordagens formativas orientadas à equidade e à interseccionalidade torna-se fundamental, ao reconhecer que marcadores sociais como raça, classe, gênero e território impactam diretamente a exposição a riscos e a qualidade do cuidado ofertado (Netto et al., 2025).

Apesar dos avanços normativos, o ensino da segurança do paciente na saúde mental ainda se apresenta de forma fragmentada, com limitada articulação entre teoria e prática e baixa incorporação de abordagens críticas voltadas à equidade e à diversidade (Netto et al., 2025; Guraya et al., 2023). Nesse sentido, a educação permanente em saúde emerge como estratégia potente para a transformação das práticas, ao promover a problematização do cotidiano e a construção coletiva do conhecimento (Guraya et al., 2023), favorecendo o desenvolvimento de competências alinhadas às necessidades reais dos serviços.

Na região amazônica, esses desafios são potencializados por desigualdades regionais históricas, limitações estruturais dos serviços de saúde e grande diversidade sociocultural, exigindo estratégias educativas territorialmente contextualizadas e sensíveis às especificidades locais.

Objetivos

Analisar a implementação de oficinas educativas sobre segurança do paciente em clínica psiquiátrica, considerando seus efeitos na formação multiprofissional com enfoque na equidade e interseccionalidade.

Relato da Experiência

Trata-se de um relato de experiência de caráter descritivo, realizado em hospital público de referência em psiquiatria no estado do Pará, único serviço de alta complexidade na área, responsável por atender usuários provenientes de 144 municípios.

A intervenção consistiu na realização de oficinas educativas direcionadas à equipe multiprofissional da clínica psiquiátrica, com a participação efetiva de enfermeiros, técnicos de enfermagem, psicólogos, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais e fisioterapeutas. Foram realizados 08 grupos ao longo do mês de março de 2026, nos turnos da manhã e tarde, com até 12 participantes por turma, totalizando 34 profissionais, com predominância da equipe de enfermagem e ausência de médicos.

Foram incluídos todos os participantes que aceitaram responder ao instrumento de avaliação. Utilizou-se questionário estruturado com 10 questões com nível de dificuldade médio, aplicado antes e após a intervenção. A análise dos dados foi realizada por meio de estatística descritiva simples.

As oficinas tiveram duração de 120 minutos e foram organizadas em abordagem teórico-prática, contemplando conceitos de segurança do paciente, classificação de incidentes e discussão de protocolos assistenciais prioritários, incluindo manejo de psicose aguda, agitação e agressividade, tipos de contenção e prevenção do comportamento suicida.

Para o desenvolvimento dos conteúdos, foi utilizada a metodologia ativa Jigsaw (quebra-cabeça), estratégia de aprendizagem cooperativa em que os participantes se responsabilizam por partes do conteúdo e posteriormente compartilham com o grupo, favorecendo a construção coletiva do conhecimento, o protagonismo dos profissionais e a aprendizagem interprofissional.

Observou-se aumento no percentual de acertos entre o pré-teste (75,82%) e o pós-teste (93,68%), evidenciando ganho de conhecimento e respondendo ao objetivo do estudo ao demonstrar impacto positivo da intervenção na formação multiprofissional.

Reflexão

Os resultados reforçam que estratégias educativas participativas favorecem o desenvolvimento de competências em segurança do paciente, especialmente quando articuladas às práticas cotidianas dos serviços (Guraya et al., 2023; Aldardeir et al., 2025). Nesse sentido, a educação permanente em saúde se destaca como dispositivo fundamental para a transformação das práticas assistenciais, ao promover reflexão crítica, troca de saberes e fortalecimento da cultura de segurança.

A utilização da metodologia Jigsaw mostrou-se potente ao estimular a participação ativa dos profissionais, a corresponsabilização pelo processo de aprendizagem e a integração entre diferentes categorias, contribuindo para o fortalecimento da prática interprofissional.

Para além dos ganhos cognitivos, a experiência possibilitou a problematização de situações concretas do cotidiano, evidenciando como desigualdades sociais influenciam a exposição a riscos assistenciais (Netto et al., 2025). Observou-se, por exemplo, que pacientes em situação de vulnerabilidade social, sem rede de apoio e provenientes de territórios com acesso limitado aos serviços de saúde, apresentam maior risco de descontinuidade do cuidado, reinternações e ocorrência de eventos adversos.

A ausência de médicos nas oficinas evidencia desafios relacionados à cultura profissional e à organização hierárquica do cuidado em saúde. Considerando o papel desses profissionais na tomada de decisão clínica, sua baixa adesão pode comprometer a implementação de protocolos, a efetividade das ações de segurança e a consolidação de práticas colaborativas (Aldardeir et al., 2025).

No contexto amazônico, fatores como sobrecarga assistencial, alta demanda regional, limitações estruturais dos serviços e dificuldades de acesso dos usuários reforçam a necessidade de estratégias de educação permanente contínuas, adaptadas à realidade local e orientadas à redução das desigualdades em saúde.

Conclusões

As oficinas educativas mostraram-se eficazes para a qualificação do conhecimento em segurança do paciente na saúde mental, contribuindo para a formação multiprofissional orientada à equidade e à abordagem interseccional.

Recomenda-se a ampliação e institucionalização de estratégias de educação permanente, com desenvolvimento de ações específicas para maior adesão médica e fortalecimento de práticas interprofissionais, considerando as desigualdades sociais e territoriais que impactam a segurança do cuidado.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 Universidade do Estado do Pará
  • 2 Fundação Hospital de Clínicas Gaspar Vianna
Eixo Temático
  • 2 - Formação em Saúde na perspectiva da educação antirracista, equidade e inclusão
Palavras-chave
Segurança do Paciente
Saúde Mental
Equidade em Saúde
Educação em Saúde
Educação Permanente em Saúde