O esporte é caracterizado como um segmento da sociedade no qual se (re)produzem preconceitos estabelecidos na sociedade mais ampla, como as violências raciais. Essas violências tendem a adicionar uma pressão maior para pessoas negras no ambiente competitivo. Somado ao marcador social raça, temos o marcador de gênero que influenciam diretamente a experiência esportiva de determinados grupos, privilegiando, por exemplo, homens brancos na participação e reconhecimento esportivo, inclusive no basquetebol, modalidade praticada amplamente por pessoas negras, sendo a vivência de mulheres negras dentro dessa modalidade dificultada. Este estudo retrospectivo teve como objetivo investigar as percepções de atletas brasileiras negras de basquetebol feminino sobre o racismo percebido no ambiente esportivo durante sua trajetória na modalidade e quais foram os efeitos dessa violência na trajetória esportiva. Foram entrevistadas a partir de roteiro semiestruturado, via plataforma online, duas atletas e uma ex-atleta profissional de basquetebol feminino (25 ± 1 ano) autodeclaradas negras. Das atletas ativas, uma atuava em um clube no estado de São Paulo e outra em um campeonato universitário norte-americano, a ex-atleta atuou majoritariamente em campeonatos internacionais universitários. Esta pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética local e as participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido. Os dados foram tratados a partir de análise temática realizada sob a luz da literatura sobre negritude e esporte e da ótica da primeira autora, que é uma jovem pesquisadora negra e atleta da modalidade. Quatro temas abrangentes foram desenvolvidos: (1) “a dificuldade de reconhecimento do racismo”, pela naturalização e a forma enraizada dessas violências na cultura da sociedade, que abrangeram parte importante do relato das entrevistadas; (2) “a consciência da diferença racial” como contraponto do tema anterior, no que tange o entendimento de que é perceptível uma diferença de tratamento e oportunidades relacionado à cor de pele das atletas, apesar da dificuldade de nomeação do racismo; (3) “a impotência e normalização forçada das estruturas sociais” retrata uma aceitação coagida das atletas embasada pelo sistema racializado que influencia a crença de normalidade desses mecanismos sociais racistas obrigando-as ao desenvolvimento de mecanismos de defesa que visam minimizar o dano causado, facilitando a convivência com ele ; (4) "reações às violências e os silêncios estratégicos" expõe algumas maneiras de reação perante situações de racismo, que as auxiliaram a suportar essa jornada, apesar das problemáticas apresentadas uma das forças encontradas para persistência nesse caminho é o apoio, escasso mas existente de uma base que reconforta essas atletas. Concluímos que para os cuidados com um ambiente esportivo que seja de fato acolhedor não impondo mais pressões desnecessárias na carreira dessas mulheres negras, via processos de conscientização da comunidade esportiva, amparada por mais estudos interseccionais que divulguem e validem o racismo dentro da perspectiva multifatorial de quem o sente na pele, atrelado a implementação de programas educativos antirracismo, dentro de instituições esportivas que visam prevenir essas ocorrências. Em paralelo, é fundamental acolher e proteger as vítimas, punir os agressores, promovendo assim um ambiente propício para o desenvolvimento dessas atletas.