Para citar este trabalho use um dos padrões abaixo:
O Budō (武道, caminho do guerreiro, o conjunto de artes marciais japonesas) possui práticas de conexão e conscientização sobre a unidade do ser humano com a Natureza e preservação do meio ambiente que ocorrem em tradicionais eventos chamados gasshuku (合宿). O gasshuku é um retiro de treinamento que pode durar dois ou mais dias e em que, além das práticas de arte marcial realizadas ao ar livre, ocorrem vivências de interação com o meio natural. Entre essas práticas estão o shinrin-yoku (森林 浴, as caminhadas na natureza com “banho de floresta”), taki shugyō (滝修行, meditação na cachoeira) e tachiki-uchi (立ち木打ち, treinamento técnico golpeando troncos de árvores). O íntimo contato dos praticantes de Budō (Jūdō, Kendō, Karate-dō, Aikidō, etc) com o meio ambiente, mesmo que apenas nesses eventos de retiro, é embasado em uma série de conceitos e valores sustentáveis oriundos da filosofia taoísta. As principais formulações taoístas que historicamente deram fundamento às práticas citadas foram a busca pela espontaneidade (自然, Shizen) e a invisibilidade (不見, Fuken). Espontaneidade é a forma harmoniosa de agir em equilíbrio com o mundo. Invisibilidade é a forma de ocupar e transitar por espaços sem “deixar rastros”, ou seja, sem causar danos aos espaços e sem deixar marcas, como se não houvesse ali estado. Como as artes marciais japonesas foram introduzidas no Brasil junto dos fluxos imigratórios de asiáticos no final do séc. XIX e início do séc. XX, uma questão norteadora se apresenta: os princípios da espontaneidade e invisibilidade foram transmitidos no Brasil através das artes marciais? O objetivo desse estudo é, portanto, compreender, através de um estudo histórico, se as representações sobre conexão do ser humano com a Natureza e preservação do meio ambiente foram transmitidas pelos mestres japoneses e como foram apropriadas pelos brasileiros. As fontes deste estudo foram os documentos presentes na literatura e entrevistas com professores de Karate com mais de 30 anos de ensino da arte. As entrevistas foram analisadas à luz das categorias da História Cultural e passaram pela Análise de Conteúdo para melhor interpretação. A pesquisa revela que as escolas que foram responsáveis pela difusão do Karate no Brasil (Nihon Karate Kyōkai, Wadō-ryū Renmei, Shinshukan, entre outras) em parceria com entidades como a sede brasileira da Universidade Kokushikan, promoveram diversos gasshuku nas décadas de 1970 e 1980. Paulatinamente esses retiros, que reuniam praticantes de todo país, foram perdendo força. Essa fase vai se encerrando conforme a visão esportiva-competitiva e de alto-rendimento vai ganhando importância sobre a visão educacional inicial. Como existem ainda a promoção de gasshuku por entidades com sede no Brasil e práticas ligadas à natureza, percebemos que as práticas do Budō na natureza foram apropriadas no país, apesar de serem, hoje, ligeiramente diferentes daquelas que ocorrem no Japão e, devido à barreira linguística e cultural, bastante distintas daquelas que ocorrem no ascetismo japonês (shugendō).
Com ~200 mil publicações revisadas por pesquisadores do mundo todo, o Galoá impulsiona cientistas na descoberta de pesquisas de ponta por meio de nossa plataforma indexada.
Confira nossos produtos e como podemos ajudá-lo a dar mais alcance para sua pesquisa:
Esse proceedings é identificado por um DOI , para usar em citações ou referências bibliográficas. Atenção: este não é um DOI para o jornal e, como tal, não pode ser usado em Lattes para identificar um trabalho específico.
Verifique o link "Como citar" na página do trabalho, para ver como citar corretamente o artigo