O que pensa o profissional religioso de CAPS sobre espiritualidade?
Foi realizada uma pesquisa qualitativa entre março e junho de 2016 com o objetivo de descrever a concepção dos profissionais religiosos que trabalham na clínica psicossocial quando o tema é espiritualidade, crenças pessoais ou religião. Buscou-se enfatizar nas entrevistas aspectos transferenciais e contratransferenciais destes através de entrevistas semidirigidas. Após a transcrição e análise de conteúdo, foram elegidas as seguintes categorias temáticas: “O livre arbítrio e a liberdade de escolhas”, “o vínculo e a religião”, “o profissional religioso e o incentivo à busca da religião/espiritualidade” e “o estado laico”. Analisou-se sistemas de pensamento de base religiosa nas ações do cotidiano de vários profissionais através da compreensão do caráter e moral individuais, e em sua repercussão na tomada de decisões contratuais com o usuário. Para alguns entrevistados estas decisões foram comparadas ao modelo de heterogestão por conceitos que permeiam a moral individual. Frente ao usuário pôde-se constatar que os psicólogos acreditaram que divulgar sobre suas crenças religiosas poderia comprometer de alguma forma o vínculo, possivelmente justificado pela própria formação destes. Observou-se também que se alguns trabalhadores dissessem algo aos usuários que fosse semelhante à crença do indivíduo, isto os proporcionaria alguma vantagem sob o substrato clínico. Finalmente notou-se uma compreensão torpe sobre determinados aspectos garantidos por lei, como a liberdade de culto e a laicidade do Estado. Discutiu-se que reconhecer tais possibilidades poderia enriquecer a prática clínica e a convivência entre profissionais dos CAPS assegurando a pluralidade nos serviços. Questionou-se, em um relato, sobre a laicidade das comunidades terapêuticas e como isso poderia ferir determinados quesitos importantes da reforma psiquiátrica no Brasil. Por fim, acredita-se pela complexidade do tema e pelas implicações que isso possa advir na clínica psicossocial que novos estudos sejam realizados para aprofundar detalhadamente sobre as questões que envolvem a espiritualidade e o profissional da área da saúde mental.