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O objetivo central do trabalho foi compreender e evidenciar a relevância de um projeto social construído e viabilizado através da organização dos Trabalhadores Rurais que, durante os anos 80/90, buscaram o direito ao acesso à saúde gratuita através da compra de um hospital comunitário, que, no decorrer da história, se torna referência em atendimento SUS, no município de Aratiba, norte do Rio Grande do Sul. A realização deste trabalho foi teórica investigativa qualitativa, onde buscou-se compreender a relevância de um hospital comunitário, resultado da luta popular, para toda comunidade. A pesquisa foi realizada através da aplicação de 184 questionários, com a participação de 46 sujeitos, entre lideranças, conselheiros de saúde, gestores, profissionais da saúde e usuários. Assim, este trabalho contribui para a fomentação e socialização do conhecimento a partir da apresentação da experiência da Associação Comunitária Hospitalar de Aratiba (ACHA), que renova a força de luta e o desejo de que os cidadãos exerçam sua cidadania e organizem-se em busca de democracia. Entre os resultados, destaca-se a importância fundamental do trabalho coletivo, participação social ampla e interdisciplinar, a formação de lideranças e disponibilidade das pessoas que não mediram esforços para ver concretizado um sonho de um grupo de agricultores em criar um grande projeto que hoje é referência em saúde.
O protagonismo advindo da organização e luta dos trabalhadores rurais, enquanto movimento social em meados dos anos 80, no interior do Rio Grande do Sul, transforma a realidade do pequeno município de Aratiba, onde as pessoas tinham que vender seus bens para obter atendimento médico e hospitalar. A partir da organização social na busca de atendimento gratuito no sistema de saúde local e regional, houve a conquista de uma Instituição que, no decorrer da história, assume o compromisso de fazer a própria gestão e transforma o acesso à saúde de forma gratuita, sendo referência nos atendimentos do SUS. Dentro da conjuntura da época, o povo passou a acreditar que, quando organizado, poderia promover mudanças, tornando-se sujeito histórico fundamental na transição democrática, no exercício da democracia e garantia do acesso à saúde. Nesse contexto, os agricultores familiares de Aratiba perceberam que somente com organização, perseverança e luta seria possível conquistar os direitos e as melhorias, que até então eram negados à população em geral, sendo direito apenas de quem tinha carteira assinada. Para tanto, era importante e necessário três fatores: trabalhar, organizar e lutar.
Investigar de que forma a gestão participativa, bem como a luta do coletivo, contribuíram para a implementação e a manutenção do projeto de assistência à saúde pelo SUS, onde toda a comunidade pudesse ser atendida igualitariamente, no município de Aratiba. Cabe ainda salientar, como todo esse processo de reorganização da saúde, entendida pelos cidadãos como um direito, mostrou-se eficiente para a promoção e prevenção em saúde.
Trata-se de uma pesquisa descritiva de abordagem qualitativa. A amostra foi composta por Líderes dos Movimentos Sociais, da igreja, usuários, Profissionais de saúde e Gestores do Poder Público, gestores da Associação Comunitária Hospitalar de Aratiba, bem como Conselho de Saúde e Secretaria Estadual da Saúde. O material foi coletado através de entrevistas e leitura de material impresso como Atas das reuniões da ACHA , recortes de jornais, informativos de 1996 a Junho de 2019. A análise dos dados incluiu a pré-análise, a descrição analítica dos dados e a interpretação inferencial, conforme Bardin (1977), em que se apresenta a elaboração dos dados achados da pesquisa e as narrativas dos sujeitos da pesquisa, permitindo a reflexão sobre os conceitos teóricos elaborados anteriormente e as motivações que levaram a participação massiva do povo pela luta da saúde nos anos 80. Resultados e Discussão O trabalho mostra como a organização culminou com um marco extremamente importante, em dezembro de 1985, a compra do hospital comunitário, que vinha ao encontro da grande necessidade da população no município de Aratiba e região. A ACHA é um legado histórico de luta pela saúde, pois a realidade vivenciada antes da construção do hospital pelo povo era de privilégios para os que podiam ter acesso à saúde, posteriormente à fundação do hospital e do sistema de saúde organizado o povo aratibense passou a usufruir do direito à saúde, ao atendimento médico e hospitalar de forma gratuita.A maioria da comunidade apoiou o trabalho através da participação nas reuniões e assembleias, na organização de comissões e no apoio financeiro com promoções, campanhas, etc. O que se entende durantes as entrevistas é que o cenário caminhou positivamente, uma vez que os usuários falam bem do atendimento e voltam para casa com seu problema resolvido, e certamente vão referenciar esse hospital para outros municípios. Podemos observar que o trabalhador começa a exercer sua cidadania dentro de um processo coletivo, onde este cidadão é parte integrante de uma organização de saúde e protagonista deste projeto.
A construção de um cenário positivo na saúde se deu por meio de lideranças e pessoas que se disponibilizaram em tempo e dinheiro para arquitetarem uma gestão eficiente no município de Aratiba. A coragem dos fundadores, a disponibilidade e o comprometimento das lideranças sindicais, com a causas dos trabalhadores, sempre permeado pelo pensamento e ações em prol do bem comum do coletivo, nos remete a uma grande reflexão, de organização e interação entre as diversas classes trabalhadoras, na disponibilidade de lutar pelo bem comum. Por fim, a direção do hospital busca constantemente envolver a comunidade na gestão, além de exigirem permanentemente formação dos envolvidos. Em tempos difíceis que vivemos, revisitar a história de movimentos sociais que deram resultado positivo pode ser importante para nos ajudar a pensar e reformular nosso futuro.
ASSOCIAÇÃO COMUNITÁRIA HOSPITALAR DE ARATIBA. Livros de Atas, Estatuto e Plano de Trabalho. Aratiba, RS: [S.n.], 2017BRASIL. Conselho Nacional de Saúde- CNS. Resolução n° 466, de 12 de dezembro de 2012. Brasilia, DF, 2012.BRASIL. BARDIN, L. Análise de conteúdo (L. de A. Rego & A. Pinheiro, Trads.). Lisboa: Edições 70. (Obra original publicada em 1977) CALDERÓN, F. O.; JELIN, E. Classes Sociais e Movimentos Sociais na América Latina: Perspectivas e Realidades. Revista Brasileira de Ciências Sociais, [S.l.], v. 2, p. 67-85, 1987. MINAYO, M. C. S. (Org.). Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 12 ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1994. SEMINOTTI, J. J. A arte de politizar: o papel político da igreja católica no Alto Uruguai do RS (1974-1990). Erechim: Graffoluz, 2008. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. – 33. ed.- São Paulo: Saraiva, 2004.
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