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Durante a pandemia da COVID-19, a falta de EPI’s para os profissionais de saúde desarticulou políticas públicas e ações de gestores de saúde responsáveis pela contenção do problema (SUEN et. al, 2020). Práticas vinculadas ao desenvolvimento e produção de uma solução em saúde compatível à máscara modelo N-95 capitaneada pela Universidade de Brasília em parceria com o Governo Federal e a Iniciativa Privada, pautada pela ‘tríplice hélice’ (ETZKOWITZ, 2009), iniciaram-se durante a primeira curva de contágio. Essa pesquisa translacional (da ideia ao sistema de saúde) foi batizada - respirador VESTA - inovou com nanotecnologia e visa a retenção/desativação do vírus aumentando a segurança dos profissionais em saúde que desses EPI’s dependem. A hipótese e que a universidade consegue atender ao chamamento urgente para interferir – no menor tempo possível - nas curvas de contágio ocasionadas pela pandemia através de inovações. A metodologia ora utilizada foi pautada pela i. pesquisa qualitativa -observação participante e análise documental- e ii. estudo de caso no período de 60 dias. Os resultados indicam que a aplicação do método de pesquisa translacional em saúde e interdisciplinar na gênese do desenvolvimento e produção da tecnologia proposta articulou a capacidade de responsividade da universidade para atender emergências sociais e contribuir com a cadeia produtiva tecnológica.
A UnB, incentivada pela SMS de Goiânia, iniciou em março_2020 o desenvolvimento do respirador VESTA com nanofilme de quitosana (cascas de crustáceos). A iniciativa é privilegiado pela Pesquisa Translacional em Saúde (PTS) (GUIMARÃES, 2013), visa transladar a ideia até incorporação no SUS passando pelas etapas: i. composição conceitual; ii. comprovações éticas – pré-clínica e clínica; iii. transferência tecnológica; iv. comprovações sanitárias - registros e cadastros Anvisa/Inmetro; v. produção em escala industrial; e vi. submissão à Conitec para assimilação na cobertura do SUS. Após a concepção da ideia desencadeou-se uma sequência de atividades articuladas entre si envolvendo grupo de pesquisa interdisciplinar capitaneado pela Engenharia Biomédica. O conceito do produto foi finalizado concomitantemente à consolidação do Estudo Clínico Pragmático e prospecção de fornecedores e produtores das matérias primas essenciais à produção do respirador VESTA. O fenômeno translacional ocorre, quando ações comunicam-se entre si propiciando a retroalimentação entre as etapas interligadas com o foco em atender subsequêncialmente a linha do tempo vinculada à liberação do produto ao uso social.
Acompanhar a (s) iniciativa (s) de responsividade da UnB para atender emergência sanitária causada pela COVID-19 representada pelo desenvolvimento e produção do EPI respirador VESTA: i. identificar a (s) estratégia (s) utilizada (s) pelo grupo de pesquisa responsável pelo desenvolvimento da tecnologia em saúde; ii. observar as práticas dos participantes vinculados ao processo de desenvolvimento, produção e dispensa da tecnologia; iii. identificar os resultados alcançados no período proposto.
O design metodológico escolhido para a realização desse trabalho foi o da pesquisa qualitativa (POUPART et al, 2012) que propiciou ferramental necessário - observação participante e análise documental – para a aproximação dos fatos vinculados ao fenômeno estudado (poder de resposta da universidade às necessidades demandadas pela COVID-19). A pesquisa qualitativa está ancorada num conjunto de métodos e técnicas que permite compreender ou interpretar a realidade de forma mais profunda, revelando, assim, suas formas, expressões, sentidos ou significados (VICTORA, 2011). Utilizou-se do método estudo de caso (YIN, 2015) reforçando o desenho metodológico da pesquisa qualitativa na perspectiva da ciência social. A triangulação de técnicas (ZAPPELLINI e FEUERSCHÜTTE, 2015) divididas em observação participante, análise documental e interpretação dos fatos, estruturou a abordagem qualitativa em toda análise, para percepção in loco dos esforços coletivos para transformar a ideia em produto final. Resultados e Discussão Durante a primeira quinzena de março de 2020 grupo de pesquisa interdisciplinar vinculado à Engenharia Biomédica da UnB, provocado por uma proposta de encomenda, iniciou o processo de desenvolvimento e produção do respirador VESTA para auxiliar no achatamento das curvas de contágio da COVID-19. A articulação foi imediata à provocação e estruturada por coordenador geral e uma média de 100 pesquisadores vinculados ou não à UnB. Subgrupos foram montados, na perspectiva translacional, ou seja, pensando todas etapas que uma pesquisa científica/tecnológica necessita cumprir para que o desenvolvimento tenha características mercadológicas, onde os pesquisadores de várias áreas do conhecimento se agruparam inicialmente nos seguintes núcleos: i. produto; ii. Conep; iii. fomento; iv. nanotecnologia; v. comunicação; e vi. patente. Durante os primeiros 60 dias as etapas de composição conceitual do produto, comprovações fase pré-clínica e submissão do estudo clínico para apreciação do Conep foram executadas. Nesse intervalo, realizaram prospecções dos parceiros da iniciativa privada com competência em entregar o lote piloto para a realização da pesquisa clínica conforme preconizado pela ANVISA.
Constatou-se que a UnB instituição irradiadora de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) e tanto seu quadro institucional como seu método de parcerias derivadas em profissionais e laboratórios convergem-se para atender necessidades em saúde oriundas da sociedade. A rapidez pela qual o grupo de pesquisa interdisciplinar vinculado à Engenharia Biomédica respondeu ao chamado motivado pela urgência sanitária da Covid-19 faz percepção da importância da universidade em prover tecnologias em saúde dentro dos aspectos éticos e normativos. Identificou-se duas características metodológicas sobressaíram na arrancada desse grande esforço: i. processo de pesquisa interdisciplinar em ciência, tecnologia e inovação; e ii. pesquisa translacional em saúde. Percebe-se que o grupo interdisciplinar demonstrou conhecimento sobre as etapas fundamentais para que o desenvolvimento científico e tecnológico, doravante pesquisa, possa alçar o mercado, passos fundamentais para a cadeia produtiva tecnológica.
SUEN, L. K. P., et al. Comparing mask fit and usability of traditional and nanofibre N95 filtering facepiece respirators before and after nursing procedures. J. Hos. Infection, 104(3), 336–343. 2020. ETZKOWITZ, H. Hélice Tríplice: universidade-indústria-governo: inovação em ação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2009. GUIMARAES, R. Pesquisa Translacional: uma interpretação. Ciênc. saúde coletiva, RJ, v. 18, n. 6, p. 1731-1744, jun. 2013 . POUPART, Jean. A pesquisa qualitativa. Enfoques epistemológicos e metodológicos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012. ZAPPELLINI, MB, et al. O uso da triangulação na pesquisa científica brasileira em administração. Administração: Ensino e Pesquisa. RJ. V. 16, Nº 2, P. 241-273. VÍCTORA, CG. Uma ciência replicante: A ausência de uma discussão sobre o método, a ética e o discurso. Saúde e Sociedade, SP, v. 20, n. 1, p. 104–112, 2011. YIN, RK. Estudo de caso: planejamento e métodos. 5a ed. Porto Alegre: Bookman, 2015.
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