Percepção do corpo humano deficiente à luz da Teoria Crip
A Teoria Crip objetiva uma posição analítica crítica sobre o corpo deficiente. Os corpos que não atendem os padrões corporais, cognitivos e funcionais são considerados “desviantes”. Tal normalização está historicamente ligada ao paradigma biomédico, que se faz presente de forma predominante na medicina até a atualidade. Apresentar um relato de experiência de uma atividade prática de ensino em atenção básica. Em uma das aulas de Atenção à Saúde da Comunidade II, sobre o tema “trabalho em equipe multiprofissional”, 50 estudantes, de uma das turmas do 2º ano da FMRP, foram divididos em grupos e convidados a desenhar um corpo humano. A seguir os estudantes receberam a orientação de preparar uma aula a partir do desenho. Um dos grupos elaborou um desenho de corpo humano, sem identificação de gênero e sem uma das pernas, e ministrou a aula sobre Acessibilidade e Inclusão. A experiência trouxe à tona alguns questionamentos: Nossa faculdade teria estrutura para ter e formar um aluno “deficiente”? Temos uma formação que abarca um atendimento integral à saúde desses indivíduos? Pôde-se discutir a noção de diversidade dos corpos ao observar que os desenhos dos grupos foram tomados por perspectivas diferentes. Discutiu-se como a nossa sociedade está construída a partir de um modelo dito normal, em contraponto ao anormal. Essa experiência ressalta como a produção e o exercício médico endossam a visão de corpos deficientes enquanto anormais, não capazes. Traz à tona a prática assistencialista e corretiva sobre tais corpos. Pautas como saúde mental e sexual de tais indivíduos são alocadas à margem. Dentro desse contexto os princípios doutrinários do SUS são feridos. Urge, portanto, a necessidade de trazer esse debate para a formação médica, a fim de que os profissionais estejam capacitados a pensar a saúde para além da perspectiva binária.