PLANEJAMENTO PEDAGÓGICO E A ABORDAGEM MULTIDIMENSIONAL DA INCLUSÃO: REFLEXÕES EM CURSO DE FORMAÇÃO DOCENTE EM SAÚDE

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Relato de Experiência
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Resumo

Introdução: A ação de planejar na perspectiva da educação democrática e, como decorrência, inclusiva, pressupõe dimensões que podem configurar o trabalho docente e a formação em saúde respeitando as emergências da sociedade contemporânea comprometida com a qualidade social do trabalho educativo. Políticas públicas, diretrizes de formação, projetos pedagógicos e de cursos reverberam no planejamento como registro intencional e como fazer pedagógico no processo formativo. Concomitante a essas instâncias, há uma rede de interações povoada pelo docente e estudantes impregnados pela vida de cada um que traz em si as contradições e possibilidades forjando o planejamento, aqui entendido para além de um processo técnico, mas também político e ético porque marca a intencionalidade e a responsabilidade com a participação e o exercício da crítica. (Gandin, 2001; Veiga, 2008; Vasconcellos, 2024). Este trabalho apresenta reflexões possíveis de uma experiência docente de planejamento colaborativo no Ensino Superior, em nível de pós-graduação na área da saúde, portanto com profissionais que poderão assumir a função de docentes, e que ocorreu na perspectiva do estudo da inclusão como temática formativa na disciplina de Didática do Ensino Superior. Como decorrência de marcos históricos e normativos, o Brasil a partir da Constituição Federal de 1988, reconhece o direito de acesso de todas as pessoas a todos os níveis de ensino e preconiza a formulação de políticas públicas de inclusão social (Cury, Horta, & Fávero, 1996). A universidade impulsionada pelos movimentos sociais organizados e pelas políticas públicas busca realizar ações que possibilitem o acesso, a permanência e o sucesso acadêmico dos estudantes (Santos; Freitas, 2020). A pós-graduação, é uma das instâncias de formação do professor universitário, e esta experiência apresenta o estudo e a reflexão sobre a inclusão no processo formativo. Objetivo: Subsidiar reflexões sobre a multidimensionalidade da inclusão no Ensino Superior a partir da experiência de planejar de forma colaborativa a disciplina com estudantes da área da saúde. Relato de Experiência: A disciplina de Didática do Ensino Superior é de caráter obrigatório nos programas de pós-graduação da área da saúde em que a experiência vem ocorrendo. Trata-se de um trabalho que vem sendo desenvolvido há mais de dez anos e cujo planejamento vem assumindo contornos que provocam o olhar e o pensar sobre as oportunidades e/ou invisibilidades que, como docentes, podemos conduzir sendo mediadores do planejamento educativo. A disciplina se organiza da seguinte forma: 30h teórico-práticas e 30h de prática docente. A proposta de planejamento das primeiras 30h (teórico-práticas), quando apresentada aos estudantes, é posta em análise buscando construir sentido para a formação das pessoas que ali estão, naquele contexto de estudo. Então, mais do que listar tópicos, busca-se encontrar o lugar do que está sendo proposto no trabalho de um professor do Ensino Superior. Desde este início, já é problematizado que o planejamento elaborado pelo docente quando ainda não conhece os estudantes, é uma proposta criada a partir das orientações dadas pelas instâncias superiores e que estão documentadas no ordenamento legal próprio da formação na área da saúde, nas escolhas institucionais em relação ao perfil dos egressos, na identidade que o programa de pós-graduação vem assumindo na formação profissional, na visão de mundo do professor, em sua experiência pessoal e profissional, assim como nos estudos emergentes da área. Desta forma, como proposta que é, pressupõe negociação e diálogo. Importante dizer que alguns estudantes, ainda que minoria, chegam à disciplina com alguma experiência docente.  No percurso desses anos de experiência como docente da disciplina de Didática do Ensino Superior algumas temáticas do núcleo do campo da didática permanecem no programa, como as concepções do ensinar e aprender, modelos pedagógicos, elementos da docência no ensino superior, currículo, planejamento, métodos didáticos e avaliação. Neste âmbito, a temática da inclusão no Ensino Superior começa a surgir há aproximadamente oito anos, a partir de conversas na disciplina onde as pessoas que já tinham alguma experiência docente trazem a complexidade da prática pedagógica inclusiva neste nível de ensino, considerando a formação docente, a acessibilidade estrutural e a adaptação pedagógica. A emergência do tema vem também em consonância, ou como repercussão, de movimentos maiores em nível de instituição ao comprometer-se com a inclusão em seu projeto pedagógico e aderindo às políticas públicas nacionais. A partir daí, vários desenhos de estudo vêm acontecendo na disciplina que incorpora a inclusão como fundamento do trabalho didático. Dentre as propostas metodológicas construídas de forma colaborativa com os estudantes houve: roda de conversa com professora responsável pelo núcleo de inclusão na universidade em que foram trazidos os primeiros passos, as conquistas, os fracassos e os desafios, assim como a compreensão de todas as possibilidades de se entender a inclusão – gênero, raça, etnia, deficiências,...; estudo do histórico do processo de inclusão na educação desde antes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA, 1990), as diferentes formas de dizer no processo histórico – segregação, integração, inclusão – e as disputas aí presentes até o momento em que as pessoas acolhidas a partir da promulgação do ECA começam a se inserir no ambiente universitário; relato de experiência de estudante da área da saúde com deficiência auditiva apresentando as dificuldades e as possibilidades de trabalho metodológico facilitador da aprendizagem; relato de fisioterapeuta com deficiência visual sobre sua atuação no serviço e na formação de novos profissionais; estudo sobre comunicação inclusiva na saúde; estudo sobre a lei de cotas no Ensino Superior, como funcionam as comissões de heteroidentificação e as pesquisas que mostram a mudança de cor dos formandos da área da saúde a partir dessa política. Essas experiências foram se organizando ao longo dos anos tendo como definidor da estratégia metodológica o interesse e as necessidades do grupo naquele momento e, por isso, assumiram contornos diversos. Foram estratégias metodológicas construídas de forma participativa e responsiva aos questionamentos do grupo presente na disciplina. Reflexão sobre a experiência: O planejamento como carta de intenções propicia formação pela própria inclusão dos estudantes como sujeitos no processo. Incluídos e reconhecidos como possuidores de saberes compartilham da experiência de planejar um olhar diferenciado para as diferentes inclusões que desafiam o professor universitário.  A experiência traz a intersecção de temáticas caras para a formação docente – planejamento e inclusão – aqui articuladas em um movimento de interação dos envolvidos, sublinhando que a docência é trabalho baseado nas interações humanas. Há uma vigilância constante na permeabilidade do fazer docente que traz sua proposta e viabiliza a emergência de estudos, experiências e aprendizagem compartilhados, buscando manter-se na perspectiva do planejamento vivo. Conclusões: A inclusão no Ensino Superior pode e deve ser trabalhada de formas e em instâncias diversas. As ações didáticas contribuem de forma significativa para a promoção da cultura inclusiva não apenas no ambiente universitário, mas nos processos profissionais dos estudantes e na vida como um todo. A inserção da inclusão como conteúdo na disciplina de didática que trata de questões gerais do processo de ensino e de aprendizagem na formação docente, pode induzir à criação de didáticas específicas nas áreas da saúde para a inclusão de estudantes. Potencializa, ainda, refletir sobre os desafios da superação de um mero discurso favorável à inclusão para se efetivar em escolhas pedagógicas que deem materialidade a esta opção valorativa de tratar a multidimensionalidade da inclusão como constitutiva de um projeto educativo que entende a educação como direito humano coletivo.

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Instituições
  • 1 Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre
  • 2 Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Eixo Temático
  • 2 - Formação em Saúde na perspectiva da educação antirracista, equidade e inclusão
Palavras-chave
Planejamento participativo
Inclusão
Ensino Superior