A IMPLICAÇÃO DO TRABALHO DO AGENTE COMUNITÁRIO DE SAÚDE NOS CUIDADOS EM SAÚDE MENTAL

Vol.1 - 2021 - 136417
Comunicação Oral
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Resumo

Resumo

Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) são considerados estratégicos para os usuários da Atenção Primária em saúde. Também são atores fundamentais no acompanhamento dos pacientes com sofrimento mental. Nota-se que a proximidade do ACS com a comunidade potencializa as condições de tratamento e de cuidados relativos à reabilitação social e resolutividade dos casos em saúde, uma vez em que são agentes que perduram no serviço, enquanto observam e lidam com a alta rotatividade dos profissionais de outras categorias. Esta pesquisa tem o objetivo de identificar os impasses e desafios dos ACS que trabalham na Atenção Primária de Saúde acerca do trabalho em saúde mental O presente projeto encontra-se incluído em uma pesquisa de implementação de dispositivos de integração de rede a fim de qualificar o cuidado em saúde mental. Participaram da pesquisa 68 ACS de um município paulista de médio porte e utilizou-se para a coleta de dados a observação participante e a realização de grupo focal. Os resultados foram obtidos através da análise de conteúdo categorial temático e constatou-se que os ACS possuem uma visão estigmatizante e estereotipada do paciente da saúde mental, pouca informação e orientação sobre suas práticas, sobrecarga de trabalho, sofrimento emocional intenso, baixa qualificação do apoio matricial especializado e entraves significativos no trabalho conjunto com a equipe.

Introdução

Os ACS são considerados peças-chaves no cuidado à saúde entre a unidade de saúde e a comunidade, e possuem um envolvimento desafiador quanto aos papéis que ocupam em seu trabalho: ora usuários no local de trabalho, ora porta de entrada para os usuários do território (LANCETTI E AMARANTE, 2006). Segundo os autores, o fato dos ACS serem parte integrante da comunidade faz com que eles desempenhem a função de mediar e favorecer a comunicação entre os usuários e o serviço de saúde, sendo fundamentais nos atendimentos quando se trata de acompanhamento dos casos e continuidade dos tratamentos, implicando diretamente na realização efetiva da chamada referência e contrarreferência (WAIDMAN, COSTA E PAIANO, 2012). Lancetti (2000, p. 51) elucida sobre os desafios de ser ACS, ao operarem como “psicanalistas de pés descalços que praticam uma clínica muito mais complexa do que a do consultório” vivenciando momentos extramuros, diariamente. Contudo, os ACS enfrentam diversos entraves nos serviços devido à baixa qualificação atrelada à carência de formação sobre saúde mental para suas práticas de trabalho (WAIDMAN, COSTA E PAIANO, 2012).

Objetivos

Identificar os impasses e desafios dos Agentes Comunitários de Saúde nos cuidados em saúde mental em um município paulista de médio porte.

Metodologia

O presente estudo é um subprojeto de uma pesquisa de implementação (PROCTOR et al, 2014) - em andamento - de dispositivos de integração de rede (apoio especializado matricial) a fim de qualificar o cuidado em saúde mental. Trata-se de uma pesquisa qualitativa em que as técnicas de coleta de dados foram: observação participante, grupos sociodramáticos (MORENO, 1959) e grupos focais. Participaram da pesquisa 68 ACS que, após serem divididos em 5 grupos, foram convidados a dramatizar uma cena sobre o trabalho em saúde mental e compartilhar suas impressões, metodologia inspirada na prática referida por Lancetti (2000). Grupos focais foram realizados e áudio gravados depois da sessão psicodramática. Após a transcrição dos áudios realizou-se análise de conteúdo categorial temático (MINAYO, 2001) agrupando os textos em unidades e categorias e reagrupamento analítico, dos trechos de diálogos relacionados às categorias pré-estabelecidas. Em seguida, validou-se o material para consenso. Resultados e Discussão Para os ACS, os pacientes da saúde mental são aqueles cujo diagnósticos caracterizam-se como transtorno mental grave, com destaque para a esquizofrenia. Com base nos dados analisados, alguns aspectos chamaram a atenção na compreensão dos ACS sobre saúde mental, como uma estigmatização significativa atrelada ao medo dos pacientes e dificuldades no estabelecimento de vínculo. Houve também um sentimento de solidão e desvalorização no trabalho, sofrimento emocional pela sobrecarga e a falta de comunicação e de apoio do restante da equipe. Waidman, Costa e Paiano (2012) apontaram que a ausência de conhecimento dos ACS sobre questões de saúde mental gerava estigma da doença mental e sentimento de incapacitação para atender esse público devido à falta de treinamento. Além dos desafios citados, no cotidiano dos ACS outros destaques foram: alta rotatividade dos demais profissionais da APS, baixa qualificação dos serviços resultante do despreparo para lidar com usuário da saúde mental e a falta de retorno entre as unidades a respeito dos casos, o que evidencia a ausência de apoio especializado matricial para os ACS, impactando na baixa integração de rede para o campo da saúde mental.

Conclusões / Considerações finais

Conclui-se que a ausência de matriciamento e apoio entre os profissionais e as dificuldades no manejo com usuários da saúde mental indicam carência de conhecimento e ausência de articulação de rede em saúde mental. Ainda, a desvalorização do trabalho, e a exaustão emocional devido à sobrecarga são fatores que acabam desmotivando o trabalho dos ACS e causando a sensação de desrealização profissional. No entanto, aponta-se que o papel do ACS é imprescindível no campo da saúde mental, tanto para acompanhamento dos casos e continuidade dos tratamentos, quanto para proporcionar melhor resolutividade às demandas dos pacientes. Ressalta-se a necessidade de capacitações voltadas para os ACS, baseadas em programas de educação permanente para maior qualificação do cuidado em saúde mental, que poderiam favorecer significativamente a superação dos entraves na assistência à saúde mental e auxiliar na execução de políticas públicas mais efetivas.

Referências

LANCETTI, A. Saúde Mental nas entranhas da metrópole. In: Lancetti, A. (org.). SaúdeLoucura 7: Saúde Mental e Saúde da Família. 2ª ed. São Paulo: Hucitec. p.11-52. 2000; LANCETTI, A.; AMARANTE, P. Saúde Mental e Saúde Coletiva. In: CAMPOS, G.W.S. et al. (Org.). Tratado de Saúde Coletiva. São Paulo: Hucitec, p.615-634. 2006; MINAYO, M.C.S. (org.). Pesquisa Social. Teoria, método e criatividade. 18 ed. Petrópolis: Vozes, 2001; MORENO, J.L. Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. São Paulo: Mestre Jou. 1974; PROCTOR, E. et al. Outcomes for implementation research: conceptual distinctions, measurement challenges, and research agenda. Adm. policy ment. health. v.38 n.2.p. 65-76. 2011; WAIDMAN, M.A.P.; COSTA, B.; PAIANO, M. Percepções e atuação do Agente Comunitário de Saúde em saúde mental. Rev. esc. enferm. USP, São Paulo, v. 46, n. 5, p. 1170-1177. 2012.

Eixo Temático
  • 7. Política, Planejamento e Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde