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Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) são considerados estratégicos para os usuários da Atenção Primária em saúde. Também são atores fundamentais no acompanhamento dos pacientes com sofrimento mental. Nota-se que a proximidade do ACS com a comunidade potencializa as condições de tratamento e de cuidados relativos à reabilitação social e resolutividade dos casos em saúde, uma vez em que são agentes que perduram no serviço, enquanto observam e lidam com a alta rotatividade dos profissionais de outras categorias. Esta pesquisa tem o objetivo de identificar os impasses e desafios dos ACS que trabalham na Atenção Primária de Saúde acerca do trabalho em saúde mental O presente projeto encontra-se incluído em uma pesquisa de implementação de dispositivos de integração de rede a fim de qualificar o cuidado em saúde mental. Participaram da pesquisa 68 ACS de um município paulista de médio porte e utilizou-se para a coleta de dados a observação participante e a realização de grupo focal. Os resultados foram obtidos através da análise de conteúdo categorial temático e constatou-se que os ACS possuem uma visão estigmatizante e estereotipada do paciente da saúde mental, pouca informação e orientação sobre suas práticas, sobrecarga de trabalho, sofrimento emocional intenso, baixa qualificação do apoio matricial especializado e entraves significativos no trabalho conjunto com a equipe.
Os ACS são considerados peças-chaves no cuidado à saúde entre a unidade de saúde e a comunidade, e possuem um envolvimento desafiador quanto aos papéis que ocupam em seu trabalho: ora usuários no local de trabalho, ora porta de entrada para os usuários do território (LANCETTI E AMARANTE, 2006). Segundo os autores, o fato dos ACS serem parte integrante da comunidade faz com que eles desempenhem a função de mediar e favorecer a comunicação entre os usuários e o serviço de saúde, sendo fundamentais nos atendimentos quando se trata de acompanhamento dos casos e continuidade dos tratamentos, implicando diretamente na realização efetiva da chamada referência e contrarreferência (WAIDMAN, COSTA E PAIANO, 2012). Lancetti (2000, p. 51) elucida sobre os desafios de ser ACS, ao operarem como “psicanalistas de pés descalços que praticam uma clínica muito mais complexa do que a do consultório” vivenciando momentos extramuros, diariamente. Contudo, os ACS enfrentam diversos entraves nos serviços devido à baixa qualificação atrelada à carência de formação sobre saúde mental para suas práticas de trabalho (WAIDMAN, COSTA E PAIANO, 2012).
Identificar os impasses e desafios dos Agentes Comunitários de Saúde nos cuidados em saúde mental em um município paulista de médio porte.
O presente estudo é um subprojeto de uma pesquisa de implementação (PROCTOR et al, 2014) - em andamento - de dispositivos de integração de rede (apoio especializado matricial) a fim de qualificar o cuidado em saúde mental. Trata-se de uma pesquisa qualitativa em que as técnicas de coleta de dados foram: observação participante, grupos sociodramáticos (MORENO, 1959) e grupos focais. Participaram da pesquisa 68 ACS que, após serem divididos em 5 grupos, foram convidados a dramatizar uma cena sobre o trabalho em saúde mental e compartilhar suas impressões, metodologia inspirada na prática referida por Lancetti (2000). Grupos focais foram realizados e áudio gravados depois da sessão psicodramática. Após a transcrição dos áudios realizou-se análise de conteúdo categorial temático (MINAYO, 2001) agrupando os textos em unidades e categorias e reagrupamento analítico, dos trechos de diálogos relacionados às categorias pré-estabelecidas. Em seguida, validou-se o material para consenso. Resultados e Discussão Para os ACS, os pacientes da saúde mental são aqueles cujo diagnósticos caracterizam-se como transtorno mental grave, com destaque para a esquizofrenia. Com base nos dados analisados, alguns aspectos chamaram a atenção na compreensão dos ACS sobre saúde mental, como uma estigmatização significativa atrelada ao medo dos pacientes e dificuldades no estabelecimento de vínculo. Houve também um sentimento de solidão e desvalorização no trabalho, sofrimento emocional pela sobrecarga e a falta de comunicação e de apoio do restante da equipe. Waidman, Costa e Paiano (2012) apontaram que a ausência de conhecimento dos ACS sobre questões de saúde mental gerava estigma da doença mental e sentimento de incapacitação para atender esse público devido à falta de treinamento. Além dos desafios citados, no cotidiano dos ACS outros destaques foram: alta rotatividade dos demais profissionais da APS, baixa qualificação dos serviços resultante do despreparo para lidar com usuário da saúde mental e a falta de retorno entre as unidades a respeito dos casos, o que evidencia a ausência de apoio especializado matricial para os ACS, impactando na baixa integração de rede para o campo da saúde mental.
Conclui-se que a ausência de matriciamento e apoio entre os profissionais e as dificuldades no manejo com usuários da saúde mental indicam carência de conhecimento e ausência de articulação de rede em saúde mental. Ainda, a desvalorização do trabalho, e a exaustão emocional devido à sobrecarga são fatores que acabam desmotivando o trabalho dos ACS e causando a sensação de desrealização profissional. No entanto, aponta-se que o papel do ACS é imprescindível no campo da saúde mental, tanto para acompanhamento dos casos e continuidade dos tratamentos, quanto para proporcionar melhor resolutividade às demandas dos pacientes. Ressalta-se a necessidade de capacitações voltadas para os ACS, baseadas em programas de educação permanente para maior qualificação do cuidado em saúde mental, que poderiam favorecer significativamente a superação dos entraves na assistência à saúde mental e auxiliar na execução de políticas públicas mais efetivas.
LANCETTI, A. Saúde Mental nas entranhas da metrópole. In: Lancetti, A. (org.). SaúdeLoucura 7: Saúde Mental e Saúde da Família. 2ª ed. São Paulo: Hucitec. p.11-52. 2000; LANCETTI, A.; AMARANTE, P. Saúde Mental e Saúde Coletiva. In: CAMPOS, G.W.S. et al. (Org.). Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec, p.615-634. 2006; MINAYO, M.C.S. (org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. 18 ed. Petrópolis: Vozes, 2001; MORENO, J.L. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. São Paulo: Mestre Jou. 1974; PROCTOR, E. et al. Outcomes for implementation research: conceptual distinctions, measurement challenges, and research agenda. Adm. policy ment. health. v.38 n.2.p. 65-76. 2011; WAIDMAN, M.A.P.; COSTA, B.; PAIANO, M. Percepções e atuação do Agente Comunitário de Saúde em saúde mental. Rev. esc. enferm. USP, São Paulo, v. 46, n. 5, p. 1170-1177. 2012.
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