Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo

Introdução: A promoção da saúde mental e do bem-estar constitui um desafio central nas sociedades contemporâneas, especialmente em contextos marcados por desigualdades sociais. que excluem e reforçam preconceitos e opressões . Evidências científicas indicam que o letramento emocional é um fator determinante para o desenvolvimento de habilidades de regulação emocional, fortalecimento de vínculos sociais e melhoria da qualidade de vida. No entanto, o acesso a práticas estruturadas de educação socioemocional permanece restrito em territórios periféricos, onde condições de vulnerabilidade social intensificam a exposição a fatores de risco psicossocial e à exclusão social. No contexto brasileiro, observa-se aumento significativo de sintomas de ansiedade, depressão e estresse entre jovens e educadores, agravado por fatores socioeconômicos e pelos impactos recentes da pandemia. Nesse cenário, o autocuidado emerge como prática essencial, porém frequentemente compreendida de forma individualizada, desconsiderando suas dimensões coletivas, sociais e políticas. A Aprendizagem Socioemocional e Ética apresenta-se como uma abordagem promissora ao integrar desenvolvimento emocional, consciência ética e engajamento comunitário. Apesar de evidências internacionais positivas, ainda são incipientes os estudos que analisam sua aplicação em contextos periféricos brasileiros, especialmente quando mediada por educadores populares. Estudos realizados em comunidades em situação de vulnerabilidade apontam que práticas baseadas em compaixão e aprendizagem socioemocional podem contribuir para a redução do sofrimento psíquico, fortalecimento de vínculos e ampliação do bem-estar coletivo (KOLCHRAIBER et al., 2022). No contexto educacional brasileiro, a Base Nacional Comum Curricular reconhece a importância do desenvolvimento das competências socioemocionais como dimensão fundamental da formação integral dos sujeitos (BRASIL, 2020). Tal perspectiva dialoga com concepções de educação emancipatória, inclusiva , equânime e  participativa, nas quais o cuidado e a construção coletiva do conhecimento constituem práticas de transformação social (FREIRE, 1999), além de abordagens voltadas ao desenvolvimento das competências socioemocionais e da consciência ética (GOLEMAN; SENGE, 2014).

Objetivo:  Discutir as potências e desafios de um  programa de aprendizagem socioemocional e ética na promoção do direito ao autocuidado em comunidades periféricas do município de São Paulo. Especificamente, pretende-se identificar percepções de educadores populares, analisar aspectos metodológicos da aplicação, sistematizar a experiência como tecnologia social, compreender desafios e potencialidades e elaborar material educativo a partir das vivências.

Metodologia: Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter exploratório e interpretativo, fundamentado na Pesquisa Participativa Baseada na Comunidade, abordagem que valoriza a participação social, o protagonismo comunitário e a produção compartilhada do conhecimento (WALLERSTEIN et al., 2018). A pesquisa  encontra-se em

andamento e tem como espaço de desenvolvimento a   região de Parelheiros, São Paulo, em parceria com organizações da sociedade civil. Participam da pesquisa entre 20 e 30 educadores populares e professores atuantes no território. A produção de dados ocorre ao longo de 12 encontros formativos, com a  implementação de  um programa de aprendizagem socioemocional e ética adaptado ao contexto comunitário. O percurso metodológico inclui diagnóstico participativo, implementação, monitoramento contínuo e sistematização da experiência. São utilizados como instrumentos de coleta de dados o diário de campo, formulários de monitoramento, entrevistas semiestruturadas e grupos focais. O processo de análise de dados abrange a  análise temática.. A pesquisa segue  as diretrizes éticas vigentes para estudos com seres humanos, com aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa, sob parecer nº 7.832.303.

Resultados: O diagnóstico participativo evidenciou que os educadores populares e professores participantes reconhecem a saúde mental como uma demanda urgente no território de Parelheiros, especialmente diante do aumento de situações relacionadas à ansiedade, sobrecarga emocional, esgotamento e fragilização dos vínculos comunitários. Os participantes relataram ausência de espaços permanentes de escuta, acolhimento e formação voltados ao cuidado emocional de educadores e lideranças comunitárias, apontando que o cuidado, em geral, é compreendido como responsabilidade individual e não como direito coletivo e prática comunitária, em

perspectiva de equidade e inclusão .. Também foram identificadas dificuldades relacionadas ao acesso a equipamentos públicos de saúde mental e à escassez de ações educativas culturalmente contextualizadas às realidades periféricas. No processo de implementação, estão sendo realizados encontros formativos baseados nos princípios da Aprendizagem Sócio Emocional e Ética, articulando práticas de escuta ativa, exercícios de atenção plena, rodas de conversa, dinâmicas coletivas e reflexões sobre território, direitos e equidade em saúde. As atividades têm possibilitado a construção de espaços de diálogo e fortalecimento de vínculos entre os participantes, favorecendo processos de reconhecimento emocional, pertencimento e valorização das experiências comunitárias. O monitoramento inicial da experiência aponta que os participantes passaram a identificar o autocuidado como prática coletiva e política, relacionada à construção de redes de apoio, fortalecimento comunitário e promoção da saúde inclusiva. Observou-se maior abertura para o compartilhamento de experiências emocionais, além da ampliação das discussões sobre racismo, desigualdade social e impactos das vulnerabilidades territoriais na saúde mental. Os registros em diário de campo e os relatos preliminares indicam potencial da metodologia para contribuir com estratégias de educação em saúde comprometidas com a equidade e com a promoção de ambientes educativos mais acolhedores e participativos.

Conclusões Parciais: Os resultados preliminares sugerem que a Aprendizagem Socioemocional e Ética, quando adaptada ao contexto comunitário e desenvolvida de forma participativa, pode constituir importante estratégia de promoção da saúde mental e fortalecimento do direito ao autocuidado em territórios periféricos. A experiência evidencia a relevância de práticas educativas que integrem dimensões emocionais, sociais, éticas e políticas, reconhecendo os sujeitos e os territórios como produtores de saberes e estratégias de cuidado. Além disso, o estudo reforça a necessidade de ampliação de políticas públicas e ações de educação em saúde voltadas à formação sócio emocional de educadores populares e lideranças comunitárias, considerando as desigualdades estruturais que atravessam os territórios periféricos. A sistematização da experiência poderá contribuir para a construção de tecnologias sociais voltadas à promoção da equidade em saúde e ao fortalecimento das práticas comunitárias de cuidado.

Palavras-chave: autocuidado, educação em saúde, equidade em saúde, participação da comunidade, saúde mental.

 

Referências:

BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2020.

FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1999.

GOLEMAN, D.; SENGE, P. O foco triplo: uma nova abordagem para a educação. 2014.

KOLCHRAIBER, F. et al. Effects of compassion training in vulnerable communities. Revista Latino-Americana de Enfermagem, 2022.

WALLERSTEIN, N. et al. Community-based participatory research for health. 2020.

 

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Instituições
  • 1 Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
  • 2 Instituto brasileiro de estudos e apoio comunitátio
Eixo Temático
  • 3 - Educação em Saúde na perspectiva da educação antirracista, equidade e inclusão
Palavras-chave
autocuidado
educação em saúde
equidade em saúde
participação da comunidade
saúde mental