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O artigo discute os resultados obtidos na fase de pré-implementação de uma pesquisa de implementação do Núcleo de Assistência Psicanalítica para pessoas Expostas à Violência (NAPEV). Nessa fase foram realizados 16 grupos focais hermenêuticos, contando com 60 participantes: mulheres, crianças, adolescentes, pré-adolescentes, lideranças comunitárias e trabalhadores de nível médio e superior que participaram, o que contribuiu para compreensão aprofundada sobre a exposição à violência experimentada. Os grupos focais hermenêuticos consolidaram a construção participativa e ascendente do processo de implementação, à medida em que incluíram importantes grupos de interesse no processo decisório das principais diretrizes que nortearão o NAPEV. Permitiram também a aproximação a experiências de exposição à violência de forte impacto emocional e social.
As pesquisas de implementação (PI) são estratégicas para transformar redes de saúde, permitindo o estudo de entraves institucionais, como lacunas entre o que é oferecido pelos serviços e o que é experimentado pelos usuários no cotidiano¹. Na Saúde Coletiva, a área de Política, Planejamento e Gestão, tem investido em metodologias participativas de pesquisa, lançando mão da produção de consenso, validação do material de pesquisa e construção de narrativas a partir da experiência dos principais grupos de interesse envolvidos, dentre eles usuários e trabalhadores da rede de saúde pública². Nas PI a inclusão de diversos grupos de interesse no processo decisório é salientada, com o intuito de aumentar as chances de sustentabilidade das mudanças propostas¹. Apresentam-se aqui os resultados da fase de pré-implementação do NAPEV, serviço dirigido a crianças, adolescentes e adultos da cidade de Campinas-SP. Trata-se de uma PI, resultante da parceria entre o Laboratório de Saúde Coletiva e Saúde Mental – Interfaces, o Hospital Universitário da Universidade Estadual de Campinas e as redes de Assistência Social e da Saúde do Município de Campinas, com financiamento do CNPq.
Apresentar e discutir os resultados da fase de pré-implementação do NAPEV sobre as experiências de exposição à violência de crianças, jovens, mulheres e trabalhadores da saúde e da assistência social da região Norte de Campinas, evidenciando a relevância das metodologias participativas nas Pesquisas de Implementação.
Para conhecer as experiências de exposição à violência e o que seria desejável (acceptability) para o tratamento dessa população foram planejados 16 grupos focais com stakeholders da área de abrangência. Um Comitê Gestor da Pesquisa³ constituído por pesquisadores, trabalhadores e gestores da assistência social e da saúde contribuiu na construção participativa dos critérios de inclusão, de seleção, e no recrutamento dos participantes dos grupos focais. Os 16 grupos focais hermenêuticos incluíram diferentes grupos de interesse ⁴,⁵ e contaram com 60 participantes dentre os quais: mulheres, crianças, pré-adolescentes, adolescentes, líderes comunitários, trabalhadores de nível médio e superior. Os grupos foram áudio gravados, transcritos integralmente e, posteriormente, se construíram narrativas apresentadas aos participantes para validação e aprofundamento⁵. Analisaram-se os núcleos argumentais das narrativas, os quais foram comparados entre os diferentes grupos de interesse². Resultados e Discussão Jovens e crianças mostraram ambiguidade nas situações de violência vivenciadas, trazendo a tona a experiência da violência como forma de cuidado. Apontaram amigos, vizinhos e profissionais da escola como figuras de apoio, enquanto alguns referiram não poder contar com familiares. As mulheres relataram exposição à violência doméstica e de gênero. Demonstraram dificuldades em associar sentimentos ao vivido, o que pode gerar efeitos psicossomáticos⁶. Os trabalhadores também se disseram expostos a situações inerentes a vulnerabilidade e a violência do território e a violência relacionada à hierarquização do processo de trabalho, excessiva demanda e falta de estrutura dos serviços. Destacaram que identificar as situações de violência nem sempre é suficiente para promover o cuidado e que há necessidade de maior articulação das redes intersetoriais⁶. As lideranças comunitárias apontaram a organização da comunidade e a participação social como importantes estratégias para diminuir a exposição à violência. Esperam do NAPEV: oferta de apoio, confiança, escuta e compartilhamento de experiências; fortalecimento dos vínculos familiares; capacitação de trabalhadores e da comunidade.
As narrativas dos grupos focais hermenêuticos²,5 possibilitaram a compreensão do conceito de violência, das vivências e das estratégias necessárias para enfrentá-la, na perspectiva dos potenciais beneficiados pela implementação do NAPEV. A metodologia participativa, envolvendo os grupos de interesse que utilizarão o serviço, permitiu destacar a necessidade da integração das redes de cuidado para garantir a efetividade e o sucesso da implementação, aspectos não previstos no desenho inicial do NAPEV, o que ressalta a característica de flexibilidade e abertura ao contexto necessários neste tipo de investigação. Segundo Proctor¹, a integração de diferentes competências é fundamental para compreender a dinâmica de um processo complexo como é a implementação de serviços e políticas públicas. Equipes de pesquisa com bom background em estudos participativos possuem bom potencial para o desenvolvimento de Pesquisas de Implementação, campo recente e em expansão na Saúde Coletiva.
1. Proctor E, Silmere H, Raghavan R, et al. Outcomes for implementation research: conceptual distinctions, measurement challenges, and research agenda. Adm Policy Ment Health. 2011; 38(2):65-76. 2. Campos RO. Fale com eles! O trabalho interpretativo e a produção de consenso na pesquisa qualitativa em saúde: inovações a partir de desenhos participativos. Physis. 2011; 21(4):1269-1286. 3. Treichel CAS, Silva MC, Presotto RF, et al. Comitê Gestor da Pesquisa como dispositivo estratégico para uma pesquisa de implementação em saúde mental. Saúde debate. 2019;43:35-47. 4. Guba E, Lincoln Y. Fourth generation evaluation. Newbury Park: Sage Publications, 1989. 5. Onocko Campos RT, Furtado JP. Narrativas: utilização na pesquisa qualitativa em saúde. Rev. Saúde Pública. 2008;42(6):1090-1096. 6. Lima GQ, Werlang BSG. Mulheres que sofrem violência doméstica: contribuições da psicanálise. Psicologia em Estudo, 2011. 16(4),511-520.
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