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INTRODUÇÃO A atualização das recomendações mundiais para o cuidado neonatal reforça a importância da integração entre profissionais de saúde, famílias e comunidade em práticas colaborativas interprofissionais. Nesse cenário, compreender como essas recomendações são incorporadas na literatura torna-se relevante para fortalecer o cuidado integral com práticas que considerem a inclusão, a equidade e educação antirracista como pilares essenciais.
OBJETIVO Mapear e analisar a inclusão, a equidade e a educação antirracista na prática da preceptoria, a partir de dados empíricos de uma revisão de escopo sobre interprofissionalidade e práticas colaborativas no cuidado neonatal.
METODOLOGIA Partiu-se de uma revisão de escopo seguindo o checklist PRISMA-ScR, com protocolo registrado na Open Science Framework, sob o DOI 10.17605/OSF.IO/DRJ75, que teve a busca realizada nas bases de dados BVS, PubMed, Web of Science, BDTD e OATD, utilizando os descritores “Equipe de Assistência ao Paciente” OR “Assistência Integral à Saúde” OR “Práticas Interdisciplinares” OR “Liderança” AND “Unidades de Terapia Intensiva Neonatal”. A busca foi realizada em três idiomas (português, inglês e espanhol) por três revisores que selecionaram os trabalhos por meio de leitura de títulos e resumos e, posteriormente, pela leitura na íntegra. A pesquisa não teve recorte temporal e foram excluídos os trabalhos que não versavam diretamente sobre interprofissionalidade e práticas colaborativas no cuidado neonatal. O corpus final composto por 14 publicações foi analisado com foco nas dimensões preceptoria, inclusão, equidade e educação antirracista, com o apoio de ferramentas de inteligência artificial generativa (ChatGPT e Copilot), a partir do prompt: “analise a equidade, inclusão e educação antirracista na interprofissionalidade e práticas colaborativas na assistência neonatal, dialogando com a literatura citada e com os achados empíricos desta revisão”.
RESULTADOS/DISCUSSÃO Os achados desta revisão de escopo permitem estabelecer uma relação direta entre a inclusão no cuidado interprofissional neonatal e a prática dos preceptores, compreendidos como mediadores centrais dos processos formativos e assistenciais nas unidades neonatais. Os estudos analisados indicam que a interprofissionalidade na assistência neonatal vem sendo progressivamente associada à valorização da participação da família, à colaboração entre diferentes categorias profissionais e à incorporação das dimensões subjetivas do cuidado, em consonância com a literatura sobre trabalho interprofissional em saúde (REEVES et al., 2016).
Entretanto, esses avanços permanecem tensionados por micropolíticas do trabalho que atravessam o cotidiano das unidades neonatais. As análises evidenciam que hierarquias profissionais, discursos e regimes de autoridade moldam a prática cotidiana na UTIN, reproduzindo relações de poder, práticas autoritárias e formas de exclusão simbólica e material, conforme discutido na literatura crítica sobre hierarquia e desumanização (FANON, 2022). Embora os estudos analisados não mobilizem explicitamente o referencial racial, seus achados oferecem base analítica para compreender como o racismo institucional pode operar de maneira análoga às hierarquias profissionais, produzindo desigualdades no cuidado (FANON, 2022; DAVIS, 2016).
Nesse contexto, a inclusão no cuidado interprofissional neonatal se expressa na participação da família, na valorização de diferentes saberes profissionais e na incorporação das dimensões subjetivas do cuidado, dimensões que dependem, em grande medida, da forma como os preceptores conduzem o ensino no cotidiano do trabalho. Ao favorecer práticas como a escuta qualificada, a tomada de decisão compartilhada e o trabalho em equipe, os preceptores contribuem para a construção de ambientes mais inclusivos, nos quais residentes, profissionais e familiares são reconhecidos como sujeitos ativos do cuidado (REEVES et al., 2016; FREIRE, 2021).
A consolidação de ambientes de aprendizagem e de prática assistencial mais equitativos nas unidades neonatais, portanto, exige a superação de modelos formativos e processuais baseados em hierarquias rígidas e exclusões historicamente produzidas (FANON, 2022). Os achados da revisão, especialmente aqueles fundamentados em análises sociológicas de inspiração foucaultiana, indicam que a transformação das práticas depende da transformação das subjetividades profissionais.
Nesse sentido, a pedagogia crítica emancipadora oferece um referencial potente para compreender o cuidado interprofissional como prática educativa, na qual ensinar e cuidar constituem processos indissociáveis (FREIRE, 2021). Nos estudos analisados, a preceptoria emerge como um dispositivo pedagógico central na mediação entre formação e cuidado, capaz tanto de reproduzir modelos biomédicos excludentes quanto de promover práticas colaborativas, inclusivas e equitativas. Ao reconhecer residentes, profissionais e familiares como sujeitos ativos do cuidado, o preceptor contribui para a construção de práticas alinhadas à justiça social e ao enfrentamento das desigualdades estruturais (FREIRE, 2021; DAVIS, 2016).
Ainda que a literatura analisada não incorpore a educação antirracista como eixo analítico estruturante da interprofissionalidade neonatal, a discussão dos resultados evidencia a necessidade de integrar essa perspectiva aos processos formativos. O reconhecimento das interseccionalidades no cuidado, especialmente em contextos marcados por desigualdades raciais, constitui elemento fundamental para que a inclusão não se restrinja a abordagens normativas ou despolitizadas (DAVIS, 2016; MUNANGA, 2019).
CONCLUSÃO Esta revisão permite inferir que fortalecer a interprofissionalidade na assistência neonatal implica investir na formação pedagógica dos preceptores, articulando referenciais da colaboração em saúde com fundamentos da pedagogia emancipadora e da educação antirracista. Tal articulação amplia o potencial transformador das práticas colaborativas e reposiciona a inclusão como compromisso ético-político do cuidado neonatal. Como contribuição, este estudo não apenas mapeia práticas interprofissionais na assistência neonatal, mas evidencia uma lacuna na produção científica no que se refere à incorporação da educação antirracista nesse campo. Ao tornar visível essa lacuna, a revisão amplia o debate sobre inclusão, indicando a necessidade de integrar explicitamente a equidade racial às práticas colaborativas, à formação interprofissional e à atuação dos preceptores.
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