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Este trabalho trata da experiência do trabalhador da saúde na atenção hospitalar. O objetivo é compreender a atuação do trabalhador da saúde de forma subjetiva no ambiente hospitalar durante a pandemia. Os dados foram coletados nos meses de março, abril e maio de 2020, por meio da observação e escuta via ligação telefônica dos sujeitos adoecidos residentes fora do município de Santarém-PA. Realizaram-se os registros no diário de campo de um pesquisador-trabalhador da saúde em ambiente hospitalar. A análise dos dados considerou as sensações, os sentimentos e pensamentos provocados pelo campo durante o trabalho cotidiano, relacionando a questão técnico-científica e militância sociopolítica. Os resultados apontam para a sobrecarga de trabalho, falta de recursos e equipes reduzidas em um contexto que põe em risco a saúde destes profissionais, gerando sentimentos de medo, insegurança, estresse físico e emocional, frustração com o afastamento de profissionais da saúde que optaram por não trabalhar durante a pandemia, tristeza pela barreiras na contrarreferenciação, pelo registro não confirmado da Covid-19, angústia com a redução dos serviços de oncologia e nefrologia e falta de rotatividade de leitos. Considera-se que o serviço de saúde na pandemia impõe debates e reflexões sobre ética, solidariedade e equidade. Palavras-chave: Trabalhador da saúde. Serviço público. Saúde. Pandemia.
O surto de SARS-CoV-2 que deu origem ao coronavírus 2019 (COVID-19) (SABOGA-NUNES et al., 2020) alterou a rotina hospitalar e o trabalho dos os profissionais de saúde. Foi o que ocorreu no Hospital Regional do Baixo Amazonas do Pará (HRBA) em Santarém-PA, que antes da pandemia enfrentava desafios com a grande demanda de pacientes que necessitavam de tratamento especializado. Durante a pandemia essa situação se agravou pela questão técnico-científica ou pela militância sociopolítica (PAIM; TEIXEIRA, 2006). Muitos pacientes oncológicos e renais de outros municípios, ao serem informados da suspensão do tratamento por conta da pandemia, demonstraram impaciência e desesperança, como relatou um paciente, “se eu não morrer da Covid, morrerei de câncer, se vocês não realizarem meu agendamento”. Casetto (2013) admite que esse tipo de reação afeta os sentimentos, sensações, pensamentos e amplia a capacidade de escuta no processo saúde-doença-cuidado. Isso justifica o estudo e pode contribuir para compreensão do papel do trabalhador da saúde que atua na linha de frente no ambiente hospitalar, onde a solidariedade pode fazer a diferença para o usuário do serviço público de saúde
O objetivo desse relato de experiência é compreender de forma subjetiva a atuação do trabalhador da saúde durante a pandemia, a partir dos sentimentos, sensações, e dificuldades encontradas na gestão do trabalho hospitalar. Tratar e observar esses aspectos subjetivos do trabalhador de saúde são importantes porque revelam a sobrecarga do trabalho e a reação do trabalhador de saúde diante dos acontecimentos do ambiente hospitalar.
A cidade de Santarém, recorte desse estudo, é o polo de atendimento de serviço de saúde por meio do HRBA, que atende população estimada em 1,3 milhão de pessoas de 28 municípios da região do oeste do Pará (PRÓ-SAÚDE, 2020), distribuídas nas cidades de Alenquer, Almeirim, Belterra, Curuá, Faro, Juruti, Mojuí dos Campos, Monte Alegre, Óbidos, Oriximiná, Placas, Prainha, Rurópolis, Uruará, Novo Progresso, Trairão, Itaituba, Aveiro e Santarém, entre outras. Os dados foram coletados nos meses de março, abril e maio de 2020, a partir dos registros do diário de campo do pesquisador trabalhador da saúde. Diariamente os dados foram registrados após cada expediente. Segundo Casetto (2013, p. 288), esse tipo de experiência “é importante para registrar as sensações, sentimentos e pensamentos provocados no campo”, qualificados como notas intensivas individuais. A análise considerou a capacidade de escuta e a percepção no processo saúde-doença-cuidado registrados no diário do trabalhador da saúde. Resultados e Discussão As experiências vividas no HRBA durante a pandemia fortalecem o pensamento de que “é preciso atentar aos aspectos do campo, para melhor perceber o outro, é preciso perceber-se a si mesmo na situação” (CASETTO, 2013, p. 288), a partir de sentimentos (tristeza, alegria, raiva, entre outros); sensações (de acertos, de erros, entre outros); dificuldades encontradas (éticas, técnicas, de relação) e hipóteses. Os dados revelaram que o trabalhador da saúde atuou como profissional, conciliando as determinações da gestão política local (PAIM; TEIXEIRA, 2006). Conforme Casetto (2013), o sentimento foi de medo pelo risco de contaminação, impotência por não agendar tratamento dos pacientes pela falta de profissional ou leito, decepção com ausência de alguns profissionais da saúde, frustração com barreiras na contrarreferenciação de pacientes estáveis para o hospital de campanha, tristeza com a redução dos serviços e diminuta rotatividade de leitos, limitando a entrada de novos pacientes. Diante no cenário, declarou o trabalhador: “Não estamos todos no mesmo barco. Quando muito, estamos todos no mesmo mar, uns em iates e outros agarrados a um tronco”, expressando o sentimento de dever cumprido.
O trabalhador da saúde viveu experiências marcantes no HRBA durante a pandemia. Seus sentimentos foram impactados e fortalecidos pelo pensamento de que “é preciso estar atento aos aspectos do campo, pois, para melhor perceber o outro, é preciso perceber-se a si mesmo na situação” (CASETTO, 2013, p. 288). Tal assertiva nunca foi tão necessária. O cenário de pandemia mostrou o quão importantes são a solidariedade e o processo de escuta diferenciada ou sensível no ambiente do HRBA, em razão das novas regras, normas e rotinas impostas durante a pandemia. Escutar o paciente foi uma importante ferramenta que criou segurança para o doente, formou vínculos e diminuiu as ansiedades. A experiência revelou a importância da ética, solidariedade e equidade no serviço público como pauta de debate para os gestores públicos, questão que pode fortalecer a equidade no ambiente hospitalar.
CASETTO, S. J. A narrativa da clínica comum. In: CAPOZZOLO, A. A.; CASETTO, S. J., HENZ, A. O. (Org.). Clínica comum: itinerários de uma formação em saúde. São Paulo: Hucitec, 2013. PAIM, J. S.; TEIXEIRA, C. F. Política, planejamento e gestão em saúde: balanço do estado da arte. Rev. Saúde Pública, v. 40, p. 73-78, 2006. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S0034-89102006000400011. Acesso em: 27 jun. 2020. PRÓ-SAÚDE. Hospital Regional do Baixo Amazonas. Atendimentos do HRBA em 2019. Disponível em: https://www.prosaude.org.br/noticias. Acesso em: 24 jul. 2020. SABOGA-NUNES, L.; LEVIN-ZAMIR, D.; BITTLINGMAYER, U.; PINHEIRO, P.; CONTU, P.; IVASSENKO, V.; ORKAN O.; COMEAU, L.; BARRY, M.; BROUCKE, S. V. den; JORDAN, D. O Foco da Promoção da Saúde na COVID-19. Tradução Maria R. Saboga-Nunes. [S. l.]: EUPHA-HP; IUHPE; UNESCO Chair Global Health & Education, 2020. Disponível em: https://www.abrasco.org.br/. Acesso em: 27 jun. 2020.
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