GESTÃO E SAÚDE DO TRABALHADOR: PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DO SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE

Vol.1 - 2021 - 136457
Comunicação Oral
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Resumo

Resumo

O trabalho em saúde quando realizado em ambientes e condições inadequadas pode causar prejuízos à saúde dos trabalhadores. No entanto, observa-se que nos serviços de saúde as ações voltadas à promoção da saúde do trabalhador muitas vezes não são priorizadas pela gestão desses serviços. O presente estudo analisou a percepção dos profissionais de saúde sobre as implicações das diferentes formas de gestão no processo de adoecimento dos trabalhadores. Trata-se de um estudo documental, com abordagem qualitativa. O material investigado resultou de atividades acadêmicas realizadas por profissionais de saúde da região sudeste do Brasil, em um curso de especialização em Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. Os discursos dos profissionais foram analisados com auxílio do software Iramuteq. Os resultados mostram que o assédio, a gestão autoritária ou omissa, excesso de cobranças e a tensão presente no exercício do cargo de gestão têm fortes implicações no adoecimento do trabalhador. Os resultados revelam a necessidade de gestores que estejam atentos às condições de trabalho, que invistam na cultura da gestão participativa e no desenvolvimento de estratégias de prevenção e promoção em saúde para os trabalhadores do Sistema Único de Saúde.

Introdução

Apesar das ações na área de Saúde do Trabalhador estarem descritas na constituição como atribuição do Sistema Único de Saúde (SUS) desde a década de 1980, muitos trabalhadores continuam sofrendo acidentes no ambiente de trabalho (AGUIAR; VASCONCELLOS, 2015) e convivendo com situações deletérias nos serviços de saúde. É reconhecido que o trabalho em saúde, quando realizado em ambientes e condições inadequadas, pode causar prejuízos à saúde dos profissionais, podendo comprometer sua qualidade de vida, assim como a assistência prestada ao usuário (TRINDADE et al., 2017). No entanto, muitas vezes as ações voltadas à promoção e a prevenção da Saúde do Trabalhador do SUS não são priorizadas pela gestão (RIBEIRO; LEÃO; COUTINHO, 2013). Paradoxalmente, cabe a gestão dos serviços assumir o papel de promover boas condições de trabalho, tendo em vista minimizar os riscos que os trabalhadores são expostos. Partindo deste pressuposto, realçam-se as seguintes as questões: qual é a participação da gestão no processo de adoecimento dos trabalhadores? Os modelos de gestão das instituições geram algum tipo de adoecimento no trabalhador da saúde? Como os profissionais percebem essas questões?

Objetivos

Analisar a percepção dos profissionais de saúde sobre as implicações das diferentes formas de gestão no processo de adoecimento dos trabalhadores.

Metodologia

Este resumo corresponde a um recorte da pesquisa “Saúde do Trabalhador e Condições de Trabalho em Saúde”, realizada pelo Observatório de Recursos Humanos em Saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), e aprovada pelo Comitê de Ética e Pesquisa do Hospital Universitário Onofre Lopes (parecer nº 4.142.589). Trata-se de um estudo documental com abordagem qualitativa. Os documentos investigados integram as atividades acadêmicas realizadas durante o curso de especialização em Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, promovido pela UFRN no período de agosto de 2018 a Julho de 2019. Foram analisados 324 depoimentos dos alunos sobre a temática Saúde do Trabalhador da Saúde. A leitura dos documentos se deu de maio a junho de 2020. Em seguida os discursos foram submetidos à Classificação Hierárquica Descendente, com auxílio do software Iramuteq, onde foi identificada a ocorrência das palavras “gestão”, “adoecimento” e “Saúde do Trabalhador” e realizada a análise dos discursos. Resultados e Discussão O universo da pesquisa se constituiu de 324 documentos elaborados por trabalhadores dos serviços de saúde. Quanto ao perfil desses profissionais, a maioria ocupava cargo de gestão (81,5%) e era do sexo feminino (77,3%). Gestões compreendidas como autoritárias ou omissas e que realizam assédio foram citadas pelos profissionais como promotoras de adoecimento no trabalho (CAMARGO; ALMEIDA; GOULART JÚNIOR, 2018). Gestões que promovem a participação dos trabalhadores nos processos decisórios, promovem espaços de diálogos, acolhem os trabalhadores e se preocupam em proporcionar condições de trabalho decentes foram destacadas nos depoimentos como aquelas que motivam, envolvem o trabalhador, criando o sentimento de pertencimento à instituição. Esses elementos foram considerados como positivos para a saúde do trabalhador. O exercício da gestão também foi mencionado como um fator que propicia o adoecimento, visto às tensões comuns ao cargo de gestor, oriundas de cenários compostos por distintos e conflitantes interesses. Os resultados vão ao encontro de estudos que mostram problemas de saúde mental em profissionais após assumirem cargos de gestão, como o de Porciuncula; Venancio e Silva (2020).

Conclusões / Considerações finais

Este trabalho procurou compreender a importância da gestão na promoção, ou não, da saúde do trabalhador da saúde. Destaca-se que este papel não se limita apenas a garantia das condições físicas ou de equipamentos necessários para a realização do trabalho, mas também se refere à necessidade de se garantir espaços de participação do trabalhador nos processos decisórios da instituição. A condição de alienação do trabalhador do seu próprio trabalho pode gerar adoecimento, comprometendo a qualidade de vida do profissional e sua capacidade para o trabalho, além de interferir na qualidade da assistência prestada ao usuário. Os resultados mostram a necessidade de se fortalecer as iniciativas estaduais e municipais de implantação de uma política direcionada à saúde dos trabalhadores da saúde, com investimentos em melhorias nos processos de trabalho, bem como o desenvolvimento de estratégias de prevenção, promoção e reabilitação em saúde votadas para esses profissionais.

Referências

AGUIAR, L.; VASCONCELLOS, L. C. F. de. A gestão do SUS e a Saúde do Trabalhador: o direito que se tem e o direito que se perde. Saúde debate, Rio de Janeiro, v. 39, n. 106, p. 830-840, 2015. CAMARGO, M. L.; ALMEIDA, N. S.; GOULART JUNIOR, E. Considerações sobre o assédio moral como fator contribuinte para os episódios depressivos no trabalho: a violência velada e o adoecimento mental do trabalhador. Semin., Ciênc. Soc. Hum., Londrina , v. 39, n. 2, p. 129-146, 2018 . PORCIUNCULA, A. M.; VENANCIO, S. A.; SILVA, C. M. F. P. Síndrome de Burnout em gerentes da ESF. Ciênc. saúde col., Rio de Janeiro, v. 25, n. 4, p. 1555-1566,2020. RIBEIRO, F. S. N.; LEÃO, L. H. C.; COUTINHO, S. R. A. Saúde do trabalhador no Brasil nos anos 1990 e 2000, do período da audácia ao desbrio. Em Pauta, v. 11, n.32, p. 39-63, 2013. TRINDADE, L. R. et al.Fatores de adoecimento dos trabalhadores da saúde: revisão integrativa. Cienc Cuid Saude,v. 16, n.4, 2017.

Eixo Temático
  • 7. Política, Planejamento e Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde