Louca é a mãe!
A loucura é socialmente estigmatizada pelo medo do diferente; do imprevisível; da periculosidade; da ameaça de um corpo que temos a necessidade de estabelecer uma relação de controle e domínio sobre seus modos de existência. Diante a loucura, focamos na doença e/ou no cuidado? Objetivo: Discutir o caso de uma usuária considerada louca pela sua família e, por isso, negligenciada. Discussão: Conhecemos Tânia, gestante em situação de rua, 24 anos, em sua primeira consulta de pré natal (IG 30 semanas), em meio a um surto psicótico, trazida à eqSF pelos familiares, que discursavam não ter condições ou interesse de acolhê-la em casa. A equipe apostou em um plano de cuidado conjunto ao CAPS a fim de corresponsabilizar a família, já que o sentimento de pertencimento ao núcleo familiar beirava ao abandono. A usuária recebeu acompanhamento psiquiátrico, mas necessitou de internação no CAPS pela gravidade do quadro e afastamento da rede de apoio, que manteve-se frágil durante o seguimento, inclusive com evitação e descrédito às suas demandas. O matriciamento entre equipes do CAPS e ESF foram realizados semanalmente, com reuniões familiares para discutirmos os afetos produzidos nos encontros família-usuária. Ao pensarmos no cuidado em saúde mental enquanto trabalhadores de saúde, devemos desconstruir a nossa atitude protocolar-normatizadora em prol da complexidade do sujeito que busca cuidado e das suas formas de produzir a si. Como reinventar ações em saúde que potencializem o outro? Nesse caso a presença constante e irreverente de Tânia mobilizou a equipe; desconstruiu estigmas; ressignificou nossas formas de produzir cuidado; transformou a idéia de vínculo; demandou investimento constante pela corresponsabilização familiar e culminou na adoção da sua filha pelos tios e no acolhimento da usuária na casa da ex-madrasta. A mãe permaneceu distante, resistente a qualquer aproximação da equipe. Mas quem é a mãe, senão o abandono?