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As mudanças no pensar-agir no processo de saúde mental possibilitam (re)pensar o conceito de cura no processo do adoecimento. A partir dessa premissa, propôs-se investigar os “sentidos da cura” sob a perspectiva de 15 profissionais de Centros de Atenção Biopsicossociais em saúde mental. Trata-se de um estudo qualitativo com base no Construcionismo Social, segundo a Psicologia Social de Mary Jane Paris Spink (2013). Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada em situação metapresencial pela plataforma zoom. A análise envolveu transcrição do material coletado, identificação dos repertórios interpretativos e síntese temática Os resultados destacam duas categorias temáticas: Cura como impossibilidade em doença mental; Cura como possibilidade associada ao cuidar. Este estudo refletiu a necessidade de (re)orientar a construção de itinerários terapêuticos com novas concepções e expectativas da cura na saúde mental, voltadas para o cuidado e a qualidade de vida. Palavras chaves: Cura, Saúde Mental, Reabilitação Psicossocial.
“As práticas de cuidado em saúde, nos cenários atuais, não buscam tratar [somente] a doença que se instala em um corpo; tampouco o profissional responsável pelo cuidado é apenas um profissional especializado que executa ações técnicas” (Ramos, Pio, 2010: p. 212-223). Sendo o cuidado uma construção social inerente às práticas em saúde, a reabilitação psicossocial é entendida e percebida como um conjunto de ações que se destinam a potencializar e (re)conhecer as habilidades do indivíduo e suas limitações, na busca de uma rede humanizada de saúde, na qual o usuário possa exercer seus direitos de cidadania e autonomia. Neste sentido, o itinerário terapêutico do cuidado não visa somente o processo de medicação e psicoterapia, mas atua a partir das subjetividades nos cenários ocupados, com ampliação de novos arranjos de cuidado, mais humanizados e menos estigmatizados (Saraceno, 2001; Gerhardt, 2007) O “sentido da cura” nessa proposta é relevante, visto que o “interdito” que circunda esse cenário não circunscreve a discussão sobre a cura à uma discussão exclusivamente técnica no processo de reabilitação biopsicossocial (Jucá, 2005).
Analisar os “sentidos da cura” do adoecimento mental por profissionais de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS).
Trata-se de um estudo qualitativo desenvolvido em Centros de Atenção Psicossocial, com 15 profissionais incluídos na pesquisa de acordo com os seguintes critérios: participar do projeto mediante assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido; apresentar linguagem que possibilite a comunicação verbal e ter no mínimo 24 meses de assistência na saúde mental (consecutivos ou não). O roteiro foi elaborado de acordo com o referencial teórico metodológico do Construcionismo Social, segundo a Psicologia Social (Spink, Frezzo, 2013), com base no levantamento bibliográfico, nas escalas de Avaliação do Impacto do Trabalho em Serviços de Saúde Mental IMPACTO-BR e na Escala de Avaliação da Satisfação dos familiares com serviços de Saúde Mental SATIS-BR (Bandeira, Pitta, Mercier, 2000). Os dados foram coletados por meio de entrevista semiestruturada metapresencial. A análise envolveu transcrição das entrevistas, identificação dos repertórios interpretativos e síntese temática. Resultados e Discussão Os resultados destacam duas categorias temáticas: Cura como impossibilidade em doença mental e cura como possibilidade associada ao cuidar. Na primeira, os sentidos de impossibilidade de cura tiveram como repertórios interpretativos: cura associada ao conceito de saúde como ausência de doenças; cura percebida como possível apenas em doenças agudas; ausência de proposta de cura no processo de cuidado em saúde mental. Esses sentidos associam-se, de certa forma, à necessidade de tratamento contínuo( multiprofissional) em função, entre outros fatores, de recidivas na maioria dos casos. A segunda categoria permitiu a identificação dos seguintes repertórios: cura como força de vontade do paciente; cura como acessibilidade à assistência e ao cuidado; cura como apoio familiar, religioso e econômico. Esses sentidos associam-se à perspectiva da promoção do cuidado, a partir da necessidade de múltiplas intervenções no âmbito psicossocial, que resulte/m de uma abordagem multiprofissional e interdisciplinar, direcionada à autonomia e à potencialização do desejo natural do sujeito na manutenção do equilíbrio do seu organismo(Scholze & Silva, 2005; ONKEN ET AL., 2002).
Nesta pesquisa observou-se que os sentidos da cura estão em processo de transformação na percepção e nas práticas dos profissionais dos serviços dos CAPS. As percepções biomédicas do adoecer e do cuidar na Saúde Mental ainda se impõem em muitos cenários de cuidado, contudo, em outros espaços, a possibilidade de cura permeia os repertórios dos sujeitos a partir dos conceitos de cuidado, promoção da saúde e qualidade de vida, possibilitando diálogos para (re)significar a cura em saúde mental.
Gerhardt TE. Itinerários terapêuticos e suas múltiplas dimensões: desafios para a prática da integralidade e do cuidado como valor. Em R. Pinheiro, R.A. de Mattos (Ed.) Razões públicas para a integralidade em saúde: o cuidado como valor. Rio de Janeiro: IMS/UERJ/CEPESC/ABRASCO, 2007, V.1, pp. 279-300. Jucá VJ dos S. A multivocalidade da cura na saúde mental: uma análise do discurso psiquiátrico. Ciência & Saúde Coletiva, 2005, 10(3): 771-779. Onken S et al. Mental health recovery? What helps and what hinders? A national research project for the development of recovery facilitating system performance indicators. Alexandria, VA: National Association of State Mental Health Program Directors – National Technical Assistance Center; 2002. Ramos PF, Pio DAM. Construção de um projeto de cuidado em saúde mental na atenção básica. Psicologia: Ciência e Profissão, 2010, 30(1), 212-223.
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