O ESTABLISHMENT MÉDICO E OS CUIDADOS DE MATRIZ AFRICANA NO FINAL DO SÉCULO XIX EM CAMPINAS

Vol 3, 2025 - 220504
Comunicação Oral Curta
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo

Apresentação/Introdução No contexto da epidemia de febre amarela em Campinas no final do século XIX, práticas de cuidado de matriz africana foram alvo de repressão sanitária. A união entre medicina, Estado e forças repressivas operou um processo de exclusão e criminalização desses saberes. Este trabalho propõe uma leitura crítica dessas ações considerando o contexto das relações raciais do pós-abolição. Objetivos Analisar a repressão às práticas de cuidado de matriz africana em Campinas no final do séc. XIX como epistemicídio, analisando a associação entre o racismo antinegro e o regime de verdades e práticas sanitárias do establishment médico. Metodologia A pesquisa, de natureza qualitativa e histórica, baseou-se em análise documental e bibliográfica, com ênfase em fontes secundárias, como trabalhos acadêmicos e artigos científicos que discutem o contexto sanitário e racial de Campinas no período entre 1888 e 1926. Destaca-se o uso do trabalho de Cleber da Silva Maciel (1985), cuja análise sobre a atuação de agentes do ofício da cura e mães/pais de santo em Campinas foi fundamental para compreender os mecanismos de repressão e deslegitimação desses saberes. Além disso, realizamos leitura crítica de produções sanitaristas contemporâneas que contribuem para uma narrativa pouco atenta aos efeitos da política sanitária sobre a população negra. Resultados Constatou-se que médicos da época atuaram na repressão de saberes negros. Por meio de campanhas públicas, construíram discurso que associava práticas de “curandeirismo” à morte e ao risco sanitário, justificando ações policiais como de saúde pública. As práticas criminalizadas eram, sobretudo, de matriz africana, expondo a intersecção do racismo com a institucionalização do monopólio da medicina científica ocidental na saúde. Oficiantes criminalizados eram presos, açoitados e obrigados a assinar “termos de bem viver”. A literatura sanitarista atual negligencia o tema, perpetuando a visão de sucesso das ações sanitárias sem considerar seus efeitos para a população negra e suas epistemologias Conclusões/Considerações A repressão às práticas de matriz africana, sob o mote da higiene e da saúde pública, revela como o racismo fenotípico e religioso operavam no pós-abolição na configuração da biopolítica nacional. A atuação médica contribuiu para criminalizar esses saberes, configurando-se como parte de um processo de exclusão mais amplo, ao mesmo tempo que “sanitarizava” epistemicamente o campo da saúde em benefício da soberania da medicina científica ocidental.

Compartilhe suas ideias ou dúvidas com os autores!

Sabia que o maior estímulo no desenvolvimento científico e cultural é a curiosidade? Deixe seus questionamentos ou sugestões para o autor!

Faça login para interagir

Tem uma dúvida ou sugestão? Compartilhe seu feedback com os autores!

Eixo Temático
  • Eixo 17 - História e Saúde