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O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência do desenvolvimento de um Projeto Terapêutico Singular para um casal de idosos em situação de extrema vulnerabilidade social atendidos por uma Unidade de Saúde da Família (USF) do interior da Bahia. O casal morava de aluguel nos fundos de uma residência bem precária, ambos eram etilistas de longa data, sem qualquer suporte familiar e a aposentadoria era desviada por terceiros. Nas questões de saúde, o senhor apresentava sinais de ascite e a senhora um quadro compatível com sobrecarga cardiorrespiratória, ambos apresentavam níveis pressóricos elevados. Foi construído um PTS da equipe juntamente com o Núcleo de Saúde da Família, que contou com três ações iniciais: contactar o Centro de Referência da Assistência Social e o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras drogas e agendar uma avaliação de saúde para o casal na USF. Por fim, é possível perceber o quanto que o espaço relacional do usuário com o trabalhador pode potencializar a produção de cuidado, pois no contato que se estabeleceu no caso apresentado foi possível explorar as potencialidades e restrições tanto dos profissionais envolvidos quanto dos idosos e, com isso, estabelecer a co-responsabilização entre esses atores a fim de propor intervenções que pudessem levar a autonomia daquela família e ajudá-los no seu processo de autocuidado.
Dentro da perspectiva do fazer em saúde, o trabalhador de saúde é produtor e também produto no processo de produção do cuidado, esse é permeado por inúmeros tensionamentos, modelos tecnoassistenciais diversos, e valores e demandas da sociedade e dos serviços nem sempre bem estabelecidos. A clínica ampliada compõe o escopo de ações priorizadas pela Política Nacional de Humanização e vai ao encontro da qualificação do modo de se fazer saúde. Nesse ponto, a Atenção Primária à Saúde (APS) desponta como lócus privilegiado para o desenvolvimento dessas ações, uma vez que as suas ações são baseadas em tecnologias de elevada complexidade e baixa densidade tecnológica e tem a Estratégia Saúde da Família (ESF) como prioritária para sua organização (MENDES, 2012). Algo que potencializa o cuidado em saúde no modelo de ESF é a organização das ações sob a lógica de uma equipe multiprofissional com o apoio de uma equipe de matriciamento. Assim, destacam algumas iniciativas fortalecidas por esse arranjo, como a construção de Projetos Terapêuticos Singulares (PTS), discussão de casos e estratégias de qualificação elaboradas pelas próprias equipes.
O presente trabalho tem como objetivo relatar a experiência do desenvolvimento de um Projeto Terapêutico Singular para um casal de idosos em situação de extrema vulnerabilidade social atendidos por uma Unidade de Saúde da Família (USF) do interior da Bahia.
Trata-se de um relato de experiência com reflexões acerca do papel do PTS na produção do cuidado na APS a partir da história de um casal de idosos atendidos em uma USF do interior baiano. O casal morava de aluguel nos fundos de uma residência bem precária, ambos eram etilistas de longa data. Por meio da visita domiciliar, foi possível perceber a ausência de suporte familiar e que o etilismo estava prejudicando a manutenção das atividades de vida diária, pois além de não sobrar dinheiro para arcar com as despesas, não estavam realizando atividades rotineiras, como alimentação adequada e higienização pessoal. Outro ponto abordado pelo casal, foi o desvio do dinheiro referente à aposentadoria, pois era retirado por terceiros e apenas uma pequena parte ficava com eles. Ao abordar as questões de saúde, foi percebido que o senhor apresentava sinais de ascite e a senhora um quadro compatível com sobrecarga cardiorrespiratória, ambos apresentavam níveis pressóricos elevados. Resultados e Discussão Foi construído um PTS da equipe juntamente com o Núcleo de Saúde da Família (NASF), que contou com três ações iniciais. Na primeira linha de intervenção, a equipe propôs um momento com o Centro de Referência da Assistência Social (CRAS), ao final desse encontro, foi elaborado um relatório que foi encaminhado ao Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) e ao Ministério Público. Esse último, convocou uma audiência, na qual ficou firmado o acordo para o CRAS alugar outro local de moradia para o casal e melhorar as condições físicas de residência. A segunda ação foi com o Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras drogas (CAPS ad), uma equipe visitou a residência dos idosos juntamente com a ACS, esses manifestaram desejo de cessar o alcoolismo e interesse em participar das ações propostas pelo CAPS. No entanto, eles só compareceram nas atividades que o CRAS conseguiu levar, devido à falta de rede de suporte social. No que tange ao terceiro ponto abordado no PTS, eles passaram por avaliação médica, mas realizaram apenas os exames que são coletados na unidade, por não ter ninguém para levar e o CRAS também não conseguiu ajudar por falta de transporte.
O trabalho em equipe foi fundamental para o alcance de melhores condições de vida para o casal de idosos, pois foi possível realizar uma construção coletiva, onde os diferentes conhecimentos foram se somando afim de conformar a proposta de cuidado àquela família. Além disso, reforça o compromisso ético-político que é indispensável no trabalho em saúde, onde se constrói e reconstrói a medida em que o usuário e o profissional se encontram num espaço de produção de cuidado (MERHY, 2002). Por fim, é possível perceber o quanto que o espaço relacional do usuário com o trabalhador pode potencializar a produção de cuidado, pois no contato que se estabeleceu no caso apresentado foi possível explorar as potencialidades e restrições tanto dos profissionais envolvidos quanto dos idosos e, com isso, estabelecer a co-responsabilização entre esses atores a fim de propor intervenções que pudessem levar a autonomia daquela família e ajudá-los no seu processo de autocuidado (MERHY, 2002).
Mendes, EV. O cuidado das condições crônicas na atenção primária à saúde: o imperativo da consolidação da estratégia da saúde da família. Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2012. 512 p. MERHY, E.E. Saúde: a cartografia do trabalho vivo. 3a Ed. São Paulo: Editora Hucitec; 2002. (Saúde em Debate, 145).
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