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O sucesso da implantação do Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) depende de múltiplos fatores. O objetivo deste estudo foi avaliar a percepção sobre o uso do Sistema de Registro de Cuidados físico (SRCf) e as expectativas da implantação do PEC. Trata-se de um survey realizado em dez Unidades de Saúde da Família (USF), utilizando questionários auto aplicados, elaborados a partir de um modelo lógico com três categorias: condicionantes de implantação, efeitos sobre o processo de trabalho e efeitos sobre a qualidade do registro e o uso da informação. Participaram 42 ACS (Agentes Comunitários de Saúde), 34 PNU (Profissionais de Nível Universitário) e 9 AA (Auxiliares Administrativos). Os ACS tinham mais idade, mais anos de trabalho, menor escolaridade e menos tempo de contato com a tecnologia digital em comparação com os PNU e AA. Embora os ACS sintam-se mais adaptados ao sistema atual, todos as categorias profissionais estão pouco satisfeitas com o SRCf e apontam deficiências relativas a legibilidade, completude, uso, compartilhamento e comunicação das informações. Todos os participantes esperam participar no processo de implantação do PEC contando com o apoio das lideranças. Reconhecem, contudo, que a implantação não estará livre de dificuldades e exigirá forte participação das lideranças principalmente no apoio aos ACS, para garantir melhor adaptação sem afetar seu desempenho.
O PEC é uma solução desenvolvida pelo Ministério da Saúde que visa otimizar o fluxo de atendimento e apoiar a coordenação do cuidado.1 O PEC traz uma grande mudança na forma da prestação de cuidados de saúde, afetando instituições, profissionais, usuários e gestores. Por um lado, a implantação do PEC é um processo que não está livre de desafios2,3, pesquisas apontam para a existência de fatores condicionantes do processo de implantação, como a percepção do SRCf, as relações de trabalho, o contexto normativo, as expectativas sobre a tecnologia, entre outros2,3. Por outro lado, estudos sociológicos identificam fatores que podem favorecer o processo de incorporação das TICs (Tecnologias da Informação e Comunicação), como factibilidade da interação; integração relacional; habilidades requeridas ou integração contextual4–6. Tudo isso revela a complexidade do processo e a necessidade de ampliar os estudos em contextos específicos. Este processo tem ganhado importância diante da pandemia do novo Coronavírus (SARS-CoV-2), dado que pode ser uma estratégia para assegurar a continuidade e a integralidade do cuidado, sem aumentar os riscos de transmissão da COVID-19.
Objetivo principal Avaliar a percepção sobre o uso do Sistema de Registro de Cuidados físico e as expectativas acerca da implantação do PEC no âmbito da APS Objetivos secundários • Analisar as percepções sobre o SRC físico e seus efeitos no processo de trabalho • Analisar a percepção sobre a qualidade do registro e o uso da informação por meio do SRC físico • Analisar as expectativas sobre o processo de implantação e uso do PEC • Identificar condicionantes do processo de implantação do PEC
Trata-se de um estudo transversal descritivo, realizado entre dezembro 2019 e janeiro 2020, em dez Equipes de Saúde da Família da rede municipal de Dias D’Ávila-Bahia, que utilizam um SRC físico. Foram incluídos Agentes Comunitários de Saúde (ACS), Auxiliares Administrativos (AA), e profissionais de nível universitário da atenção primária (PNU): Cirurgiões Dentistas, Enfermeiros e Médicos, que voluntariamente aceitaram participar. Foram auto aplicados questionários semiestruturados, específicos para cada grupo de participantes, com aproximadamente 40 questões, sendo a maioria em formato de escala Likert de zero a dez pontos. As questões basearam-se em um modelo lógico estruturado em três categorias: processo de trabalho, qualidade do registro e uso da informação e comunicação; e condicionantes de implantação. Esta pesquisa foi avaliada por Comitê de Ética em Pesquisa e aprovado sob parecer nº 22875519.2.0000.5030. Resultados e Discussão Em média, os ACS (n=42) são mais velhos e têm maior tempo de trabalho nas USF comparados aos PNU (n=34) e AA (n=9). Para os PNU, as relações de trabalho apresentam maior grau de cooperação, enquanto os ACS percebem maior grau de relações competitivas. Os ACS avaliam que estão adaptados ao uso do SRCf em maior grau do que os PNU e AA. Os PNU apontam maiores deficiências que ACS e AA na consulta dos registros de outros profissionais, no compartilhamento e na produção das informações para a gestão com o SRCf. Todos consideram excessivo o tempo gasto com o preenchimento do SRCf e, em geral, estão pouco satisfeitos com a legibilidade, incompletude, registro deficiente, formulários com dados não contemplados, intolerância aos erros, pouca privacidade, grande dificuldade para acesso e falta de compartilhamento das informações com outras unidades da rede. Quanto às expectativas acerca do PEC, os ACS avaliam ter menor facilidade para uso de TIC comparados com os PNU e AA. Para todos, o PEC é uma tecnologia nova, cuja implantação não estará livre de resistência, mesmo entre aqueles que esperam ter uma importante participação no processo e contar com o apoio das lideranças.
Os achados deste estudo corroboram as expectativas de que a implantação não estará livre de barreiras e exigirá forte apoio das lideranças e participação ativa dos trabalhadores dado que o processo afetará a rotina de trabalho ao qual já estão adaptados. É provável que caraterísticas dos ACS como ser mais velhos, ter maior tempo de trabalho, menor escolaridade e menor contato com a tecnologia digital, dificultem seu processo de adaptação e exijam maior acompanhamento e um treinamento diferenciado para garantir a melhor adaptação sem afetar seu desempenho. A pouca satisfação com o SRCf pode favorecer a aceitação do PEC, mas é possível que persistam dificuldades relativas à organização do fluxo e à existência de relações competitivas entre trabalhadores ou dos trabalhadores com gestores, que irão demandar uma reorganização dos papeis para facilitar a adaptação ao PEC.
1. Brasil, Ministerio da Saúde, Secretaria de Atenção Primária à Saúde. O que é Prontuário Eletrônico do Cidadão? http://aps.saude.gov.br/noticia/2300. Published 2017. Accessed September 29, 2020. 2. Lima VS, Lima VS, Ivan D, Pisa T. Prontuário eletrônico do cidadão : desafios e superações no processo de informatização. 2018:100-113. 3. Kruse CS, Stein A, Thomas H, Kaur H. The use of Electronic Health Records to Support Population Health: A Systematic Review of the Literature. J Med Syst. 2018;42(11). 4. May C, Mort M, Williams T, Mair F, Gask L. Health technology assessment in its local contexts: Studies of telehealthcare. Soc Sci Med. 2003;57(4):697-710. 5. May C. A rational model for assessing and evaluating complex interventions in health care. BMC Health Serv Res. 2006;6:1-11. 6. Murray E, May C, Mair F. Development and formative evaluation of the e-Health Implementation Toolkit (e-HIT). BMC Med Inform Decis Mak. 2010;10(1):61.
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