MEHLISSA: ADOLESCENTE E NEGRA. UMA HISTÓRIA CONSTRUIDA EM UM PROCESSO PSICOEDUCATIVO.

- 339851
Relato de Experiência
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo

Introdução: Esse trabalho resulta de uma experiência de estágio curricular realizada no primeiro semestre de 2025 por duas estagiárias do quarto ano do curso de Psicologia. O objetivo do estágio é um atendimento de grupo em saúde, de linha psicoeducativa, e prioriza crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade física ou emocional, reconhecendo a importância de uma atenção voltada a este período que apresenta como tarefa central a formação da identidade (Pereira, 2005). Considerando a desigualdade social, um fenômeno complexo e multifacetado, manifestado na distribuição desigual das riquezas e oportunidades, o que resulta na formação de classes sociais. Pesquisas revelam que o Brasil está entre os países mais desiguais do mundo (Georges e Maia, 2017), realidade que perpassa a disparidade de renda e que se manifesta também no acesso precário aos serviços públicos, à educação, e demais oportunidades de vida. Objetivo: Apresentar esse processo de atendimento psicoeducativo com demandas relacionadas ao processo de construção da identidade diante da realidade das condições afetivas, familiares, sociais e de raça. Relato. O objetivo do atendimento foi analisar como o atravessamento racial atua como um elemento constituinte da formação identitária. O projeto foi desenvolvido em um Centro para Crianças e Adolescentes (CCA) na zona sul de São Paulo. Participaram sete meninas entre 9 e 10 anos, indicadas pela instituição, demandante do atendimento. Ao todo, foram realizados treze atendimentos, um por semana, com duração de uma hora. Cada encontro iniciava-se com um jogo de aquecimento, seguido da atividade principal que contemplasse questões da adolescência. Nos primeiros atendimentos buscou-se identificar as demandas das participantes, expressões de medos, tristezas, ansiedades e prazeres. Foi criada uma “caixa de sugestões”, na qual as meninas podiam registrar temas que desejavam discutir coletivamente, caso necessitassem de um tópico em sigilo. No sexto encontro, as participantes sugeriram criar uma nova integrante para o grupo. As participantes definiram seu nome, gênero, idade, cor de pele, corpo e história. A partir dessa criação, os atendimentos seguintes voltaram-se à construção de uma narrativa coletiva, que se configurou como espaço simbólico de expressão e elaboração das experiências individuais e grupais. Aí surgiu Mehlissa. Ela foi definida como uma menina que morava em São Paulo com a mãe, que trabalhava muito e que não dava a devida atenção à filha. Seu pai era separado, alcoolista e, antes, quando ainda tinha contato com a filha, a agredia fisicamente quando se embriagava. Sua mãe já tivera um namorado, mas esse padrasto abusava fisicamente da garota, o que motivou o término. Mehlissa possuía muitas feridas, mas, era muito amiga e tinha um paquera na escola. A garota também possuía alguns sonhos. Dentre eles, ser veterinária, viajar, ascender economicamente e conseguir ajudar a mãe financeiramente. Observa-se que em meio às violências relatadas também havia faíscas de esperança, ambições e sonhos que moviam a vida da personagem. No próximo atendimento, Mehlissa foi para a terapia e, muitas coisas apresentadas se misturavam com as histórias pessoais das participantes, trazendo reflexões e possibilitando elaborações grupais, tais como buscar relações amorosas mais construtivas, uma carreira profissional como fonte de mudança de vida, bem como, foram traçadas estratégias emocionais para elaborar seus sentimentos. Após a história estar finalizada foi ilustrada por elas e virou um livreto. Cada uma das meninas ganhou um exemplar do livro com o intuito de manter o tema presente. Reflexão: Todas as questões apontadas acima estavam presentes nos atendimentos de forma direta ou indireta os mesmos sofrimentos descritos na literatura foram trazidos à tona. Observou-se que a questão do racismo foi permeando todo o processo psicoeducativo pelos preconceitos e medos relacionadas a sua cor de pele. As vivências compartilhadas revelaram a existência de múltiplas formas de ser e existir na formação da identidade dessas participantes. Esse olhar apontou para uma adolescência repleta de conflitos familiares, violências diversas, desigualdade social, questões de raça e gênero, bem como o acesso ao mundo adulto distante daquele que um adolescente deveria ter para seu desenvolvimento integrado. O receio do julgamento dos colegas, dúvidas sobre em quem confiar, a fragilidade das amizades, os primeiros interesses amorosos e como lidar com esses sentimentos. Além disso, foram relatadas angústias relacionadas ao contexto social, tais como o medo de que a casa desabasse com as chuvas, o medo da violência e o medo de sofrer abuso sexual. Mehlissa foi construída com características extraídas de cada uma das participantes, de suas histórias de vida, dinâmicas familiares, gostos, hobbies, aparência e modo de ser. Compreende-se que essas crianças são atravessadas por dimensões históricas, sociais e territoriais, carregando em si tanto marcas de precarização e dificuldades para o futuro. O racismo contra adolescentes no Brasil é estrutural e gera problemas em várias áreas da vida tais como saúde mental (ansiedade, depressão e estresse), autoestima e desenvolvimento social. Acontece na escola, no online, diminuindo o desempenho escolar e o sentimento de pertencimento. Na adolescência com o desenvolvimento da identidade os estigmas e preconceitos sobre raça é vivenciado de forma mais forte gerando sentimentos de menos valia e vulnerabilidade diante das realizações e do futuro. Essa condição psicológica pode gerar variações de humor, impulsividade, irritabilidade emocional, raiva, agressividade, ansiedade, depressão e dissociação restringindo a capacidade de crianças e adolescentes de confiar, relaxar e explorar largamente suas escolhas e minimiza a possibilidade de experiencias elementos importantes para o desenvolvimento da identidade. Conclusões/Recomendações. Esse tipo de atendimento mostrou-se sensível e eficiente para o fortalecimento da construção da identidade dessas jovens. Considerando os cotidianos, contextos e pluralidades dos atendidos, faz-se necessária a existência de um espaço de escuta qualificada, acolhimento e cuidado com a saúde mental, que poderia ser nos serviços particulares ou públicos com ênfase na negritude e precisam ser ampliados. As estagiárias desenvolveram uma compreensão mais profunda das questões sociais, culturais e históricas que afetam a população negra. Isso inclui o reconhecimento das desigualdades raciais e das dificuldades específicas enfrentadas por jovens em situações de vulnerabilidade. As estagiárias tiveram a oportunidade de contribuir para a promoção da saúde mental em comunidades historicamente marginalizadas, abordando questões como estresse, discriminação e traumas relacionados à raça e classe. A experiência de atender a jovens negras e vulneráveis ajudou as estagiárias a se tornarem profissionais mais inclusivos, conscientes da importância de adaptar intervenções às necessidades específicas de diferentes grupos.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Eixo Temático
  • 2 - Formação em Saúde na perspectiva da educação antirracista, equidade e inclusão
Palavras-chave
Adolescencia
identidade
Psicologia
Racismo
Saúde Mental