A INTRA E INTERSETORIALIDADE EM SAÚDE DO TRABALHADOR: O DISCURSO DE PROFISSIONAIS DA ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA

Vol.1 - 2021 - 136975
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Resumo

Resumo

A Saúde do Trabalhador (ST) consiste em um campo de saberes e práticas interdisciplinares que visa à prevenção e controle de riscos nos espaços laborais, por meio de ações de vigilância, assistência e reabilitação da saúde. Entretanto, para que ocorra uma assistência integral e acesso ampliado a ST, faz-se necessário a integração de diversos setores sociais e da saúde. O presente estudo objetiva analisar o discurso de profissionais da Equipe de Saúde da Família (eSF) quanto aos sentidos e significados atribuídos a ST no território da Atenção Primária a Saúde (APS). Trata-se de uma pesquisa qualitativa, desenvolvida com profissionais de nível superior de eSF de João Pessoa. A coleta de dados ocorreu de junho a setembro de 2020, por meio de entrevista semiestruturada. Para análise do material empírico, utilizou-se o referencial teórico-metodológico da Análise do Discurso. As marcas textuais do discurso dos profissionais apontaram para uma (Des)articulação intra e intersetorial em ST na APS, uma vez que os sentidos construídos indicaram um cuidado fragmentado e individualizado, independente de cada setor, fragilizando assim, a integralidade do cuidado. Observou-se que os avanços no campo da ST não garantiram a efetivação da intra e intersetorialidade, destacando-se também uma prática profissional precarizada, ficando explicito a fragilidade no vínculo com os serviços de ST.

Introdução

A Saúde do Trabalhador (ST) se caracteriza como um campo de práticas político-ideológicas e saberes interdisciplinares que leva em consideração a relação trabalho-saúde-ambiente como determinante do processo saúde-doença. As ações em ST, no cenário da Atenção Primária a Saúde (APS), ainda se constituem como um desafio para os gestores e profissionais das Equipes de Saúde da Família (eSF), uma vez que muitos profissionais tem pouco entendimento do trabalho como determinante do processo saúde-doença e, por vezes, não reconhecem o usuário como trabalhador, o que dificulta a implementação de ações nesse campo e, consequentemente, a efetivação da Política Nacional de Saúde do Trabalhador e Trabalhadora. Sabe-se que para uma assistência integral e acesso ampliada a ST, os profissionais da eSF necessitam de articulação e Apoio Matricial de equipes especializadas e serviços de vigilância, bem como de setores sociais diversos, para prevenção e controle de riscos nos espaços laborais e resolutividade do cuidado em saúde. Mas, apesar de toda legislação existente em relação à ST no Sistema Único de Saúde, ainda existem entraves para efetivação das ações desse campo no cenário da APS.

Objetivos

Analisar o discurso de profissionais da equipe de Saúde da Família quanto aos sentidos e significados atribuídos a Saúde do Trabalhador no território da Atenção Primária à Saúde.

Metodologia

Estudo qualitativo, desenvolvido com profissionais da Estratégia de Saúde da Família de João Pessoa, que exercem atividades laborais há no mínimo um ano; excluindo-se aqueles que estavam afastados ou exerciam outros cargos ou funções. A coleta de dados ocorreu de junho a setembro de 2020 por meio de entrevista semiestruturada. Os recortes transcritos foram identificados pelas iniciais da categoria profissional de cada participante, seguidos com números cardinais de acordo com a ordem das entrevistas, sendo analisados a partir do referencial teórico-metodológico da Análise do Discurso francesa e de três questões heurísticas: qual é o conceito-análise presente no texto?, como o texto constrói o conceito-análise? e a que discurso pertence o conceito-análise construído da forma que o texto constrói?. A pesquisa obedeceu às recomendações éticas dispostas na Resolução nº466/2012 e teve aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal da Paraíba sob CAEE 87110318.0.0000.5188. Resultados e Discussão Participaram 16 profissionais, dentre eles enfermeiros, médicos e cirurgiões-dentistas com tempo de trabalho de mais de 10 anos. A maioria era do sexo feminino e com idade entre 28 e 70 anos. As marcas textuais do discurso dos profissionais apontaram para uma (Des)articulação intra e intersetorial em ST na APS, onde os participantes relataram que “não têm matriciamento” (M1), não sabem “como ir atrás [do] CEREST” (E2), que os serviços em ST “não têm atuado” (D1) no território, e consequentemente os profissionais “têm pouco acesso” a rede, uma vez que “todas as vezes que eu encaminhei, eu não recebi contrarreferencia” (M3). Nessa conjuntura, a intra e intersetorialidade em ST são vistas como uma prática fragilizada, por serem apresentadas como algo “surreal” (D1), “praticamente nula” (M1) e “bem vaga” (E2). Infere-se que esse cuidado fragmentado e individualizado ocorra em virtude da ST não ser prioritária nas ações da APS e ações transversais não serem valorizadas, necessitando-se de mudanças no processo de trabalho para que ocorra a operacionalização da rede em ST a partir da articulação dos diversos setores sociais e da saúde, visando à integralidade do cuidado ao trabalhador.

Conclusões / Considerações finais

O discurso dos profissionais evidenciou que, na prática, os avanços no campo da ST não garantiram a efetivação da intra e intersetorialidade a partir da integração de diversos setores que visam à prevenção e controle dos riscos laborais e ambientais, sendo está praticamente inexistente. Destaca-se indícios de uma prática profissional precarizada, resultante de um percurso histórico em que o processo de trabalho depende de como as relações sociais dominantes na sociedade tecem as redes de atenção à saúde, ficando explicito a fragilidade no vínculo com os serviços de ST, necessário para integração do sistema e para interdisciplinaridade. Os sentidos construídos apontam para necessidade de um trabalho colaborativo em ST. Como limitação deste estudo, aponta-se a inclusão apenas de profissionais de nível superior das eSF, o que pode limitar a compreensão do tema estudado e os sentidos e significados atribuídos a ST, na perspectiva da intra e intersetorialidade, pelos demais profissionais.

Referências

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Eixo Temático
  • 4.1. Política, Gestão e Atenção Primária à Saúde