Competência Estrutural em Saúde e Determinação Social da Saúde: experiência acadêmica na Universidade de Berkeley

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Relato de Experiência
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Resumo

Introdução

A Competência Estrutural em Saúde (Structural Competency) tem se consolidado internacionalmente como uma proposta crítica para a formação em saúde, ao defender que profissionais desenvolvam capacidade de reconhecer as estruturas sociais, políticas, econômicas e institucionais responsáveis pela produção das desigualdades em saúde. Inicialmente formulada nos Estados Unidos por Jonathan Metzl e Helena Hansen, essa abordagem surge como crítica às limitações da chamada “competência cultural”, deslocando o foco das diferenças individuais para os processos estruturais que condicionam o adoecimento e o acesso ao cuidado.

No contexto latino-americano, especialmente na Medicina Social Latino-Americana e na Saúde Coletiva, a discussão sobre a determinação social da saúde possui longa tradição teórica e política, fundamentada no materialismo histórico-dialético e nas contribuições de autores como Jaime Breilh, Asa Cristina Laurell e Maria Cecília Donnangelo. Entretanto, ainda são limitados os espaços de diálogo internacional entre essas perspectivas críticas produzidas na América Latina e os debates contemporâneos sobre Competência Estrutural em Saúde desenvolvidos nos Estados Unidos.

A experiência vivenciada na Universidade da Califórnia, Berkeley, possibilitou contato direto com pesquisadores, estudantes e práticas acadêmicas relacionadas à Competência Estrutural em Saúde, permitindo reflexões sobre suas aproximações e tensões com a perspectiva da Determinação Social da Saúde. Além do aprofundamento teórico, a experiência favoreceu a participação em atividades acadêmicas, discussões coletivas e apresentações sobre o tema, fortalecendo a articulação entre universidade, pesquisa e compromisso político com a justiça social em saúde.

Objetivos

Relatar a experiência acadêmica vivenciada na Universidade da Califórnia, Berkeley, envolvendo estudos, pesquisas e diálogos sobre Competência Estrutural em Saúde em articulação com a perspectiva da Determinação Social da Saúde latino-americana.

Relato

A experiência ocorreu durante atividades acadêmicas desenvolvidas na Universidade da Califórnia, Berkeley, envolvendo participação em aulas, seminários, grupos de discussão e aproximação com pesquisadores que atuam no campo da saúde pública e Competência Estrutural em Saúde. O contato com essa temática foi resultado de uma trajetória anterior de estudos críticos sobre formação em saúde e das inquietações relacionadas aos limites do modelo biomédico tradicional.

Durante a permanência na universidade, foi possível acompanhar debates sobre desigualdades sociais, racismo estrutural, colonialismo, violência estrutural, pobreza, acesso à saúde e políticas públicas, temas frequentemente abordados nas discussões sobre Competência Estrutural em Saúde. As atividades acadêmicas permitiram observar como a proposta vem sendo incorporada na formação de profissionais da saúde nos Estados Unidos, especialmente na educação médica e em programas interdisciplinares voltados à saúde pública.

Além da participação em atividades formativas, a experiência também envolveu momentos de diálogo com pesquisadores e estudantes interessados nas contribuições da Medicina Social Latino-Americana e da Saúde Coletiva brasileira. Nesse contexto, destacaram-se discussões sobre as diferenças entre a abordagem dos Determinantes Sociais da Saúde, amplamente difundida pela Organização Mundial da Saúde, e a perspectiva da Determinação Social da Saúde construída por autores latino-americanos.

A experiência incluiu ainda a realização de apresentação acadêmica na Universidade de Berkeley abordando a relação entre Competência Estrutural em Saúde e Determinação Social da Saúde. Na apresentação, foram discutidas as contribuições críticas da Saúde Coletiva latino-americana, especialmente a partir das formulações de Jaime Breilh, ressaltando a importância de compreender o processo saúde-doença para além de fatores isolados ou comportamentais, considerando as relações de poder, as desigualdades estruturais e a dinâmica do capitalismo contemporâneo.

Os debates realizados evidenciaram interesse de pesquisadores internacionais pelas contribuições produzidas na América Latina, principalmente no que se refere à crítica ao biologicismo, à medicalização social e às perspectivas reformistas presentes em algumas abordagens sobre determinantes sociais da saúde. Também foi possível perceber aproximações importantes entre os referenciais, especialmente na defesa de práticas formativas comprometidas com transformação social, equidade e justiça sanitária.

Outro aspecto relevante da experiência foi a possibilidade de observar metodologias de ensino que valorizavam participação coletiva, diálogo interdisciplinar e problematização crítica da realidade social. As discussões em sala de aula frequentemente articulavam teoria e prática, buscando compreender como as estruturas sociais se expressam nos serviços de saúde, nas trajetórias dos pacientes e nos processos de adoecimento.

Reflexão

A experiência vivenciada em Berkeley permitiu compreender que a Competência Estrutural em Saúde representa importante avanço em relação às abordagens tradicionais centradas exclusivamente nos indivíduos e nos comportamentos de risco. Ao incorporar temas como racismo estrutural, desigualdade econômica, violência institucional e colonialismo, essa perspectiva amplia significativamente o olhar sobre o processo saúde-doença e sobre a formação em saúde.

Entretanto, os diálogos realizados também evidenciaram que existem diferenças importantes entre a Competência Estrutural em Saúde e a perspectiva da Determinação Social da Saúde desenvolvida na América Latina. Enquanto parte da produção estadunidense ainda se organiza a partir da noção de determinantes sociais da saúde, a Medicina Social Latino-Americana busca compreender a saúde a partir das relações históricas, econômicas e políticas que estruturam a sociedade capitalista.

Nesse sentido, a experiência reforçou a importância de ampliar os intercâmbios entre pesquisadores latino-americanos e estadunidenses, evitando processos de despolitização ou simplificação das análises estruturais. O diálogo entre esses referenciais possui grande potencial para fortalecer práticas pedagógicas críticas e construir formas de formação em saúde comprometidas com emancipação social e defesa dos sistemas públicos de saúde.

Outro elemento relevante foi perceber o reconhecimento internacional das contribuições produzidas pela Saúde Coletiva brasileira e pela Medicina Social Latino-Americana. Em diversos momentos, tornou-se evidente o interesse pelas categorias teóricas relacionadas à determinação social da saúde, à práxis, à participação social e à crítica das desigualdades estruturais.

A vivência também possibilitou reflexão sobre a necessidade de superar modelos formativos excessivamente tecnicistas e fragmentados, ainda predominantes em muitos cursos da área da saúde. A aproximação com experiências pedagógicas críticas reafirmou a importância de processos educativos capazes de articular ciência, política, cultura e compromisso ético com transformação social.

Conclusões/Recomendações

A experiência acadêmica na Universidade da Califórnia, Berkeley, contribuiu significativamente para o aprofundamento teórico e político sobre Competência Estrutural em Saúde e suas interfaces com a Determinação Social da Saúde. A participação em aulas, debates, pesquisas e apresentações acadêmicas possibilitou intercâmbio internacional de conhecimentos e fortalecimento de reflexões críticas sobre formação em saúde.

A experiência evidenciou a relevância do diálogo entre a produção acadêmica latino-americana e os debates internacionais contemporâneos sobre desigualdades em saúde. Recomenda-se o fortalecimento de redes de cooperação entre universidades, pesquisadores e movimentos sociais comprometidos com perspectivas críticas de formação em saúde, especialmente aquelas voltadas à defesa da justiça social, da equidade e dos sistemas públicos de saúde.

Palavras-chave

Educação em Saúde; Saúde Coletiva; Determinação Social da Saúde; Formação em Saúde; Justiça Social.

Referências

BREILH, Jaime. Epidemiologia crítica: ciência emancipadora e interculturalidade. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2006.

HANSEN, Helena; METZL, Jonathan. Structural competency in the U.S. healthcare crisis: putting social and policy interventions into clinical practice. Journal of Bioethical Inquiry, v. 13, n. 2, p. 179-183, 2016.

METZL, Jonathan; HANSEN, Helena. Structural competency: theorizing a new medical engagement with stigma and inequality. Social Science & Medicine, v. 103, p. 126-133, 2014.

PIÑONES-RIVERA, Carlos et al. Structural competency, Latin American Social Medicine, and Collective Health: exploring shared lessons through the work of Jaime Breilh. Medical Anthropology Quarterly, v. 36, n. 4, p. 503-517, 2022.

SOUZA, Diego de Oliveira. Determinação social da saúde: um estudo de suas origens e formulações conceituais. Saúde em Debate, v. 44, n. 125, p. 173-184, 2020.

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Instituições
  • 1 Universidade Federal de Goiás
Eixo Temático
  • 2 - Formação em Saúde na perspectiva da educação antirracista, equidade e inclusão
Palavras-chave
competência estrutural
formação em saúde
educação em saúde