PRECEPTORIA EM SAÚDE E EQUIDADE: RELATO DE EXPERIÊNCIA NA CONSTRUÇÃO DE PROPOSTA CURRICULAR PARA O CUIDADO INCLUSIVO

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Resumo

RESUMO
 

Introdução: A formação em saúde tem sido desafiada a responder às demandas contemporâneas relacionadas à equidade, à humanização do cuidado e ao reconhecimento das diversidades presentes nos territórios do Sistema Único de Saúde (SUS). Nesse cenário, a preceptoria multiprofissional assume papel estratégico na articulação entre ensino, serviço e comunidade, contribuindo para o desenvolvimento de competências clínicas, éticas e socioemocionais nos estudantes. Apesar dos avanços nas políticas públicas, persistem lacunas formativas no cuidado à população LGBTQIAPN+, historicamente marcada por vulnerabilidades sociais, barreiras de acesso e experiências de discriminação nos serviços de saúde.

Tais lacunas se expressam, sobretudo, na dificuldade de profissionais em formação em lidar com aspectos como identidade de gênero, orientação sexual, comunicação inclusiva e manejo de situações de preconceito. Esse cenário evidencia a necessidade de propostas formativas estruturadas que integrem competências técnicas, pedagógicas e socioemocionais, alinhadas aos princípios da equidade e da integralidade do SUS.
 

Objetivo

Relatar a experiência de elaboração de uma proposta curricular voltada à formação em preceptoria na saúde, com enfoque no desenvolvimento de competências para o cuidado inclusivo à população LGBTQIAPN+.

 

Relato de Experiência

Trata-se de um relato de experiência, de abordagem qualitativa, desenvolvido no contexto do Trabalho de Conclusão de Curso da Especialização em Preceptoria em Saúde Multiprofissional de uma universidade pública. A experiência emerge da trajetória formativa e profissional da autora, associada à atuação em cenários de prática vinculados ao SUS, nos quais foram identificadas fragilidades na formação para o cuidado inclusivo.

A construção da proposta ocorreu em quatro etapas: (1) levantamento teórico sobre preceptoria, educação baseada em competências e equidade em saúde; (2) identificação de necessidades formativas a partir da observação sistemática da prática; (3) organização dos eixos formativos e conteúdos curriculares; e (4) definição de estratégias pedagógicas fundamentadas em metodologias ativas.

Como resultado, foi elaborada a proposta curricular do curso “Preceptoria e Diversidade na Saúde: Práticas Inclusivas para o Cuidado LGBTQIAPN+”, estruturada em dois eixos formativos: competências didático-clínicas na preceptoria e competências socioemocionais e inclusão na saúde.

O curso foi planejado com carga horária de 40 horas, organizado em unidades formativas progressivas que articulam fundamentos teóricos, discussão de casos e aplicação prática. As estratégias metodológicas incluem metodologias ativas, como Team-Based Learning, Fishbowl, Role Play e World Café, com o objetivo de promover aprendizagem significativa, reflexão crítica e desenvolvimento de competências comunicacionais, éticas e relacionais. Como etapa final, prevê-se a elaboração de um projeto de intervenção inclusiva, voltado à aplicação prática nos cenários de atuação dos participantes.

 

Reflexão sobre a experiência

A experiência evidenciou que o cuidado inclusivo ainda não está sistematizado de forma intencional nos processos formativos em saúde, sendo frequentemente abordado de maneira pontual ou fragmentada. A construção da proposta curricular permitiu compreender que a qualificação da preceptoria exige integração entre dimensões pedagógicas, clínicas e socioemocionais, além de planejamento estruturado orientado por competências.

Destaca-se o papel do preceptor como educador em serviço, responsável não apenas pela supervisão técnica, mas pela mediação de valores, atitudes e práticas profissionais alinhadas à equidade. Nesse sentido, a incorporação de metodologias ativas mostrou-se coerente com a complexidade da temática, favorecendo a problematização de situações reais, o desenvolvimento do pensamento crítico e o protagonismo dos participantes no processo formativo.

Embora a proposta ainda não tenha sido implementada, apresenta consistência teórico-metodológica e potencial de aplicabilidade em diferentes contextos de formação em saúde, especialmente naqueles vinculados ao SUS.

 

Recomendações

Sugere-se que a elaboração de uma proposta curricular estruturada para a formação em preceptoria com enfoque na equidade contribui para o fortalecimento de práticas formativas mais inclusivas, éticas e alinhadas às necessidades sociais contemporâneas. Recomenda-se a implementação e avaliação da proposta em cenários reais de ensino-serviço, bem como a incorporação sistemática da temática da diversidade sexual e de gênero nos currículos da área da saúde.

A qualificação da preceptoria, associada ao uso de metodologias ativas e ao desenvolvimento de competências socioemocionais, configura-se como estratégia fundamental para a formação de profissionais comprometidos com a integralidade do cuidado, a humanização e a equidade no SUS.

Conclusão:
A elaboração da proposta curricular evidenciou que a ausência de formação sistematizada para o cuidado inclusivo à população LGBTQIAPN+ constitui uma lacuna estrutural nos processos formativos em saúde, cuja superação exige intencionalidade curricular e comprometimento institucional. A experiência demonstrou que qualificar preceptores para o cuidado inclusivo requer a integração entre competências pedagógicas, clínicas e socioemocionais, sendo as metodologias ativas estratégias coerentes e potentes para promover reflexão crítica e mudança de atitudes.

Embora a proposta ainda aguarde implementação e avaliação em cenários reais de ensino-serviço, sua consistência teórico-metodológica aponta para contribuições relevantes ao campo da educação em saúde. Conclui-se que investir na formação de preceptores comprometidos com a equidade é condição fundamental para o fortalecimento de um SUS mais humanizado, inclusivo e capaz de responder às necessidades de todas as pessoas, independentemente de sua identidade de gênero ou orientação sexual.

 

Referências

BRASIL. Ministério da Saúde. Política Nacional de Saúde Integral de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2013.

AUTONOMO, Flávia Ribeiro et al. A preceptoria na formação em saúde: desafios e perspectivas. Revista Brasileira de Educação Médica, Brasília, v. 39, n. 2, p. 301-309, 2015.

CECCIM, Ricardo Burg; FEUERWERKER, Laura Camargo Macruz. O quadrilátero da formação para a área da saúde: ensino, gestão, atenção e controle social. Physis: Revista de Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 14, n. 1, p. 41-65, 2004.

MORAN, José. Metodologias ativas para uma educação inovadora: uma abordagem teórico-prática. Porto Alegre: Penso, 2018.

PERRENOUD, Philippe. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artmed, 2000.

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Instituições
  • 1 UNIVERSIDADE DO ESTADO DE MATO GROSSO UNEMAT
  • 2 unemat
Eixo Temático
  • 1 - Docência e Preceptoria na perspectiva da educação antirracista, equidade e inclusão
Palavras-chave
equidade em saúde
educação em saúde
minorias sexuais e de gênero
preceptoria, sistema único de saúde
Territórios do Sistema Único de Saúde (SUS)