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Este estudo trata de uma pesquisa realizada com mulheres quilombolas da comunidade de Mesquita-GO. Objetivou caracterizar a utilização pelas mulheres quilombolas dos serviços de atenção primária à saúde, em particular, os serviços voltados a saúde reprodutiva. E ainda, apreender as percepções dessas mulheres sobre maternidade e cuidado. Foram realizadas 27 entrevistas semiestruturadas, analisadas de acordo com a técnica de Análise Temática Dialógica. Verificou-se que as desigualdades sócio-raciais comprometem o acesso das mulheres quilombolas aos serviços de saúde, sendo gênero e raça eixos que influenciam no acesso diferenciado. As mulheres relataram diversas barreiras que dificultam a utilização dos serviços de atenção primária como geográficas, financeiras, organizacionais e também desigualdades sociais e étnico-raciais. Em relação aos serviços voltados à saúde reprodutiva, verificou-se que são insuficientes para suprir as demandas das mulheres quilombolas. Observa-se que, em relação a maternidade, as principais formas de saberes relacionados ao cuidado com os filhos foram transmitidas pelas avós e outras mulheres da comunidade. As práticas de preservação deste conhecimento são estabelecidas no cotidiano da comunidade a partir das relações e vivência entre as mulheres quilombolas de diferentes gerações.
No Brasil, a Atenção Primária é responsável por coordenar as ações de prevenção e promoção da saúde no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). O Programa Saúde da Família (PSF)1 é a principal estratégia de implementação da atenção primária no país, atendendo grande parte das comunidades quilombolas. O acesso e utilização dos serviços de saúde nas comunidades têm como obstáculos as diversas desigualdades que afetam diretamente o processo saúde e doença dessa população.2 As desigualdades se intensificam quando se trata das mulheres negras e quilombolas, uma vez que as desigualdades de gênero e étnico-raciais as expõem a inúmeras desvantagens na sociedade, a partir da dimensão da interseccionalidade entre o racismo, sexismo e as condições socioeconômicas. A utilização pelas mulheres quilombolas dos serviços de atenção primária à saúde, inclusive relacionados à saúde reprodutiva, perpassam desafios como acessibilidade geográfica e acesso limitado tanto a ações educativas em saúde como a medicamentos, consultas e exames. O contexto sociocultural influencia nos significados da maternidade para as mulheres quilombolas.
Caracterizar a utilização pelas mulheres quilombolas dos serviços de atenção primária à saúde, em particular, aos serviços voltados a saúde reprodutiva, e ainda apreender as percepções dessas mulheres sobre maternidade e cuidado.
Trata-se de estudo qualitativo realizado com moradoras da comunidade quilombola de Mesquita. A comunidade localiza-se na área rural do município de Cidade Ocidental, Goiás, e é composta atualmente por cerca de 700 famílias. Foram realizadas 27 entrevistas semiestruturadas com mulheres quilombolas, acima de 18 anos, moradoras da comunidade e que são atendidas na Unidade Básica de Saúde (UBS) da comunidade. O processo contou com registro de dados em diário de campo, gravação das entrevistas com autorização das participantes e entrega do Termo de Consentimento Livre Esclarecido. Para realizar a análise dos dados, transcreveu-se o material gravado, e foi realizada a sistematização dos resultados a partir da técnica de Análise Temática Dialógica3. A abordagem desta técnica associada com a leitura intensiva das transcrições e leitura de textos sobre atenção primária à saúde, quilombola e gênero, permitiu uma análise em profundidade dos significados e das relações entre as enunciações. Resultados e Discussão Acerca da utilização dos serviços de saúde, as mulheres quilombolas relacionam como fator positivo para utilização dos serviços ofertados pela UBS a proximidade para o deslocamento, e como fatores negativos a ausência de recursos como infraestrutura e recursos humanos, achado também de outras pesquisas.4 Desta forma, as mulheres relataram diversas barreiras que dificultam a utilização dos serviços de atenção primária como geográficas, financeiras, organizacionais e também sociais associadas às desigualdades sociais e étnico-raciais. A utilização dos serviços de saúde reprodutiva na comunidade é restrita devido às dificuldades na realização de exames, a falta de medicamentos de assistência ginecológica e a limitada capacidade de atendimento das ações preventivas e educativas. Verificou-se que o significado de ser mãe quilombola está atrelado às características das dádivas e complexidades da maternidade. As mulheres quilombolas destacaram que adquiriram o aprendizado sobre como cuidar dos filhos com suas mães e outras mulheres da família. O cuidado dos filhos está associado ao uso da medicina tradicional como prática comum passada de geração em geração nas famílias na comunidade.
Evidencia-se a existência de barreiras na utilização dos serviços de atenção primária pelas mulheres quilombolas. Essas barreiras expressam características dos serviços que, de modo inter-relacionado, dificultam a utilização e o acompanhamento contínuo das condições de saúde das mulheres na UBS e, ao mesmo tempo, impede a disponibilidade de serviços que promova vínculo da comunidade com os serviços e profissionais da atenção primária. Em relação à maternidade, percebe-se que existe uma continuidade das práticas e preservação de saberes quilombolas relacionados ao cuidado dos filhos e que são repassados por avós e outras mulheres da comunidade, sobretudo àqueles associados à sabedoria popular e uso de plantas medicinais. As limitações de utilização das ações de promoção e prevenção de saúde nas comunidades quilombolas estão relacionadas às desigualdades sociais e raciais existentes. Portanto, faz-se necessário que o Estado crie mecanismos que efetivem a equidade no SUS.
1. SOUSA, M.F. Programa de Saúde da Família no Brasil - análise da desigualdade no acesso à atenção básica. Revista Brasileira de Enfermagem, Brasília v.62, n.2,2008, p.153-158. Disponível em: http://www.scielo.br/pdf/reben/v6n2/a02v61n2 Acesso em: 29 setembro de 2020. 2. MENDES, E.V. O acesso à atenção primária à saúde. Conselho Nacional de Secretários de Saúde (CONASS), [S. l.], p. 1-10, ago. 2016. 3. SILVA, C. C.; BORGES, F.T. Análise Temática Dialógica como método de análise de dados verbais em pesquisas qualitativas. Linhas críticas (online),v. 23, p. 245-267, 2017. 4. PEREIRA, L. L.;SANTOS, L. M. P.; PEREIRA, H.. Projeto Mais Médicos para o Brasil: estudo de caso em Comunidades Quilombolas.. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) - ABPN, v. 7, p. 28-51, 2015.
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