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Introdução: O Kanban é um arranjo tecnológico de gestão do cuidado e de leitos, que visa à qualidade e integralidade da assistência, maior rotatividade de leitos, redução do tempo de internação e de custos hospitalares. Seu elemento mais marcante e inovador é o acompanhamento do paciente compartilhado por equipe multiprofissional. Objetivo: Caracterizar impactos de tal arranjo no poder profissional de médicos. Métodos: Estudo qualitativo em hospital municipal de emergências com uso das seguintes técnicas: etnografia do cotidiano dos serviços, com observação e registro em diários de campo, e realização de seminários entre pesquisadores e equipes. Resultados: Os médicos valorizam o trabalho multiprofissional como qualificador de sua prática, em linha auxiliar e complementar. O Kanban tende a ser controlado por médicos “híbridos” (com funções gerenciais e clínicas) em sinergia entre “gestão clínica” e “gestão de leitos”. Interferências no trabalho dos médicos não são exercidas de fora e suas decisões clínicas continuam a condicionar o trabalho dos demais profissionais. Conclusões: Os médicos não percebem ameaças a sua autoridade e autonomia pelo Kanban, dada a articulação entre as autoridades administrativa e profissional. Aspectos relacionados ao poder profissional em saúde, à hibridização e estratificação interna da profissão médica precisam ser mais estudados e debatidos.
Serviços hospitalares de emergência geralmente enfrentam demanda excessiva e insatisfação dos usuários. Intervenções nesses serviços foram experimentadas em vários países. Algumas tecnologias são destinadas à gestão de leitos; outras à gestão da clínica. No Brasil, a gestão do SUS vinha estimulando intervenções, com indução para uso e disseminação concomitante de dispositivos e arranjos da PNAH. O Kanban é um arranjo tecnológico de gestão de leitos, que permite qualificar a coordenação do cuidado, a clínica e o uso do leito. Na atenção hospitalar, seu uso pressupõe que profissionais de saúde sob a liderança de um deles avaliem projetos terapêuticos em curso. Ao conformar o trabalho em equipe multiprofissional, o Kanban possibilita ampliar a responsabilidade dos sujeitos implicados no cuidado e produzir respostas operacionais. E, ao definir expectativa de alta e projeto terapêutico para o usuário, o Kanban pode identificar necessidades de intervenções em outros arranjos tecnológicos de gestão do cuidado. Dada a relevância assumida pelo Kanban nos serviços de emergência hospitalares no SUS, é importante analisar suas implicações nas relações de poder profissional.
Considerando que o Kanban parece desafiar a autoridade profissional dos médicos, sua autonomia, ao alterar modelos de organização do trabalho, fluxos de informação e divisão social do trabalho, via autoridade administrativa, eo artigo busca compreender impactos do Kanban no trabalho dos médicos, em especial, sobre o controle de suas decisões e relações com outros profissionais e pacientes: há impactos na autoridade profissional dos médicos e no grau de autonomia com que exercem seu trabalho?
A pesquisa matriz, que sustenta este estudo, teve caráter qualitativo, tipo estudo de caso, em hospital de emergências de município da região do ABC, em São Paulo. O Kanban foi eleito para as reflexões neste artigo por ser um arranjo multiprofissional, no qual o médico deveria compartilhar componentes de seu trabalho, com outros profissionais. Estratégias adotadas buscaram uma aproximação micropolítica aos processos de gestão e de produção de cuidado. O principal método utilizado foi a etnografia, com observação intensiva do Kanban. Diários de campo foram elaborados após cada ida ao hospital; as visitas ocorreram em distintos dias e horários da semana, durante 10 meses, somando 50 observações. Esse material foi analisado pelo coletivo de pesquisadores, em seminários quinzenais. Cinco seminários compartilhados foram realizados entre pesquisadores, profissionais e gestores do hospital para discussão de resultados parciais. A pesquisa foi aprovada pelo CEP da Unifesp (CEP/ Unifesp n 0418/2017). Resultados e Discussão No hospital estudado, percebe-se clara diferenciação entre a gestão clínica no espaço mais micropolítico do cuidado e a gestão do leito, que envolve uma dimensão mais sistêmica, regulatória, mais “macro”, e que implicaria nova forma de autoridade, que é a autoridade administrativa, ligada diretamente à direção do hospital. A imlantação do Kanban contribuiu para potencializar tanto a gestão da clínica, quanto a gestão dos leitos e os médicos ocupando posição estratégica em ambas. As autoridades médica e administrativa se potencializam, o que poderia caracterizar esses profissionais como “híbridos”, embora reconheçam que cada uma tem lógica própria. Em relação à possibilidade desse arranjo produzir algum abalo sobre o poder médico, houve ambiguidade nas manifestações dos profissionais da equipe, ora argumentando que a equipe tinha muito mais poder de participar e influenciar a decisão clínica, ora indicando que nada havia mudado e que o médico seguia monopolizando a decisão clínica. Os médicos avaliam positivamente esse arranjo e apresentam uma postura de adesão, não sendo identificada resistência no corpo clínico, dando a impressão de não sentirem sua autoridade ameaçada.
Evidenciou-se clara adesão dos médicos ao arranjo estudado, respaldada pelo poder discricionário que lhes garante o monopólio de prescrições farmacológicas e da emissão de atestados de óbito. Os médicos não reconhecem como problema, ou não se queixam do que poderia ser uma perda de sua autoridade profissional. Pelo contrário, valorizam o trabalho multiprofissional como importante qualificador de sua prática, em linha auxiliar e complementar, não lhes parecendo ameaçar sua autonomia profissional. O fato do NIR ser coordenado por médico leva as interferências em decisões clínicas a não serem percebidas como quebra da autoridade da medicina. Seria mais reflexo da reestratificação interna à profissão médica que, na literatura internacional, vem sendo atribuída à incorporação de abordagens gerencialistas pelas organizações de saúde. Seria, também, demonstrativa da hibridização da profissão médica, dado que órgãos de regulação de processos administrativos e clínicos são ocupados por médicos.
1. Beltrammi DGM, Camargo VM. Práticas e saberes no hospital contemporâneo. São Paulo: Hucitec; 2017. 2. Carapinheiro G. Saberes e poderes no hospital. Uma sociologia dos serviços hospitalares. 4ª ed. Porto: Afrontamento; 2005. 3. Cecílio LCO. A micropolítica do hospital: um itinerário ético-político de intervenções e estudo [Tese de Livre-Docência]. São Paulo: Unifesp; 2007. 4. Correia T, Denis JL. Hybrid management, organizational configuration, and medical professionalism: evidence from the establishment of a clinical directorate in Portugal. BMC Health Serv Res 2016; 16:78-109. 5. Crane J, Noon C. The definitive guide to emergency department operational improvement. Boca Raton: CRC Press; 2011. 6. Ministério da Saúde. Portaria nº 3.390, de 30 de dezembro de 2013. Institui a Política Nacional de Atenção Hospitalar. DOU 2013; 31 dez. 7. Weber M. Economia e sociedade: fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília: UnB; 1991.
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