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Este relato traz uma vivencia compartilhada territorial de cuidado diante da pandemia de Covid-19 na atenção básica em Santa Teresa, bairro situado nas encostas que margeiam as regiões do centro, norte e sul da cidade do Rio de Janeiro, reunindo grupos populacionais diferenciados em diversidades e desigualdades. Enfatiza a construção cotidiana da gestão participativa de um serviço de saúde, incluindo a costura de suas redes intersetoriais e comunitárias. Para tal, se faz necessário a superação de práticas assistenciais capturadas exclusivamente pela racionalidade biomédica, A vigilância à saúde assume a perspectiva da defesa da vida digna para os usuários e trabalhadores da unidade de saúde e as coletividades que residem e transitam no seu território de atuação. O ativismo tanto do trabalhadores da unidade como dos grupos e integrantes das redes de apoio no território nesta causa, implicando também uma gestão com permeabilidade e sensibilidade às demandas existentes, cria uma dinâmica viva que busca lidar com insuficiências governamentais na efetivação de políticas públicas preconizadas.
O Centro Municipal de Saúde Ernani Agrícola (CMSEA) foi inaugurado em 1943, desde então, em distintas fases, foi consolidando sua inserção no bairro carioca de Santa Teresa, no qual moram e transitam pessoas de distintas classes sociais. Em meados de 2016, além da equipe multiprofissional e as linhas de cuidados desenvolvidas, passou a contar com duas equipes de saúde da família, somando se a estas no final de 2018, a terceira. A cobertura assistencial da unidade perfaz 75% da população do bairro (41.000 no censo de 2010). A tradição local cultural, artística e política atrai intenso movimento turístico, não sendo raro a unidade de saúde prestar assistência a estes viajantes. Vizinha à Floresta da Tijuca, sua geografia é acidentada, estando a maioria das favelas no território situada nos pontos mais íngremes desmatados, áreas vulneráveis de deslizamento. A pandemia de COVID 19 acontece em conjuntura de políticas governamentais fragilizantes do SUS, atingindo gravemente a atenção básica na cidade do Rio de Janeiro. Neste contexto, o vínculo da unidade de saúde com o território no qual se situa ganha ainda mais importância na tessitura do cuidado das pessoas que ali vivem.
- Problematizar a experiência de uma unidade básica na atenção à pandemia de Covid-19. - Visibilizar a potência da atenção básica na gestão participativa do cuidado territorial numa emergência epidemiológica.
Período relatado: Março a junho de 2020, quando 20% do quadro de trabalhadores (que de forma integral contaria com 59 estatutários, 31 contratados por Organização Social e 6 tercerizados) estiveram afastados por motivos de saúde. Para além da análise dos dados epidemiológicos (463 usuários assistidos com sintomas respiratórios/nem todos testados; 202 casos confirmados para COVID 19; 96 casos notificados de Síndrome Respiratória Aguda Grave, 38 óbitos) produzidos numa situação de pouco apoio à vigilância em saúde existente no país (insuficiência de testagem, retrocessos na política de atenção básica, dentre outros), busca se aqui ressoar narrativas que salientam as redes vivas tecidas entre o CMSEA e a comunidade em prol do cuidado compartilhado. Com a limitação deste formato resumido ensaia se uma sistematização sintética de registros (escritos e vídeos) e relatos da gestão, dos trabalhadores, usuários da unidade e integrantes da rede de apoio no território. Resultados e Discussão O desenho cotidiano do funcionamento da unidade foi sendo operado de forma participativa: mudanças no fluxo e sinalizações físicas destas para o público (separando os usuários com sintomatologia respiratória); reorganização dos espaços de assistência (houve 527 consultas de enfermagem; 2790 médicas e 199 de odonto), efetivação da campanha da vacinação contra gripe e outras imunizações (3621 vacinados), adequação do uso de EPI (confeccionados e doados por rede local), ações (reduzidas) das equipes da ESF nos território (1352 VD de ACS) e a continuidade de linhas de cuidado (3313 procedimentos). Em tempos de distanciamento físico, dispositivos comunicacionais remotos foram acionados: redes sociais, aulas do Programa Academia Carioca via whatsapp (128 usuários) e monitoramento dos casos suspeitos de coronavirus sem sinais de gravidade através de ligações telefônicas periódicas. Ampliou se o cuidado das pessoas em situação de rua no bairro. Na sustentação de um ambiente acolhedor de trabalho foram organizadas atividades expressivas (Música no Telhado, Café da Manhã compartilhado, Música no Almoço e o painel poético “Território Afetivo” na área de convivência da unidade)
Uma relação de confiança não se constrói de um dia para outro, mas em tempo de emergência epidemiológica, a ampliação na vinculação da unidade ao seu território de atuação se faz ainda mais necessária. Uma comunidade de aprendizagem, com elementos de economia solidária foi sendo configurada. A publicização de várias monções elogiosas por parte da comunidade à atuação da unidade de saúde, vigorou o folego diante de omissões dos órgãos governamentais. A Pandemia de Covid 19 intensificou as vulnerabilidades e as potencialidades territoriais já existentes. A experiência do CMSEA evidencia a relevância da vinculação às redes de apoio territorial, à construção cotidiana da participação social nos processos de gestão, o investimento no cuidar de quem cuida e o exercício de fato da educação permanente nos processos vivenciados
ABRAHÃO, A.L. & al Políticas do cotidiano: a gestão na atenção básica. Saúde em Debate. v.43 n.6, 2019. ALBUQUERQUE, C.P.DE; FLEURI, R.M. Lições da pandemia: aprender com outras epistemologias o cuidado coletivo com reciprocidade. Revista de Educação Popular, p.268-280, 13 jul.2020. CECCIM, R.B. Educação Permanente em Saúde: desafio ambicioso e necessário. Interface- Comunicação, Saúde, Educação, v.9, n.16, p.161-77, set.2004/fev.2005 Merhy EE. O cuidado é um acontecimento e não um ato [Internet]. 2014 [citado 10 Jul 2020]. Disponível em: http://eps.otics.org/material/entrada-outras-ofertas/artigos/o-cuidado-e... Merhy EE, Feuerwerker LCM, Gomes MPC. Da repetição à diferença: construindo sentidos com o outro no mundo do cuidado. In: Franco TB, organizador. Semiótica, afecção & cuidado em saúde. São Paulo: Hucitec; 2010. p. 60-75.
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