Corpo Negro e Etnicidade na Ginástica Competitiva: Desafios e Representações

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Comunicação oral
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Resumo

A etnicidade envolve comportamentos que aproximam indivíduos de seu grupo étnico, criando redes internas de interação (Rodrigues, 2021). O princípio da "consciência de espécie", ou sentimento de pertencimento, é compartilhado por características físicas, biológicas, raciais, fenotípicas e culturais comuns. Na Ginástica, a presença do corpo negro ainda desafia as estruturas da cultura esportiva europeia predominante, apesar de iniciativas isoladas, como a da treinadora Ilona Peuker no século XIX, que buscou uma maior brasilidade nas composições a partir da variedade rítmica e da flora (Locci; Toledo; Schiavon, 2023), e mais recentemente na ginástica artística com ginastas negras, como Daiane dos Santos e Rebeca Andrade. Este estudo objetiva identificar dificuldades enfrentadas por 6 ex-ginastas negros(as) da seleção brasileira de três modalidades entre 1990 e 2017, por meio da História Oral (Meihy, 2007), buscando valorizar suas memórias sobre o pertencimento na ginástica. Utilizou-se a história oral temática, que foca nas experiências sobre um determinado tema (Meihy; Ribeiro, 2012). Identificou-se que o sentimento de não pertencimento de ginastas negros(as) na Ginástica foi uma hipótese confirmada, com indicadores como o cabelo não aceito, dificultando a adequação ao padrão de penteados feitos para cabelos lisos, e a cor da pele preta, que destoava da cor branca das ginastas do conjunto, como em uma frase dita: “coloca ela na quiboa”, uma fala racista que a ex-ginasta só entendeu como grave anos depois. Houve também a luta pelo corpo ideal no padrão europeu, como numa situação de arbitragem em campeonato internacional, em que foi sugerido que uma ex-ginasta brasileira deveria emagrecer, e a treinadora respondeu: “não, ela é muito magra, o que ela tem é um corpo diferente das europeias. Além disso, os resultados das entrevistas indicam que os(as) negros(as) frequentemente ocupam espaços em projetos sociais, com foco no acolhimento de crianças em situação de vulnerabilidade, sendo, em grande parte, negras. Porém, na posição de protagonismo, em seleções principais, a presença de negros(as) ainda é incipiente, e os presentes muitas vezes foram apadrinhados, ou seus pais se sacrificaram para realizar seus sonhos, enquanto a mídia reforça esse processo, construindo a imagem do negro como herói para a sociedade (Ferreira, 2021). Essa ginástica secular, que remonta a séculos, não foi pensada para o corpo negro em suas diversas dimensões físicas, ideológicas e culturais, configurando-se como um “lugar” de grande sofrimento no processo de pertencimento. A presença do corpo negro ainda parece causar perturbação, pois a etnicidade da ginástica não os pertence. Recentemente, tivemos um pódio olímpico com três ginastas negras, quebrando a branquitude de ginastas russas e/ou europeias, assim como identificamos a ciência do desporto caminhando para essa direção, conforme discutido no artigo “Ginástica para todas, todes e todos: por uma pedagogia da diversidade” (Ayoub, 2022). Esperamos que a presença do corpo negro se torne mais constante em todo o processo de formação do(a) ginasta, podendo ser um lugar de pertencimento e não de estranheza. Que não esteja apenas superficialmente, mas que os(as) ginastas negros(as) possam trazer suas cores, culturas, ideias para a nossa ginástica (Antualpa et al., 2021; Dias; Antualpa; Toledo, 2022).

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Instituições
  • 1 Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP)
Eixo Temático
  • Esporte, Desempenho Esportivo e a Diversidade
Palavras-chave
Ginástica brasileira
Corpo negro
Etnicidade