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Com o decreto da pandemia pelo Covid-19 as atividades universitárias, como as de pesquisa, precisaram ser ajustadas ao novo contexto. Objetivou-se relatar as vivências e as interferências em um coletivo de pesquisadores do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde acerca da gestão do trabalho de uma pesquisa-ação-intervenção em tempos de pandemia. Fundamentada na Socioclínica institucional e desenvolvida com 25 articuladores da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde e apoiadores da Política Nacional de Humanização. Introduziu-se encontros virtuais e a escrita em diário coletivo. O referencial, pesquisa ação-intervenção, possibilitou compreender as interferências como uma potência na articulação “instituição pesquisa” e “instituição trabalho em saúde”. Os pesquisadores reorganizaram a metodologia dos encontros; o compartilhamento das experiências por plataformas digitais e espaço de escuta para acolhimento denominado “Plantão”. Essas mudanças possibilitaram acolher os enfrentamentos dos profissionais durante a pandemia na gestão do trabalho em saúde. Além disso, a possibilidade do referencial em usar estratégias de acolhimento dos profissionais que vivenciaram a intensidade e as problemáticas do sistema público de saúde, corroborou na abertura de possibilidades e exploração dos problemas enfrentados pelos profissionais na pandemia.
Em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia pela infecção pelo novo coronavírus, Sars-Cov-2, denominada de Covid-19, maior de todos os tempos(1). Com a propagação no Brasil as medidas de distanciamento social foram decretadas em muitas regiões com o fechamento parcial ou total das atividades para evitar a aglomeração de pessoas(2). Ao cumprir tais determinações vários setores tiveram que se ajustar às novas medidas e, em especial, as universidades em suas atividades de ensino, pesquisa e extensão(3), impedidas de serem realizadas presencialmente. As pesquisas adquiriram uma nova forma de fazer e aprender, para lidar com o desconhecido e as mudanças advindas deste contexto. A pesquisa-ação-intervenção, leva em consideração um ou mais problemas escolhidos por um coletivo, com objetivo de discutir intervenções para estes problemas, com e dentro de um coletivo, e que no período de pandemia, também precisou ser reinventada com as novas necessidades inseridas no contexto epidemiológico, social e político. Essas modificações, chamadas de interferências, foram sendo produzidas não apenas na própria pesquisa, mas no conjunto de pesquisadores e em suas implicações.
Relatar as vivências e as interferências em um coletivo de pesquisadores do Programa de Pesquisa para o Sistema Único de Saúde (PPSUS) acerca da gestão do trabalho de uma pesquisa-ação-intervenção em tempos de pandemia.
Trata-se de uma pesquisa-ação-intervenção (FAPESP/PPSUS 2019/03848-7) fundamentada na Socioclínica institucional(4), com 25 articuladores da Política Nacional de Educação Permanente em Saúde (EPS) e apoiadores da Política Nacional de Humanização (PNH), pertencentes aos municípios de um Departamento Regional de Saúde do interior paulista e 18 pesquisadores. A pesquisa iniciou em setembro/2019, desenvolvida por encontros presenciais em municípios da região. Além destes encontros de reflexão e produção de dados, foram realizados pelos pesquisadores os encontros de análise e de planejamento para a próxima etapa. A partir de abril/2020, devido a pandemia, introduziu-se encontros virtuais pelo Google Meet e a escrita em um diário coletivo pelo Classroom. Entre abril-agosto foram realizados 18 encontros virtuais, sendo 5 de produção dos dados e 13 de planejamento. Tais mudanças, como planejamento e uso de ferramentas virtuais, ocorreram devido preocupação em dar continuidade nas produções. Resultados e Discussão A condução da pesquisa produziu interferências e o referencial para o desenvolvimento da pesquisa ação-intervenção, possibilitou compreendê-las como uma potência e uma desaceleração na articulação “instituição pesquisa” e “instituição trabalho em saúde”, e rever às necessidades do coletivo participante. Os pesquisadores reorganizaram a metodologia dos encontros visto a não interação face-a-face; o compartilhamento das experiências entre todos por plataformas digitais e espaço de escuta para acolhimento denominado “Plantão” com turnos entre os pesquisadores, no intuito de acolher a ansiedade dos participantes a nova realidade e apoiar o conhecimento científico. À medida que há o conhecimento dos contextos, o objeto inicial de pesquisa passa a ser colocado em discussão numa nova reorganização dos coletivos. Intensificaram-se o número de encontros de análise e planejamento entre os pesquisadores. Essas mudanças possibilitaram acolher os enfrentamentos dos profissionais na pandemia e na gestão do trabalho em saúde e acolher o “não saber “ de todos.
O enfrentamento da pandemia do Covid-19, inferiu em modificações substanciais, intensificando problemas e potencialidades já apresentados nas práticas de trabalho. Assim, consideramos que o processo de reconstrução de dispositivos está sendo um desafio para os pesquisadores, no que diz respeito à continuidade da pesquisa. Contudo, acredita-se que o coletivo de pesquisadores conseguiu criar e mediar estratégias explorando de novas ferramentas e plataformas tecnológicas digitais para manter a produção da pesquisa. Além disso, a possibilidade do referencial em usar estratégias de acolhimento dos profissionais que vivenciaram a intensidade e as problemáticas do sistema público de saúde, corroborou na abertura de possibilidades e exploração dos problemas enfrentados pelos profissionais na pandemia.
1 Daumas RP, et al. O papel da atenção primária na rede de atenção à saúde no Brasil: limites e possibilidades no enfrentamento da COVID-19. Cad Saúde Pública. 2020;36(6):1-7. 2 Aquino EML, et al. Medidas de distanciamento social no controle da pandemia de COVID-19: potenciais impactos e desafios no Brasil. Ciência & Saúde Coletiva. 2020;25(1):2423-2446. 3 Costa R, et al. Ensino de enfermagem em tempos de covid-19: como se reinventar nesse contexto? Texto contexto-enferm. 2020, 29:e20200202. 4 Monceau, G. Socioclinic techniques for the institutional analysis of social practices. Psicol Rev. 2015;21(1): 197-217.
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