SAÚDE E MIGRAÇÕES: DEMANDAS E PERSPECTIVAS NA FORMAÇÃO EM SAÚDE

Vol.1 - 2021 - 136580
Comunicação Oral
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Resumo

Resumo

Esse trabalho analisa o impacto dos recentes processos migratórios na saúde e sua relação com a formação em saúde. As relações entre mobilidade humana e os processos de saúde e adoecimento estão na ordem do dia dos debates internacionais. O objetivo deste trabalho é discutir o papel das políticas de saúde no Brasil e suas relações com o acolhimento de imigrantes, especialmente no que se refere ao entendimento das necessidades de investir em formação na área da saúde para que ela se adapte a essa realidade. O estudo foi realizado na região do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, tendo como sujeitos imigrantes majoritariamente haitianos que ali se estabeleceram entre 2012 e 2016. Os resultados apontam para a necessidade de desnaturalizar a doença associada ao corpo de imigrantes, ou seja, as representações das migrações como vetores de adoecimento, bem como de haver uma melhor preparação dos cursos na área da saúde para o acolhimento. Apresentam-se também as dificuldades de oferecer um serviço adequado aos novos imigrantes em um contexto de serviços de saúde precários para as populações locais. Esse debate deve ser seriamente considerado e incluído nas discussões para formação em saúde nas universidades.

Introdução

A mobilidade humana é complexa e multifacetada, incluindo desde deslocamentos voluntários até exílios forçados. Em alguns países, existem políticas de facilitação da circulação, enquanto em outros migrar é, se não impossível, uma tarefa altamente arriscada (GRANADA et al., 2017). Este trabalho apresenta as conjunturas e especificidades da região sul do Brasil. Trata-se de um esforço no sentido de abordar as relações entre migração e saúde, trazendo à tona as discussões sobre a importância da formação adequada de profissionais nas áreas de saúde, educação e assistência social, para que estejam aptos a acolher um contexto de intensa circulação de pessoas e suas demandas específicas. Portanto, o foco deste estudo é a compreensão do papel das políticas de saúde no Brasil com relação ao acolhimento de imigrantes, especialmente no que se refere ao entendimento das necessidades de investir em formação na área da saúde para que se adapte a essa realidade. A partir do caso da migração haitiana em cidades de médio porte do interior do Rio Grande do Sul, exploramos as relações com a formação em saúde e o papel de estudantes e professores no acolhimento desses imigrantes.

Objetivos

Discutir o papel das políticas de saúde no Brasil e suas relações com o acolhimento de imigrantes, especialmente no que se refere ao entendimento das necessidades de investir em formação na área da saúde, a partir dos princípios do Sistema Único de Saúde, para que ela se adapte a essa realidade da mobilidade humana.

Metodologia

Utilizou-se abordagem multimétodo, com entrevistas semiestruturadas com os gestores municipais e grupos focais com as Agentes Comunitárias de Saúde (ACS) de Unidades Básicas de Saúde (UBS) que contemplam a Estratégia de Saúde da Família (ESF) do município de Lajeado/RS, porque essa técnica demonstrou-se mais produtiva na obtenção de informações. Também realizamos observação participante acompanhando as ACS em domicílios de imigrantes. Empregamos igualmente o método etnográfico e a etnografia multisituada (MARCUS, 2002), frequentando locais de sociabilidade dos imigrantes, como festas (particularmente a festa do Dia da Bandeira no município de Encantado/RS), congregações e celebrações religiosas e atividades organizadas por associações, utilizando a ferramenta do diário de campo e visando a interlocução de promoção em saúde. Desta forma, buscou-se articular mecanismos de ação em favor ao diálogo e interação com práticas promotoras de saúde. Resultados e Discussão O Sistema Único de Saúde (SUS) não excluí os imigrantes de uma atenção adequada. Desse modo, analisou-se, o processo de acolhimento de imigrantes haitianos no Sul do país e sua relação com a formação em saúde. Esses imigrantes foram recrutados por empresas de produtos alimentícios, e do ramo da construção civil, com baixos salários, moradias insalubres, somada ao preconceito, discriminação, fracos laços sociais no local de acolhimento e dificuldade de domínio da língua portuguesa, demandaram atenção em saúde. Com a evidente presença dessa migração, o desafio foi sensibilizar os estudantes para essa realidade, através do contato com essa população em visitas domiciliares com profissionais da saúde e professores. Assim, a inserção em campo constitui-se em estratégia para a modificação curricular, aproximando-os da vida cotidiana das pessoas e propiciando, o desenvolvimento de um olhar crítico, reflexivo e humanizado. O processo de mudança na educação traz desafios, entre os quais romper com estruturas cristalizadas e modelos de ensino tradicional e, ainda, o de formar profissionais de saúde com competências que lhes permitam uma atuação interdisciplinar e integral.

Conclusões / Considerações finais

A estigmatização dos imigrantes passa por uma caracterização de seus corpos fora de seus lugares. (GRANADA; DETONI, 2017; 2018). Nesse contexto, a experiência localizada dos estudantes no Sul do Brasil, está em uma rede em que interagem atores diversos, e na qual precisa-se discutir com profundidade a equação sujeito/objeto do conhecimento e quais são os compromissos éticos diante de uma subjetividade cada vez mais marcada por uma referência que não separa a dimensão da atenção à saúde do econômico e do social. Reafirma-se a importância da inclusão nos currículos de temáticas voltadas para à mobilidade humana e suas múltiplas consequências, tanto nas sociedades de origem quanto nos países de destino, colocando em relevo o combate ao racismo e à xenofobia, bem como ressaltando a necessidade de que sejam reforçadas temáticas já abordadas nos currículos como humanização e respeito às diferenças em relação a gênero, sexualidade, cultura e etnia.

Referências

GRANADA, D; DETONI, P. Corpos fora do lugar: saúde e migrações no caso dos haitianos no sul do Brasil. Temáticas, Campinas, n. 49/50, p. 115-138, 2017. GRANADA, D; DETONI, P. Fluxos migratórios internacionais na América Latina. In: SILVEIRA, C. et al. Migração, refúgio e saúde. Santos,SP: Editora Universitária Leopoldianum, p. 97 - 112, 2018. GRANADA, D.; PINHEIRO, F. S. Migrações contemporâneas: relações de trabalho e direitos humanos no caso dos haitianos no sul do Brasil. In: MEJÍA, M. G.. (org.). Migrações e direitos humanos: problemática socioambiental. Lajeado: Ed. da Univates, 2018.p. 149-156. MARCUS, G. Au-delà de Malinowski et après Writing Culture: à propos du futur de l’anthropologie culturelle et du malaise de l’ethnographie. Ethnographiques.org, n. 1, 2002. Disponível em: http://www.ethnographiques.org/2002/Marcus.html.

Eixo Temático
  • 7. Política, Planejamento e Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde