A REJEIÇÃO ESTRUTURAL AO SUS

Vol.1 - 2021 - 136792
Apresentação Curta Assíncrona
Favoritar este trabalho
Como citar esse trabalho?
Resumo

Resumo

O presente estudo parte da questão “existe, nos estratos sociais economicamente mais favorecidos, uma ideia negativa preconcebida do SUS ?”. Ou, colocando de uma forma mais concisa: “há uma rejeição estrutural ao SUS ?”. Partindo do conceito de habitus, de Bourdieu (2009), pode-se argumentar que as classes sociais de maior poder aquisitivo não utilizam, de forma rotineira, consultas e serviços eletivos de saúde pública. Para estas pessoas é incomum o percurso que passa pelos serviços do SUS. De geração em geração, o acesso aos serviços de saúde se inicia no médico do plano de saúde, sendo que, para os atendimentos de urgência, a escolha se dá pelo “livrinho do plano de saúde”, hoje pelo aplicativo do celular. A metodologia utilizada foi uma análise qualitativa do conteúdo das reclamações registradas por beneficiários de planos de saúde. Fez-se a opção de utilizar como forma de registro aquele feito pelo site da ANS afinal, dessa forma, o beneficiário digita de forma livre seu texto dando vazão a relatos críticos e a desabafos. Foram identificadas duas categorias nos discursos, ambas carregadas de uma avaliação, de valor negativo, preconcebida do SUS. Verifica-se, pelos relatos dos beneficiários, uma imagem estereotipada do SUS como serviço de saúde deteriorado e ineficiente, em contraponto à idealização de eficiência e maior qualidade dos serviços privados.

Introdução

Segundo Malta et al. (2017), 68,8% das pessoas com nível de escolaridade superior completo possuíam plano de saúde. Considerando a escolaridade como proxy de renda, infere-se que significativa parcela da população de maior renda possui plano de saúde. Bourdieu (2009) define habitus como sistemas de disposições duráveis e transponíveis atuando como estruturas estruturantes, como princípios geradores e organizadores de práticas e de representações que podem ser adaptadas ao seu objetivo sem a intenção consciente de fins e o domínio expresso das operações necessárias para alcançá-los. Os indíviduos dos estratos sociais de maior poder econômico, de modo geral possuem planos de saúde. O SUS é secundário para o acesso aos cuidados de saúde. A posse do plano de saúde confere distinção social e expectativa de um atendimento diferenciado, exclusivo, distante da imagem recebida pelos meios de comunicação no sentido de precariedade e ineficiência dos serviços públicos. Moraes et al. (2017) e Vieira Jr (2019) apontam como a saúde pública é apresentada na mídia e nos cartuns, sob a forma de imagens que reforçam críticas pessimistas, na dicotomia entre o público versus o privado.

Objetivos

O presente estudo teve como objetivo identificar, nos relatos de beneficiários de planos de saúde, o discurso cujo conteúdo contém ideias e ideais preconcebidos dos serviços públicos e privados de saúde no Brasil.

Metodologia

Como metodologia, utilizou-se uma análise qualitativa, com base na análise de conteúdo (Bardin, 2016). O material utilizado foram as reclamações registradas, por beneficiários de planos de saúde, na Agência Nacional de Saúde Suplementar – ANS, nos anos de 2010 a 2012. Optou-se pelas reclamações registradas no site da ANS, pois, dessa forma, o beneficiário tem liberdade de produzir o próprio texto, carregando-o com suas críticas e seus desabafos. Foram analisados os relatos que evidenciavam um contraponto entre os atendimentos privado e público. Foram identificadas duas categorias presentes nos discursos. A “surpresa” está presente quando o beneficiário utiliza os serviços disponibilizados pelo plano de saúde e se depara com um atendimento oposto às suas expectativas. A “decepção” ocorre quando o beneficiário avalia como precárias as condições de atendimento das unidades do plano de saúde, e coteja essas condições com sua ideia negativa preconcebida do SUS. Resultados e Discussão Foram identificados relatos nos quais, o beneficiário aborda a comparação entre os serviços público e privado de saúde, como nos exemplos abaixo: 1) (...) total desrespeito com paciente. muita gente. parece um hospital público (...) 2) Gostaria de saber (...)se mesmo pagando e caro, pois compromete uma boa parte de minha renda familiar tenho que ser tratada como SUS. Aqui (...) os hospitais (...) estão tão sucateados quanto os públicos e somos tratados como se fossemos usuários da rede pública. 3) (...)quando eu contratei o plano ninguém me avisou do caos que eu iria passar para conseguir marcar uma consulta,(...)se eu soubesse que ficaria pagando um plano de saúde sem poder ser atendida, teria ficado mesmo num posto de saúde pública, pois acabou dando na mesma (...) A imagem do SUS como serviço para pessoas pobres e “inferiores” parece estruturada em grande parcela de nossa sociedade. Os serviços públicos de saúde trazem toda uma carga simbólica de serviço para pobres, do fantasma das filas, da longa espera, da baixa qualidade. O SUS é imaginado como o mundo no qual os usuários se submetem aos constrangimentos de longas esperas, misturados a pobres.

Conclusões / Considerações finais

Em geral , o viés ideológico aceito por significativa parcela da população traz o setor público sob um ângulo negativo, de ineficiência, desperdício e corrupção em contraponto à imaginada agilidade e eficiência do setor privado. Assim, a importante conquista social de um sistema universal de saúde é cotejada com a rejeição a um setor estigmatizado como repleto de problemas e crises, assumindo um tom recorrente de fracasso da saúde pública, o que fragiliza o SUS diante das disputas sociais e ideológicas (MORAES et al, 2017). Reconhecer esses elementos de busca por distinção social, é essencial para a definição de estratégias que valorizem a saúde pública universal. Apesar das políticas de saúde posteriores à Constituição de 1988 terem asfixiado o SUS, do ponto de vista financeiro, e da expectativa de um ainda maior contingenciamento de recursos, é de se lamentar que parte de nossa sociedade ainda olhe para o SUS como algo a ser evitado, como o “plano de saúde dos pobres”.

Referências

Bardin, L. Análise de conteúdo. São Paulo: Edições 70, 2016 Bourdieu, P. O senso prático. Petrópolis: Vozes, 2009 Malta DC et al. Cobertura de planos de saúde na população brasileira, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde, 2013. Ciênc Saúde Coletiva. 2017 jan;22(1):179-90 Moraes, JC et al. A mídia e sua relação com a formação de opiniões sobre o Sistema Único de Saúde. Rev Bras Ciências da Saúde. 2017. 21(2), 103-10. Vieira Junior, WM. O SUS é uma piada. Em: Anais do Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva; Rio de Janeiro.Rio de Janeiro.Brasil. Campinas : GALOÁ; 2019. Disponível em: https://proceedings.science/saude-coletiva-2018/papers/o-sus-e-uma-piada

Eixo Temático
  • 1. Estado, Políticas Sociais e Sistemas de Saúde