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Resumo

Resumo

O presente trabalho é resultado de um projeto de intervenção na escola realizado de forma colaborativa entre o Centro de Saúde Escola Samuel B. Pessoa/FMUSP com seus estudantes da área de saúde e a EMEI CEU Butantã com as professoras de educação infantil. Vinte familiares de crianças com excesso de peso e desnutrição foram convidados a participar de encontros reflexivos sobre hábitos alimentares, atividade física, cultura alimentar familiar, preferências e porquês nas compras de alimentos, compreensão dos rótulos e das listas de ingredientes. Ao final dos encontros foram colhidas narrativas de pais, estudantes, professoras de educação infantil e desenhos das crianças. Os encontros proporcionaram aos estudantes perceberem que muitas vezes possuem uma abordagem hermética e preconceituosa sobre o modo de alimentar-se das pessoas. Aos familiares compreenderem melhor que certos alimentos não são tão saudáveis quanto se propõem a ser. Às professoras ampliar seus conhecimentos sobre o tema e incorporar nossas atividades no Projeto Político Pedagógico da Escola. Concluímos que o trabalho interprofissional realizado neste projeto contribuiu para uma troca de saberes entre todos os envolvidos: famílias, crianças, estudantes da área da saúde e professoras de educação infantil. Estas trocas podem gerar uma cultura mais efetiva de prevenção à obesidade infantil.

Introdução

A obesidade infantil tornou-se na última década um problema de saúde pública. Por tratar-se de uma entidade de caráter multifatorial, projetos que busquem uma intervenção interdisciplinar e intersetorial podem criar novos caminhos para a prevenção deste problema. Muitos projetos de intervenção realizados nas escolas não almejam a integração de serviços. E apesar, de mostrarem efetividade em suas intervenções durante o período proposto, não permanecem na cultura escolar e portanto pecam por não ter continuidade. Integrar setores (saúde-educação) pode ser um caminho de longitudinalidade para a intervenção (1). Outro ponto a ser destacado é que metas quantitativas só serão alcançadas após intervenções qualitativas bem realizadas e aprofundadas. A literatura aponta muitas vezes como desfecho as variações de peso (1), porém esta meta só será atingida após mudanças comportamentais em relação aos hábitos alimentares e de atividade física. Buscar o entendimento reflexivo da origem de novos hábitos ou recuperar antigos e bons hábitos pode contribuir para desfechos mais significativos.

Objetivos

Os objetivos deste projeto são: 1. propor uma intervenção conjunta entre escola e Unidade Básica de Saúde buscando mudanças de hábitos alimentares e práticas corporais em crianças na fase pré-escolar e seus familiares; 2. Desenvolver a capacidade do estudante da área da saúde de percepção e avaliação da realidade social em que está inserido, aprimorando sua capacidade de colaborar com trabalho interprofissional para o enfrentamento de problemas de saúde coletiva.

Metodologia

A parceria entre a EMEI CEU Butantã e o Centro de Saúde Escola da FMUSP existe há três anos. Esta intervenção mais estruturada foi realizada no segundo semestre de 2019. É importante ressaltar que sem esse caminho de conhecimento mútuo não seria possível propor nenhuma intervenção. Houve a construção de um relacionamento de amizade e respeito pelo trabalho de ambas as partes. Inicialmente foi realizado um censo de avaliação do estado nutricional das crianças. Na sequência aplicamos questionários de avaliação de consumo alimentar e de atividade física em 20 famílias de crianças com má nutrição. Organizamos encontros com professores, famílias e crianças. Os encontros tiveram como objetivo principal gerar reflexão sobre a nossa memória alimentar, nossas compras e preferências, conhecimentos sobre rótulos e lista de ingredientes. Foram colhidas narrativas dos estudantes, das professoras e das famílias. As crianças realizaram desenhos. Reaplicamos os questionários iniciais em 4 famílias. Resultados e Discussão Censo de avaliação do estado nutricional das crianças: 73,1% de crianças eutróficas; 9,7% com Risco de Sobrepeso; 8,2% com Sobrepeso; 7,7% com Obesidade; 1,3% com Desnutrição. Na avaliação dos questionários de consumo de alimentos antes e depois dos encontros observamos que o percentual de consumo diário de alimentos das famílias é de: 50% de legumes/verduras; 85% de frutas; 95% de cereais/leguminosas; 65% leite; 35% carnes/ovos e 95% alimentos industrializados. As quatro famílias revisitadas revelaram um aumento do consumo de legumes e verduras, diminuição do uso de telas, manutenção do consumo de frutas e cereais/leguminosas e manutenção do consumo de alimentos industrializados. Os alunos conseguiram criar uma aproximação entre os participantes, facilitaram os encontros que aconteceram ao longo do projeto entre as diferentes famílias e, ao mesmo tempo, se perceberam “distantes” da realidade e da vida do outro, no início do projeto. Essa dificuldade inicial, no entanto, instigou o fazer juntos. Cuidaram para que fosse possível a aproximação entre todos. Nesse sentido, o projeto aproximou e integrou estudantes, educadores da rede pública de ensino e, sobretudo, crianças e famílias.

Conclusões / Considerações finais

Este projeto alcançou seus objetivos iniciais com relação à formação dos estudantes, ensino interprofissional e intersetorial. Permitiu uma ampliação de horizontes frente a um problema de saúde pública, agregando uma inteligência racional e afetiva sobre o tema e as pessoas envolvidas. Este projeto cumpriu seus objetivos em relação à escola, incrementou e incorporou novos projetos de alimentação ao Projeto Político Pedagógico da EMEI. A parceria com o Centro de Saúde Escola Samuel B. Pessoa/FMUSP dá suporte a um embasamento técnico científico que é reconhecido pela comunidade. Este projeto iniciou uma abordagem qualitativa frente aos hábitos de alimentação e atividade física com as famílias. A permanência deste projeto na vida da escola irá contribuir para o fortalecimento de uma cultura que gere modificações em hábitos alimentares e de atividade física e que possam interferir nas métricas da obesidade infantil local.

Referências

1. Consideration of the evidence on childhood obesity for the Commission on Ending Childhood Obesity: report of the ad hoc working group on science and evidence for ending childhood obesity, Geneva, Switzerland. 1.Obesity - prevention and control. 2.Child Welfare. 3.Exercise. 4.Food Habits. I.World Health Organization. 2016 ISBN 978 92 4 156533 2

Eixo Temático
  • 4.1. Política, Gestão e Atenção Primária à Saúde