ANÁLISE DA REDE DE DESLOCAMENTO DE PACIENTES PARA O TRATAMENTO DO CÂNCER COMO EVIDÊNCIA PARA O PLANEJAMENTO E GESTÃO DO SUS

Vol.1 - 2021 - 137004
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Resumo

Resumo

A análise do acesso dos pacientes oncológicos aos serviços de tratamento é essencial para auxiliar o planejamento e a gestão do Sistema Único de Saúde (SUS). Neste trabalho aplicamos a análise de redes sociais como uma nova ferramenta para a gestão de serviços de saúde. Utilizamos dados do Sistema de Informações Hospitalares para recuperar os registros do município de residência e de tratamento dos pacientes e construir suas redes de deslocamento para realização de cirurgias oncológicas em todo país, em dois períodos de tempo. Observamos que nos dois biênios estudados mais da metade dos pacientes precisaram se deslocar de um município a outro para realizar cirurgias, e que os pacientes residentes nas regiões Norte e Centro-Oeste se deslocaram mais frequentemente e precisaram percorrer maiores distâncias. A análise dos municípios sugere que Barretos é a maior referência para atendimento cirúrgico oncológico do país e Recife o maior polo em termos de volume de atendimento. A disparidade regional observada e as distâncias percorridas pelos pacientes evidenciam a necessidade de melhorar o planejamento da atenção ao paciente com câncer. Este estudo abre uma perspectiva analítica inovadora para a geração de conhecimento sobre acessibilidade ao SUS, que tem o potencial de fornecer subsídios para apoiar a implementação de redes integradas de atenção oncológica.

Introdução

O aumento da incidência de câncer no Brasil refletiu-se em uma maior demanda por tratamento no Sistema Único de Saúde (SUS) (1). A política nacional de atenção oncológica destaca a necessidade de oferecer o tratamento especializado o mais próximo possível do domicílio dos pacientes, um desafio frente à crescente demanda (2). Nesse cenário, é essencial analisar a acessibilidade dos pacientes aos serviços de tratamento oncológico para gerar evidências que auxiliem o planejamento e a gestão do SUS. A análise de redes sociais (ARS) (3) tem sido utilizada para mapear o itinerário terapêutico de pacientes e avaliar sua acessibilidade a serviços de saúde (4,5,6). Entretanto, estudos que forneçam evidências sobre a acessibilidade ao tratamento de câncer são escassos no Brasil. Neste trabalho, construímos a rede de deslocamento intermunicipal de pacientes para realização de cirurgias oncológicas em todo país, considerando as distâncias percorridas e os volumes envolvidos nestes deslocamentos, em dois períodos de tempo. Esperamos que as informações geradas possam ampliar a discussão sobre a adequação do sistema de saúde às diretrizes da política nacional.

Objetivos

Este trabalho faz parte de um projeto mais amplo, que reforça a premissa de que a acessibilidade ao tratamento de câncer é uma condição essencial para garantir a integralidade do cuidado ao paciente. O principal objetivo é analisar a dinâmica do deslocamento de pacientes com câncer para realização de tratamento no SUS, aplicando a ARS como uma nova ferramenta estratégica para a gestão de serviços de saúde.

Metodologia

Dados do Sistema de Informações Hospitalares (SIH-SUS) foram utilizados para recuperar os registros do município de residência (origem) e tratamento (destino) de pacientes com diagnóstico principal de câncer internados para realização de cirurgias em dois biênios: 2009-2010 e 2017-2018. A análise considerou apenas os registros nos quais o município de origem era diferente do município de destino. A rede de deslocamento foi construída e analisada utilizando o software Gephi, onde a relação origem/destino entre um par de municípios define uma conexão e o número de pessoas que se deslocam entre eles configura um fluxo. Assim, as relações entre os municípios são direcionais (origem --> destino) e assimétricas (a conexão origem/destino não é recíproca), e ponderadas pelo fluxo (volume) de pacientes registrados entre cada par de municípios. Cada um dos municípios existentes na rede foi analisado individualmente por meio do cálculo de métricas de centralidade. Resultados e Discussão Mais da metade dos pacientes oncológicos precisaram se deslocar de seus municípios de residência para realizar tratamento cirúrgico: 83.244 pacientes (54,6% do total de internações) no primeiro biênio e 135.913 pacientes (56,9%) no segundo biênio. Os pacientes residentes nas regiões Norte e Centro Oeste se deslocaram mais frequentemente e precisaram percorrer as maiores distâncias em busca de tratamento, refletindo a limitada oferta de unidades de saúde de média e alta complexidade nestas regiões. Em alguns estados (AM, PA, AC e MT) mais de 50% das internações no período 2017-2018 estavam sujeitas a deslocamentos superiores a 450km, o que cria dificuldades adicionais ao tratamento e recuperação dos pacientes. A análise dos municípios sugere que Barretos (SP) é o município de maior referência para atendimento cirúrgico oncológico do país e Recife (PE) o maior polo em termos de volume de atendimento. Barretos recebeu pacientes de 656 municípios no primeiro biênio e de 730 municípios no segundo, enquanto Recife recebeu o maior volume de pacientes oriundos de outros municípios: 6.386 no primeiro biênio e 8.333 no segundo representando 75% e 76% do atendimento total, respectivamente.

Conclusões / Considerações finais

Os resultados apresentados são indicativos das dificuldades de acesso aos serviços de tratamento oncológico. O deslocamento para acessar serviços de saúde de média e alta complexidade é esperado em um sistema de saúde hierarquizado. Entretanto, a disparidade regional observada e as longas distâncias percorridas pelos pacientes em tratamento oncológico evidenciam a necessidade de melhorar o planejamento e gestão do sistema de saúde para este fim. A identificação dos serviços de referência e polos de alta concentração de atendimento subsidia o planejamento e possível implantação de outros centros de tratamento cirúrgico oncológico nessas regiões, otimizando o acesso e reduzindo o deslocamento dos pacientes. Este estudo abre uma perspectiva analítica inovadora sobre a acessibilidade ao SUS em resposta às necessidades de saúde da população, com o potencial de informar as autoridades de saúde na otimização de redes integradas de atenção oncológica.

Referências

1. Observatório de Oncologia. Gastos Federais em Oncologia. Disponível em: https://observatoriodeoncologia.com.br/gastos-federais-em-oncologia/ 2. Ministério da Saúde. 2013. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2005/prt2439_08_12_2005.html 3. Fonseca et al. Co-authorship network analysis in health research: method and potential use. Health Research Policy Systems. 2016;14:34. 4. Oliveira et al.. Territórios do Sistema Único de Saúde: mapeamento das redes de atenção hospitalar. Cadernos de Saúde Pública. 2004;20(2):386–402. 5. Oliveira et al. Access to cancer care: mapping hospital admissions and high-complexity outpatient care flows. The case of breast cancer. Cadernos de Saúde Pública. 2011;27(2):317–26. 6. Sousa et al.. Caracterização do acesso à assistência ao parto normal na Bahia, Brasil, a partir da teoria dos grafos. Cadernos de Saúde Pública. 2017;33(12).

Eixo Temático
  • 4.2. Política, Gestão e Atenção Hospitalar