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Resumo

Resumo

O acesso aos serviços especializados continua sendo um grande desafio para o SUS, na garantia do princípio da integralidade. O trabalho teve como objetivo analisar a experiência de ginecologistas na linha de cuidado para controle do CCU em duas regiões de saúde, na Bahia. O estudo identificou que, em ambas as regiões de saúde, entre os especialistas estavam bem delimitados os mecanismos de referenciamento, via protocolos municipais e regionais, da Atenção Primária à Saúde (APS) para Atenção Especializada. Em relação a qualidade do exame citopatológico coletado nas unidades de APS e qualidade da leitura dos exames pelo laboratório, em ambas as regiões de saúde, os especialistas relataram haver confiança nos procedimentos realizados. Existia, ainda, uma frágil relação comunicacional entre a equipe de APS e os especialistas, intermediadas por centrais de marcação e regulação de consultas, assim, cada profissional exercia sua função sem uma comunicação direta. Assim, organização dos serviços de saúde para atenção e controle do CCU ainda era frágil e fragmentada. O serviço especializado e APS não se articulavam, o processo de trabalho do médico especialista ainda era isolado na rede, sem conhecimento do itinerário das usuárias em tratamento do CCU e sem continuidade do cuidado.

Introdução

O câncer do colo do útero é uma doença de crescimento lento e silencioso, com uma fase pré-clínica cuja detecção de possíveis lesões pré-malignas precursoras pode ser feita por meio da realização periódica do exame de Papanicolaou (Appleby et al., 2006), um exame seguro, barato, eficaz, de fácil execução e aceitação pela população feminina. Uma boa rastreabilidade citológica atrelada ao tratamento adequado nos estágios lesivos iniciais pode resultar em uma redução de até 90% das taxas de incidência de câncer de colo uterino, quando o rastreamento apresenta boa cobertura populacional 80% e é realizado dentro dos padrões de qualidade (Oliveira et al., 2013). A Linha de Cuidado do Câncer do Colo do Útero tem a finalidade de assegurar à mulher o acesso humanizado e integral às ações e aos serviços qualificados para promover a prevenção do câncer do colo do útero, acesso ao rastreamento das lesões precursoras, ao diagnóstico precoce e ao tratamento adequado, qualificado e em tempo oportuno.

Objetivos

Analisar a experiência de ginecologistas na linha de cuidado para controle do CCU em duas regiões de saúde, na Bahia.

Metodologia

A Região de Juazeiro possui 540.656 habitantes, composta por 10 municípios e faz fronteira com Pernambuco. A sede da região é Juazeiro, sendo o mais populoso município e polo da macrorregião Norte e sede do NRS Norte. A região de saúde de Vitória da Conquista possui 669.396 habitantes, composta por 19 municípios e faz fronteira com Minas Gerais. Localiza-se na Macrorregião Sudoeste, tendo o município de Vitória da Conquista como sede da região de saúde e do Núcleo Regional de Saúde Sudoeste. Trata-se de um estudo de caso nas Regiões de Saúde de Juazeiro e Vitória da Conquista, na Bahia. Pesquisa qualitativa envolvendo oito médicos ginecologistas (entrevistas semiestruturadas) responsáveis pela referência na linha de controle do câncer do colo. A interpretação dos dados qualitativos foi feita por meio da análise de conteúdo temática. A pesquisa é financiada pela Fapesb (Edital nº 003/2017), Programa Pesquisa para o SUS: Gestão Compartilhada em Saúde (PPSUS/BA FAPESB/SESAB/CNPq/MS). Resultados e Discussão O estudo identificou que, em ambas as regiões de saúde, entre os especialistas estavam bem delimitados os mecanismos de referenciamento, via protocolos municipais e regionais, da Atenção Primária à Saúde (APS) para Atenção Especializada. Ainda assim, os encaminhamentos feitos por ginecologistas não seguiam um padrão na rede regionalizada. Em relação a qualidade do exame citopatológico coletado nas unidades de APS e qualidade da leitura dos exames pelo laboratório, em ambas as regiões de saúde, os especialistas relataram haver confiança nos procedimentos realizados. Existia, ainda, uma frágil relação comunicacional entre a equipe de APS e os especialistas, intermediadas por centrais de marcação e regulação de consultas, assim, cada profissional exercia sua função sem uma comunicação direta. Os profissionais relataram que não havia dificuldade do acesso ao ginecologista, pois existiam profissionais suficientes para atender a demanda das mulheres. Os médicos especialistas desconheciam o caminho que as mulheres sob tratamento percorriam após referência para os exames complementares e/ou tratamento do câncer, apontaram apenas a elaboração de um relatório para encaminhamentos.

Conclusões / Considerações finais

A organização dos serviços de saúde para atenção e controle do CCU ainda era frágil e fragmentada. O serviço especializado e APS não se articulavam, o processo de trabalho do médico especialista ainda era isolado na rede, sem conhecimento do itinerário das usuárias em tratamento do CCU e sem continuidade do cuidado. Estes resultados permitem entender a razão pela qual, mesmo diante de altas coberturas da APS e oferta regular do exame citopatológico nas unidades de APS, ainda é persistente casos de CCU em mulheres, sobretudo de municípios rurais e remotos. O estudo contribui para a reflexão acerca do trabalho do ginecologista na rede de cuidado e as implicações da desarticulação entre APS e serviço especializado.

Referências

Appleby P, Beral V, Berrington de González A, Colin D, Franceschi S, Goodill A, Green J, Peto J, Plummer M, Sweetland S. Carcinoma of the cervix and tobacco smoking: collaborative reanalysis of individual data on 13.541 women with carcinoma of the cervix and 23.017 women without carcinoma of the cervix from 23 epidemiological studies. Int J cancer 2006; 118(6):1481-1495. Oliveira, M.V.; Guimaraes, M.D.C.; França, E.B. Fatores associados a não realização de Papanicolau em mulheres quilombolas. Ciênc. saúde coletiva [online]. 2014, vol.19, n.11, pp. 4535-4544. ISSN 1413-8123.

Eixo Temático
  • 4. Sistemas e Redes de Atenção