A PRÁTICA CUIDADOSA E INCLUSIVA DA PRECEPTORIA NO PROGRAMA DE RESIDÊNCIA EM SAÚDE

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Relato de Experiência
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Resumo

Introdução

O contexto formativo na perspectiva da Residência Multiprofissional e em Área Profissional da Saúde (PRMS) representam uma vivência singular, pois articulam aprendizagem, trabalho e compartilhamento de responsabilidades formativas entre os setores da saúde e da educação (BRASIL, 2021).

Trata-se de uma Pós-Graduação lato sensu, orientada pelos princípios e diretrizes do Sistema Único de Saúde (SUS) voltada para a educação em serviço e destinada às categorias profissionais que integram a área de saúde (Biomedicina, Ciências Biológicas, Educação Física, Enfermagem, Farmácia, Fisioterapia, Fonoaudiologia, Medicina Veterinária, Nutrição, Odontologia, Psicologia, Saúde Coletiva, Serviço Social, Terapia Ocupacional e Física Médica), com duração mínima de 2 (dois) anos, equivalente a uma carga horária mínima total de 5.760 (cinco mil setecentos e sessenta) horas de atividades teóricas e práticas, e dedicação exclusiva (BRASIL, 2021).

A formação em saúde na modalidade residência, caracteriza-se por educação pelo trabalho. Nesse contexto, a preceptoria é uma prática de ensino-aprendizagem que acontece nos serviços, e envolve inúmeras funções, das quais destacam-se a orientação, a troca de experiência, habilidade técnica e expertise educacional, bem como avaliação do processo formativo/desempenho do profissional de saúde residente (SOUZA; FERREIRA, 2019; SOUZA).

Estudo realizado em um programa de residência multiprofissional em saúde, constatou que a preceptoria é um fator contributivo para a formação em saúde. Além disso, as autoras mencionam que a preceptoria é uma atividade de ensino, que “está constantemente se modificando, devendo culminar na transformação dos processos de formação e trabalho” (SOUZA; FERREIRA, 2019, p. 19).

Nesse sentido, os profissionais que exercem a atividade de preceptoria no âmbito das instituições de ensino ou de saúde, e de forma particular, que atuam na formação modalidade residência em saúde, devem questionar: Como os programas de residência podem acolher a pessoa/profissional residente com deficiência?

De maneira específica, temos observado um aumento importante no diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA). O TEA tem uma classificação e diferentes níveis de suporte (nível leve ao intensivo). De acordo com a Lei n° 12.764, de dezembro de 2012, “a pessoa com TEA é considerada pessoa com deficiência para todos os efeitos legais”. No entanto, constatamos lacunas no que se refere a espaços e ambientes acessíveis, adaptação de currículos/processo formativo, entre outros (SANTOS et al., 2024). O ingresso, acolhimento e inclusão do residente com TEA nos programas de residência mobiliza ações e práticas inclusivas diárias, a fim de promover “relações pedagógicas engajadas com éticas [...] numa perspectiva de desconstrução de normativas hierarquizadoras e excludentes” (SATHLER; OLIVEIRA, 2024, p. 613).

 

Objetivo

O presente relato tem como objetivo descrever a experiência da preceptoria no acolhimento do profissional de saúde residente com TEA vivenciado durante o percurso formativo junto ao programa de residência multiprofissional em Atenção ao Paciente Adulto na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), realizado em um hospital universitário, da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

 

Relato de Experiência

Trata-se de um estudo descritivo, tipo relato de experiência. O norteamento metodológico, baseou-se na Educação Problematizadora de Paulo Freire. Na problematização, palavras e sentidos são disparadores de aprendizagem numa atitude de diálogo e reflexão, com vistas à transformação da realidade (FREIRE, 1996). O relato foi estruturado em três movimentos principais.

Movimento 1: reconhecimento do ambiente de prática e aprendizagem

 

A experiência refere-se ao contexto da preceptoria no acompanhamento de uma residente enfermeira, com TEA cursando o segundo ano de residência no ambiente de prática e aprendizagem de assistência ao paciente criticamente enfermo – UTI adulto (eixo de concentração do programa).

No contexto do cuidado ao paciente criticamente enfermo, a equipe de enfermagem desempenha suas atividades baseadas na assistência integral, tendo em vista a gravidade e instabilidade clínica do paciente internado na UTI. Trata-se de um ambiente complexo, com fluxos e protocolos clínicos diversos, além de concentrar e disponibilizar recursos tecnológicos que auxiliam na monitorização dos sinais vitais e parâmetros hemodinâmicos, no sentido de garantir a vigilância constante dos pacientes, bem como o acompanhamento da resposta à terapêutica aplicada.

O preceptor (diarista ou plantonista) assume a responsabilidade de acolher e integrar o profissional residente a dinâmica do serviço e dar suporte durante todo o processo formativo do residente.

Movimento 2: incorporação e adaptação pedagógica no enfrentamento das barreiras

A residente enfermeira com TEA precisou adotar algumas ações que ajudaram a superar as barreiras impostas no contexto da UTI, dentre as quais destaco: adoção de uma comunicação assertiva entre os diversos profissionais, isso inclui também, os preceptores.

No que se refere a preceptoria, foi adotado a prática da escuta qualificada, no sentido de acolher e compreender os desafios percebidos pela residente, e readequar as necessidades de aprendizagem conforme sequenciamento/rodízio nos ambientes de prática.

No contexto da terapia intensiva adulto, para minimizar os estímulos ambientais (ruídos, alarmes dos equipamentos), a residente optou pelo uso de fones/abafadores, proporcionando conforto diante dos estímulos sensoriais oriundos do ambiente.

Outro aspecto, considerado fundamental pela preceptoria, é o respeito às particularidades da pessoa com TEA. Tal atitude, favoreceu a boa relação interpessoal/social e evitou a exposição à situações desnecessárias e estressantes.

Movimento 3: reconstruindo a prática pedagógica da preceptoria

A ideia central desse movimento foi destacar que a prática mediada pelo exercício da preceptoria é capaz de otimizar o processo formativo integrando valores e atitudes pautados na inclusão, diversidade e humanização. É necessário entender que os saberes podem ser criados e recriados a todo o momento. Para tanto, é fundamental criar possibilidades para sua construção numa perspectiva em que ensinar e aprender compõe o alicerce da educação para transformação da realidade.

 

Reflexão sobre a experiência

A experiência desencadeou inicialmente, uma quebra da rotina, possibilitando reconhecer saberes, incertezas, dúvidas e práticas, bem como a construção e assimilação de novos conhecimentos, (re)significando a prática profissional do preceptor no itinerário formativo da pessoa com TEA.

 

Recomendações

Os aprendizados aqui destacados revelam um percurso formativo ativo, crítico e reflexivo. Foi uma oportunidade de reconstruir novas possibilidades e esperanças de abertura para novas trajetórias e perspectivas plurais e inclusivas. Portanto, são mobilizadoras as palavras de Freire (1996, p. 130) “a possibilidade crescente que tem o homem de, por seu espírito criador, por seu trabalho, nas suas relações com o mundo, transformá-lo cada vez mais. E que esta transformação, contudo, só tem sentido na medida em que contribuir para a humanização do homem”.

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Instituições
  • 1 Universidade Federal do Amazonas
Eixo Temático
  • 1 - Docência e Preceptoria na perspectiva da educação antirracista, equidade e inclusão
Palavras-chave
Aprendizagem
Autismo
Residência em saúde
Preceptoria