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Considerando-se o trabalho em saúde como campo de constantes disputas entre diferentes atores, aposta-se na psicologia como núcleo de saber e práticas promotor e facilitador de intervenções e manejo de problemas intra-equipe. Relata-se a experiência de integrantes do LAPEPPS - Laboratório de Pesquisa em Políticas Públicas em Saúde da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP) como apoiadores no processo de transição do serviço de saúde mental de um município de pequeno porte do interior do estado de São Paulo, do modelo ambulatorial para Centro de Atenção Psicossocial (CAPS). Para tanto, foram realizadas três ações complementares no município: duas iniciações científicas, que investigaram as condições de implementação do CAPS, como previstas em documentos municipais de gestão, além de expectativas de profissionais de saúde mental ante a transição e dos profissionais da Atenção Básica (AB) em relação à atuação de psicólogos junto aos serviços; e estágio profissionalizante, que em resposta a questões identificadas nos estudos, promoveu intervenção junto aos profissionais de saúde mental, oferecendo apoio e estruturando espaços de reflexão e planejamento para readequação das ações desenvolvidas no serviço e no contato com os serviços da AB.
O lugar da psicologia na saúde pública é questão central do LAPEPPS - Laboratório de Pesquisa em Políticas Públicas em Saúde da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FFCLRP-USP). Ampliar o olhar sobre contribuições da psicologia na saúde pública, sem restrição à prática assistencial ou ao contexto da saúde mental, é disparador das práticas do laboratório, norteadas por compreensão semelhante àquela proposta por Ceccim (2018), que entende o fazer interprofissional em saúde como produtor de práticas coesas e não fragmentadas. Investiga-se o fazer em constante movimento, percurso e não fim, gerador de novas formas de cuidado capazes de efetivar o conceito de Rede Assistencial e o cuidado integral, e revelador da necessidade de melhor manejo dos problemas intra-equipe (Vasconcelos, 2010). Considerando-se o forte componente relacional presente neste contexto de atuação, aposta-se na psicologia como núcleo de saber e práticas promotor e facilitador de intervenções no campo de disputas (Ferreira Bertagnoli, Carvalho & Souza, 2018) entre os diferentes atores envolvidos na micropolítica do cuidado em saúde (Franco, 2013).
Relatar experiência de investigação e intervenção realizada por alunos de graduação do curso de psicologia, ligados ao LAPEPPS, em município de pequeno porte do interior paulista no qual o serviço de saúde mental estava em transição do modelo ambulatorial para Centro de Atenção Psicossocial (CAPS), analisando expectativas sobre esta transição junto aos profissionais do próprio serviço e da Atenção Básica e descrevendo intervenção por meio de estágio profissionalizante instituído no CAPS.
Considerando a transição do modelo ambulatorial em saúde mental para CAPS foram realizadas três ações no município: dois projetos de iniciação científica, complementares, que investigaram as condições de implementação do CAPS no município como inclusão no Plano Municipal de Saúde e previsão orçamentária, além de expectativas de profissionais de saúde mental ante a transição; e expectativas dos profissionais da Atenção Básica (AB) em relação à atuação de psicólogos junto aos serviços. Em ambos os projetos os profissionais participaram de grupos focais que depois de transcritos foram analisados com base na Análise de Conteúdo Temática de Bardin (1977). Em resposta a questões identificadas nos estudos, foi implementado estágio profissionalizante que promoveu intervenção junto aos profissionais de saúde mental, oferecendo apoio e estruturando espaços de reflexão e planejamento para readequação das ações desenvolvidas no serviço e no contato com os serviços da AB. Resultados e Discussão Inconsistência no planejamento para implementação do CAPS, como previsão de investimento para ambiência mas não para contratações necessárias à composição de equipe mínima evidenciam desconhecimento quanto à proposta assistencial do serviço, mesmo entre os técnicos e gestores. Entre profissionais da AB destacam-se expectativas de inserção tradicional do psicólogo na saúde pública, oferecendo atendimentos psicoterapêuticos para usuários e equipe, além do desejo de que o psicólogo instrumentalize os profissionais, orientando-os na atenção a demandas ainda reconhecidas como exclusivas do campo da saúde mental. Estes dados indicam dificuldade para parceria efetiva entre AB e CAPS, prejudicando o cuidado efetivamente integral. As atividades do estágio implantado foram centradas no esclarecimento quanto ao modelo de atuação do CAPS, em reuniões de equipe regulares, e no planejamento do matriciamento em saúde mental junto a serviços da AB, com proposição de visitas domiciliares conjuntas.
Expectativas em relação ao trabalho do psicólogo na AB estão relacionadas às experiências prévias com a psicologia, persistindo dissociação entre a prática do psicólogo e dos demais profissionais da saúde, que pode estar relacionada com a tradicional cisão entre "saúde mental" e "saúde do corpo". Ferreira Bertagnoli, Carvalho & Souza (2018), pontuam que essa fragmentação expressa compreensão tecnicista da atuação profissional em saúde, dificultando a integralidade, com impacto no reconhecimento de possibilidades de trabalho integrado e interdisciplinar, dificultando a implementação de serviços como o CAPS e a própria Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Intervenções propostas por estágio profissionalizante decorrente dos estudos exemplificam como a Psicologia pode colaborar para construção de projeto de trabalho alinhado às subjetividades individuais, mas potente no estabelecimento de relações e parcerias entre indivíduos, atentando ainda a normativas formais dos serviços de saúde.
Bardin, L. (1977). Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70 Ceccim, R.B(2018) Connections and boundaries of interprofessionality: form and formation. Interface (Botucatu). 22(2),1739-49 Ferreira Bertagnoli, M.S.F.; Carvalho, C. C. ; Souza, L. B. (2018). Co-gestão, autoria no processo de trabalho e cuidado: há lugar para a Psicologia! In: Elias, L.C.S; Corradi-Webster, C.M; Barrera, S.D; Oliveira-Cardoso, E.A & Santos, M.A. (Org.). (2018). Formação profissional em psicologia: práticas comprometidas com a comunidade. 1ª Ed. Ribeirão Preto - SP: Sociedade Brasileira de Psicologia - SBP, 437-457 Franco, T.B. (2013). As redes na micropolítica do processo de trabalho em saúde. In: Franco, T.B. & Merhy, E.E. (2013). Trabalho, produção do cuidado e subjetividade – Textos Reunidos. 1ª Ed. São Paulo: Hucitec. 226-242 Vasconcellos, V. (2010). Trabalho em equipe na saúde mental. SMAD Revista Eletrônica Saúde Mental Álcool E Drogas (Português), 6(1),1-22
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